Curso de idiomas ajuda na integração de refugiados no Rio de Janeiro

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No ‘Abraço Cultural’, professores são refugiados e ensinam o idioma e cultura de seus países de origem.

Aprender um idioma através da troca de experiências com professores refugiados – essa é a proposta do Abraço Cultural. O projeto surgiu em São Paulo, em julho de 2015, e hoje conta com dois espaços de atuação no Rio de Janeiro, em Botafogo e na Tijuca.

Tatiana Rodrigues, coordenadora e cofundadora do Abraço Cultural Rio, conta que o curso foi criado com o objetivo de ajudar na integração dos refugiados, empoderá-los e estimular sua independência financeira. “Os alunos vêm por causa dos professores e essa valorização deles é muito importante”, explica Tatiana.

A Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, que atua em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) na proteção e promoção social dos direitos de refugiados e solicitantes de refúgio, é uma das parceiras da iniciativa.

Cacau Vieira é coordenadora pedagógica e cofundadora do Abraço Cultural Rio. Para ela, a mudança é visível na postura dos professores e no próprio domínio do idioma. “Os professores quando chegam aqui, o português é um. Seis meses depois, o português é outro e isso acontece porque eles começam a se inserir na comunidade”, conta Cacau.

Como a maioria dos refugiados não têm experiência anterior na sala de aula, o curso oferece uma capacitação pedagógica e aulas de português para estrangeiros como parte do treinamento.

Adel Bakkour passou por esta capacitação e atualmente é professor de árabe no Abraço Cultural. Adel é refugiado sírio e estudante universitário, e avalia o impacto do projeto em sua vida. “Eu adoro o Abraço Cultural. Minha vida realmente mudou depois de conhecer as coordenadoras, os professores, os alunos”, afirma Adel.

Ele considera que o contato com os alunos contribuiu para a sua integração na cidade, e fica feliz por ter ajudado a desconstruir um estereótipo. “Eu quebrei um pouco essa imagem que a mídia passa, e eles me ajudaram a me adaptar mais aqui no Rio de Janeiro”, afirmou, lembrando da festa surpresa que os alunos organizaram em seu aniversário no ano passado.

“Eles trabalharam para fazer um doce árabe e foi uma surpresa de verdade, eu não esperava. Foi no início das aulas e me deixou muito feliz, me sentindo bem por dar aula”, conta Adel.

Ender Molina também é professor do curso. O refugiado venezuelano dá aula de espanhol, e lembra como no começo a adaptação foi difícil. “O Abraço Cultural é uma grande oportunidade para quem chega e não conhece nada, não fala o português direito”, afirma Ender.

Para ele, a troca de experiências entre alunos e professores é um grande destaque do curso. Um dos momentos mais especiais para ele foi durante um lanche coletivo no final do período, quando todos os alunos o abraçaram. “Eu não esperava e foi muito gratificante. Isso me fortaleceu muito, pois não sabia que tinha despertado tanto carinho. Fiquei muito feliz”, conta Ender.

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Um destaque do curso é o ensino do idioma aliado à cultura, abordando questões culturais e históricas diferentes dos cursos tradicionais. “Isso nos vemos principalmente nos cursos de inglês, espanhol e francês”, explica Cacau. “As referências culturais costumam ser europeias ou americanas, e é muito importante mostrar que existem outras referências para quem vai aprender uma língua estrangeira.”

Rafael Mota Miranda estuda francês no Abraço Cultural e vê esta questão como um grande diferencial. “São as metodologias que a gente mais vê no mercado, mas com uma abordagem diferente”, conta Rafael.

Rafael sempre gostou de aprender idiomas, e se interessou pelo projeto por querer participar do processo de integração pelo qual os professores passam e por buscar novas perspectivas históricas. “Meu professor é congolês [da RDC] e vejo uma série de questões históricas que são tratadas lateralmente na aula e é muito interessante. Isso faz com que a gente tenha uma experiência cultural bem diferente”, opina Rafael.

Uma vez por mês, o curso organiza também uma aula cultural temática e aberta ao público, com diversas atividades, como aulas de dança e debates. Roberta Sousa, coordenadora de comunicação do Abraço Cultural Rio, explica que a proposta é unir idioma e cultura. “As aulas culturais são primordiais, pois é o lugar onde fazemos atividades práticas. É um espaço para dança, gastronomia e debate”, explica Roberta.

“É também um espaço de confraternização dos alunos, para conhecer todos os professores”, complementa Roberta. Há também a venda de artesanato e comidas típicas por refugiados que não atuam como professores no curso.


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