Demanda brasileira por pasta de cocaína estimula produção e circulação de drogas no Peru, alerta ONU

Efeitos de drogas como o crack e o oxi são devastadores. Na imagem, uma criança dependente em São Paulo. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um novo relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) analisou pela primeira vez o problema e o impacto da pasta básica de cocaína no Peru – ou pasta de cocaína, PBC, pasta, basuco, pitillo ou paco, como é conhecida em outras partes da América do Sul – desde sua aparição, há mais de quatro décadas. O abuso da PBC leva à dependência grave e tornou-se um problema crescente no Peru e em muitos países sul-americanos.

E o problema tem, segundo as evidências contidas no relatório, relação direta com toda a região, incluindo o Brasil.

A agência da ONU destaca no documento que, no que diz respeito à exportação no âmbito sul-americano, a pasta de cocaína sai do Peru por diversas fronteiras, com uma tendência de alcançar os mercados das drogas no Equador, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai – e Brasil.

Segundo o UNODC, nos últimos anos tem havido uma mudança nas rotas de saída, aumentando o escoamento terrestre para o sudeste do país, principalmente por Puno e Madre de Dios. A variação – afirma o documento – estaria ocorrendo devido ao aumento da demanda da droga no Brasil, como consequência do crescimento acelerado de seu uso para a elaboração de drogas como o crack ou o oxi, uma variante ainda mais agressiva e barata do crack.

“A frequência com que se apreende a droga evidencia que um fluxo importante de PBC produzida no Peru tem como destino o mercado brasileiro. Esta substância não é proveniente apenas de áreas próximas à fronteira [peruana] com o Brasil (Caballococha, Cushillococha, Yuvineto, Santa Clotilde, entre outras cidades de Loreto), o mesmo se aplica a outras áreas de produção do país, como San Gabán, Inambari e Tambopata na fronteira com a Bolívia, na passagem do mercado brasileiro”, aponta o relatório no capítulo sobre distribuição e comercialização.

Risco para a saúde é alto

A PBC é um produto intermediário na produção de cocaína, em que as folhas de coca são misturadas com os produtos químicos industriais e solventes, como ácido sulfúrico e querosene. Os usuários geralmente fumam PBC e a droga gera dependência física e psicológica grave dentro de algumas semanas de uso, tornando-se muito mais complexo e difícil de tratar do que o uso de opiáceos.

O uso da PBC induz ainda mais a psicose e expõe os usuários a uma série de riscos à saúde, tais como falta de ar, ataque cardíaco, dano cerebral, infecções, além de comportamento antissocial e até mesmo criminal. Em algumas partes da América do Sul, o uso da PBC criou sérios desafios para os sistemas de saúde pública.

Prontamente disponível e relativamente de baixo custo, o uso da PBC traz o risco de criar uma epidemia de saúde potencialmente explosiva com graves consequências sociais.

O relatório, produzido no Peru pelo UNODC e pela Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (DEVIDA), mostra que seis em cada dez usuários de PBC no país desenvolvem problemas de dependência de drogas. Constatou-se que, entre os menores infratores no país, 21,8% declararam alta prevalência de uso da PBC.

Com a idade de início de consumo podendo chegar a 13 anos, o potencial de dependência em grande escala é alta. Além disso, anteriormente considerada “droga do homem pobre” devido a seu baixo custo, o uso da PBC não está mais concentrado entre os usuários de baixa renda: durante as duas últimas décadas o número de usuários de classes mais altas aumentou.

O relatório foi produzido com o objetivo de aumentar o conhecimento sobre o uso da PBC e suas implicações para a sociedade peruana, a fim de informar as estratégias para promover políticas de prevenção e tratamento no país.

“O uso de drogas ilícitas e de dependência é um problema de saúde pública”, disse o representante do UNODC no Peru, Flavio Mirella. “Dada a dimensão do problema da PBC no Peru, nós encorajamos o governo e seus parceiros a desenvolver estratégias de prevenção para desencorajar a sua utilização e disponibilizar opções de tratamento que respeitem os direitos humanos e que sejam projetados de acordo com as necessidades dos viciados”, acrescentou.

Acesse o documento em espanhol, em http://bit.ly/16MlUw2