Curdos sírios fugindo para Turquia chegam a 140 mil, aumentando necessidades humanitárias

Migração em massa ocorreu por conta do crescente avanço do grupo terrorista Estado Islâmico. País já abriga mais de 850 mil refugiados sírios.

Migração em massa ocorreu por conta do crescente avanço do grupo terrorista Estado Islâmico. País já abriga mais de 850 mil refugiados sírios.

Refugiados curdos sírios atravessam a fronteira para a Turquia depois de fugir de combates em torno da cidade de Kobani, no nordeste da Síria. Foto: ACNUR/I. Prickett

Refugiados curdos sírios atravessam a fronteira para a Turquia depois de fugir de combates em torno da cidade de Kobani, no nordeste da Síria. Foto: ACNUR/I. Prickett

O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) disse nesta terça-feira (24) que mais de 138 mil refugiados da Síria, principalmente de etnia curda fugindo das ameaças de militantes do Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês) em cidades e aldeias no norte da Síria, se deslocaram até o sul da Turquia desde sexta-feira (19).

As chegadas mais recentes aconteceram nos dois pontos de fronteira que permanecem abertos: Yumurtalik e Murstipinar/Akmanak. Ao longo do conflito sírio, a cidade de Kobani era relativamente segura e intocada, onde cerca de 200 mil deslocados internos de outras partes do país encontram refúgio.

Mas com o crescente avanço do Estado Islâmico e um cerco à cidade, uma enorme parte da população foi forçada a abandonar suas casas e procurar proteção e segurança na província turca de Sanliurfa.

O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas (ACNUDH) recebeu relatos alarmantes sobre o assassinato deliberado de civis, incluindo mulheres e crianças, o rapto de centenas de curdos pelo ISIL e saques e destruição de infraestrutura e de propriedades, disse o porta-voz do escritório da ONU, Rupert Colville, em entrevista coletiva em Genebra. No sábado (20), o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, exigiu o fim imediato da violência.

A porta-voz do ACNUR, Melissa Fleming, disse em Genebra que as autoridades turcas estão gerenciando a entrada de refugiados através de dois pontos de fronteira (antes eram nove) em três fases: verificação de segurança, a fim de manter o caráter civil de asilo; exames de saúde, incluindo vacinação de sarampo e contra a poliomielite para crianças; e por fim registro.

Centros de registro móveis, instalados em caminhões de grande porte doados pelo ACNUR e equipados com computadores, equipamentos de biometria e câmeras fotográficas estão operando na passagem da fronteira de Yumurtalik.

O registro também é realizado por funcionários do governo em um colégio interno em Onbirnisan, no distrito de Suruc que no momento hospeda cerca de 50 mil refugiados, assim como o centro da cidade Suruc – a menos de 15 quilômetros da fronteira com a Síria.

Uma vez registrados, os refugiados recebem um cartão de identificação que dá acesso aos serviços de saúde gratuitos em clínicas turcas, bem como outros auxílios prestados pelos municípios locais, organizações não governamentais e outras agências humanitárias. O cartão é um documento fundamental, pois comprova que os refugiados têm a proteção temporária do governo turco.

“As equipes de campo do ACNUR estão visitando as áreas de fronteira e áreas onde refugiados são diariamente acolhidos, avaliando as necessidades urgentes e coordenando as respostas com outros atores humanitários”, disse Fleming.

“Nossas equipes relatam que a maioria dos recém-chegados é formada por mulheres, crianças e idosos, que chegam exaustos depois de caminhar vários quilômetros em uma difícil estrada empoeirada para encontrar segurança, carregando seus pertences. Alguns dos idosos e deficientes são transportados por seus familiares, e as cadeiras de rodas são completamente inadequadas para o terreno acidentado”, acrescentou Flemming.

Na chegada, os refugiados recebem água antes de serem transportados para um centro de registro. O Crescente Vermelho da Turquia montou uma tenda médica para atender os refugiados feridos, e mais de 290 sírios foram levados de ambulância para o hospital de Suruc no último fim de semana.

O ACNUR está fornecendo dezenas de milhares de itens de ajuda humanitária – cobertores, colchonetes, comida enlatada e lençóis de plástico – para ajudar a resposta coordenada pelo governo da Turquia. Já foram enviados 20 mil lençóis, 10 mil colchonetes, 5 mil galões para transporte e armazenamento de água e 2 mil lonas de plástico.

A porta-voz disse que o primeiro de uma série de comboios aéreos vindo de Amã, na Jordânia, trará ajuda para até 200 mil pessoas. Espera-se que o primeiro voo chegue nesta quarta-feira (24), na Turquia. Outros três voos vindos de Amã e Copenhague chegarão ainda essa semana.

“Gostaria de exaltar a resposta acolhedora da Turquia ao oferecer refúgio e assistência a esta população tão subitamente e violentamente afastada de suas casas por temer por suas vidas”, afirmou o alto comissário das Nações Unidas para Refugiados, António Guterres, em nota divulgada pelo ACNUR. “Esse fluxo massivo mostra o quão importante é oferecer e preservar o espaço para refúgio aos sírios, assim como a necessidade de mobilizar apoio internacional aos países vizinhos, que tão generosamente os acolhem”, completou Guterres.

Muitos refugiados estão abrigados com parentes e amigos, outros estão em escolas, salões de festas, mesquitas e outros edifícios. O governo turco criou dois campos para 10 mil pessoas, o de Suleymansah Park em Mursitpinar e Onbirnisan, em Suruc, com o apoio do ACNUR.

O governo também continua seu trabalho em dois novos campos já em curso – Derik Camp em Mardin e Islahiye – também com o apoio do ACNUR. A Turquia já abriga mais de 850 mil refugiados sírios.