Desespero e isolamento afetam civis em zonas de conflito na Ucrânia, diz relatório do ACNUR

Novo relatório das Nações Unidas mostra que o conflito no leste da Ucrânia está afetando severamente a vida cotidiana da população, com crescente sentimento de desespero e isolamento entre os que vivem em zonas de conflito, especialmente nas áreas controladas por grupos armados.

Crianças em Debaltseve, na província de Donetsk Oblast, na Ucrânia. Foto: UNICEF/Aleksey Filippov

Crianças em Debaltseve, na província de Donetsk Oblast, na Ucrânia. Foto: UNICEF/Aleksey Filippov

Mesmo com a queda do número de mortes de civis no leste da Ucrânia nos últimos meses, novo relatório das Nações Unidas mostra que o conflito está afetando severamente a vida cotidiana da população, com crescente sentimento de desespero e isolamento entre os que vivem em zonas de conflito, especialmente em áreas controladas por grupos armados.

“Há uma terrível sensação de abandono e isolamento político, social e econômico entre um enorme número de pessoas – mais de 3 milhões no total – que estão lutando para conseguir viver na zona de conflito. Eles têm necessidades urgentes de maior proteção e apoio”, disse o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Raa’ad Al Hussein, em comunicado.

Luta diária pela sobrevivência

O mais novo de uma série de relatórios sobre a Ucrânia do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que cobre o período de 16 de novembro de 2015 a 15 de fevereiro de 2016, coloca o foco particularmente na luta diária por sobrevivência de pessoas vivendo na fronteira que separa as autoproclamadas República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk do restante da Ucrânia.

De acordo com o ACNUR, muitas residências foram danificadas e saqueadas. Administrações locais não estão funcionando, e o aceso a serviços públicos básicos está limitado. Água e comida são caras e difíceis de adquirir. A liberdade de movimento é severamente prejudicada pelos pontos de controle, que muitas vezes deixam centenas de veículos parados na fronteira e passageiros obrigados a passar a noite na estrada, submetidos a temperaturas congelantes.

Moradores de territórios controlados por grupos armados estão particularmente vulneráveis a violações dos direitos humanos, disse o relatório, descrevendo como eles vivem em um ambiente caracterizado pelo crescimento de estruturas de governo paralelas, pela completa ausência da força da lei, com relatos de prisões arbitrárias, tortura e maus-tratos.

“Peço que as autoridades ucranianas garantam uma investigação rápida e imparcial sobre cada violação reportada aos direitos humanos”, disse Zeid. “A responsabilização é essencial para levar justiça às vítimas, acabar com a impunidade e impulsionar uma paz de longo prazo, e também é importante para combater mais violações de autoridades estatais.”

Cessar-fogo permanece tênue

O relatório da ONU também mostra que o cessar-fogo no leste da Ucrânia permanece tênue, com reportadas violações e a continuada ocorrência de bombardeios indiscriminados, além da presença de minas e fragmentos de armamentos de guerra.

Durante o período analisado, houve 78 mortes de civis relacionadas aos conflitos no leste da Ucrânia, o que levou os números de baixas estimadas desde o início do conflito para mais de 30 mil, incluindo ao menos 9,16 mil mortos e 21 mil feridos. Os números incluem civis assim como membros de forças de segurança ucranianas e de grupos armados.