Desenvolvimento rural será dividendo da paz na Colômbia, diz Juan Manuel Santos

Agricultor pastoreia o gado na Colômbia. Foto: Banco Mundial / Edwin Huffman

Juan Manuel Santos, presidente colombiano e ganhador do Nobel da Paz de 2016, detalhou na quinta-feira (15) sua visão sobre o futuro do país depois de uma guerra civil de mais de 50 anos, afirmando que o dividendo da paz será colhido muito além das fronteiras da Colômbia.

“A paz em nosso país é uma paz que beneficia o mundo em muitas frentes, e uma delas é a segurança alimentar e o desenvolvimento da agricultura”, afirmou, durante visita à sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em Roma, na Itália.

O presidente assinou recentemente um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o que encerrou uma longa negociação e décadas de conflito que deixou mais de 200 mil mortos e deslocou milhões de pessoas.

Colômbia, FAO e União Europeia, além do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), comprometeram-se a fazer do desenvolvimento rural uma prioridade e uma ferramenta de manutenção da paz.

“Nosso campo também foi vítima do conflito armado, que prejudicou nosso setor rural, aumentou a diferença com as áreas urbanas e aprofundou as desigualdades no nosso país”, disse Santos.

“A Colômbia demonstrou que só existe um caminho para a paz, que é o caminho de diálogo, negociação, cooperação, inclusão e igualdade, e que também é o caminho para o desenvolvimento sustentável, onde ninguém deve ser deixado para trás”, afirmou por sua vez o diretor-geral da FAO, José Graziano, em suas boas-vindas ao líder colombiano.

Graziano também agradeceu o presidente Santos por aceitar o convite para se unir à Aliança FAO-Prêmios Nobel pela Segurança Alimentar e pela Paz. Lançada em maio, a iniciativa une vencedores do prêmio aos esforços da FAO para romper o vínculo entre conflito e fome, com o objetivo de promover a resiliência no mundo todo.

O acordo de paz da Colômbia é “um exemplo de que o impossível se torna possível” e se apresenta como um modelo para todos os demais países que buscam erradicar a fome e a pobreza extrema e alcançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), completou Graziano.

Nesse sentido, Neven Mimica, Comissário Europeu de Cooperação Internacional e Desenvolvimento, expressou seu firme apoio em “tornar o impossível possível”, e afirmou que esta semana a União Europeia lançou um fundo fiduciário de 95 milhões de euros para impulsionar as economias rurais locais da Colômbia.

O futuro da Colômbia

O presidente colombiano enfatizou que uma questão-chave para manter a paz na Colômbia é fomentar o desenvolvimento rural nas comunidades cujos meios de subsistência foram prejudicados pelo conflito.

“Isso inclui um compromisso especial com as mulheres do campo, porque entendemos que a guerra as afetou de forma particular e desproporcional, e receberão apoio adicional em planos e programas”, afirmou.

Segundo ele, a FAO é uma parceira importante para o governo que agora se prepara para implementar a Estratégia de Resposta Rápida para acelerar os investimentos nos setores rurais que necessitam de emprego e prosperidade para fortalecer a confiança em uma paz duradoura.

O plano inclui grandes investimentos em infraestrutura em áreas onde até agora a presença do Estado foi escassa ou inexistente e se centrará em sistemas de irrigação, rodovias, eletricidade, cobertura de Internet e esquemas de crédito rural, redes de distribuição de sementes, subsídios agrícolas e escolas, além de acesso à água potável, instalações de drenagem e programas de segurança alimentar e nutricional.

“São investimentos que teríamos que fazer com ou sem um acordo de paz”, disse Santos.

Um uso mais eficiente da terra é um componente-chave do plano, para o qual a FAO já se comprometeu a ajudar a elaborar diretrizes. Foram redigidas novas leis agrárias para proteger os direitos de propriedade rural, e será criado um fundo de terras para os camponeses sem terra.

“A Colômbia está entrando em uma fase de pós-conflito na qual a paz é especialmente vulnerável”, disse Graziano. A paz, completou, “deve ser cultivada constantemente”.

O país conta com o apoio da FAO e da União Europeia, além do PNUD e de grupos da sociedade civil como Via Campesina, afirmou Santos.

Fundo de desenvolvimento agrícola

O Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola da ONU (FIDA) também investe na Colômbia com o objetivo de reverter os efeitos das décadas de conflito interno. O projeto do FIDA alcançará aproximadamente 50 mil famílias em áreas rurais que vivem na extrema pobreza. Assista ao vídeo sobre o tema.