Declarações de premiê britânica são um presente a líderes autoritários, diz alto-comissário da ONU

No início de junho, a primeira-ministra britânica Theresa May, afirmou que as leis de defesa dos direitos humanos deveriam ser anuladas caso “entrassem no caminho” da luta contra o terrorismo.

Para o alto-comissário da ONU para os direitos humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, tais comentários foram “um presente de uma importante liderança ocidental às figuras autoritárias em todo o mundo, que violam descaradamente os direitos humanos sob o pretexto de combater o terrorismo”.

Zeid Ra'ad Al-Hussein, alto comissário da ONU para os Direitos Humanos. Foto: ONU/Jean-Marc Ferré

Zeid Ra’ad Al-Hussein, alto comissário da ONU para os Direitos Humanos. Foto: ONU/Jean-Marc Ferré

O alto-comissário da ONU para os direitos humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, criticou na segunda-feira (26) a primeira-ministra britânica, Theresa May, por seus recentes comentários sobre ataques terroristas na Europa.

No início de junho, May afirmou que as leis de defesa dos direitos humanos deveriam ser anuladas caso “entrassem no caminho” da luta contra o terrorismo.

Mais especificamente, a premiê britânica afirmou a necessidade de “restringir a liberdade e mobilidade de suspeitos de terrorismo quando tivermos evidências suficientes de que eles são uma ameaça, mesmo sem provas para levá-los a julgamento”.

Segundo Zeid, tais comentários foram “um presente de uma importante liderança ocidental às figuras autoritárias em todo o mundo, que violam descaradamente os direitos humanos sob o pretexto de combater o terrorismo”.

Para o alto-comissário da ONU, as palavras de Theresa May buscavam não apenas atingir um público abalado pelos ataques, mas também setores do eleitorado britânico.

Em discurso durante evento em Londres, o alto-comissário da ONU responsabilizou, em parte, a cultura dos jornais sensacionalistas britânicos, lembrando que as leis de defesa dos direitos humanos têm sido ridicularizadas por jornais influentes no país.

“Esse ponto de vista tem alguma ressonância em uma parte do público inconsciente da importância do direito internacional e dos direitos humanos”, ressaltou.

Abordando as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, Zeid afirmou que o atual clima político no Reino Unido e nos Estados Unidos pode ameaçar leis consagradas no pós-guerra, um período de esperança e reconciliação.

“Apenas a morte de 100 milhões de pessoas em duas guerras mundiais e no Holocausto pode despertar a vontade necessária de uma profunda mudança. A humanidade caiu de um penhasco, sobreviveu e, tendo se amedrontado por isso, se tornou mais sábia”, disse.

Ele lembrou que, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados elaboraram a Carta das Nações Unidas e fortaleceram as leis internacionais, estabelecendo normas sobre os direitos humanos e sobre o refúgio.

Zeid também criticou o presidente norte-americano, Donald Trump, por alimentar ressentimentos na população.

“Em vez de se concentrar em indivíduos potencialmente violentos impulsionados pela ideologia Takfiri [grupos extremistas que afirmam perseguir inimigos do Islã], ou qualquer outra ideologia extrema, a administração Trump está insistindo em ordens de proibições de viagens até a Suprema Corte, apesar de já terem sido declaradas inconstitucionais nos tribunais inferiores”, disse.

Ao concluir, ele observou: “alguns políticos, para os quais direitos econômicos, sociais e culturais significam pouco, são indiferentes às consequências de uma austeridade econômica”.

“Eles vêem os direitos humanos apenas como um cheque irritante sobre a conveniência — a moeda do mundo político. Para outros, a indiferença não é suficiente. A rejeição da agenda de direitos é expressa em termos cheios de desprezo pelos outros, um desfile de maldades”, declarou.


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