‘Crueldade horrível’ contra crianças na República Centro-Africana tem que acabar, diz UNICEF

Em dois meses, pelo menos 133 crianças foram mortas ou mutiladas no país, onde a violência infantil atingiu níveis “sem precedentes”, segundo agência da ONU.

Crianças esperam por água na escola onde estão abrigadas do aumento da violência sectária e brutal na República Centro-Africana. Foto: IRIN/Hannah McNeish

Crianças esperam por água na escola onde estão abrigadas do aumento da violência sectária e brutal na República Centro-Africana. Foto: IRIN/Hannah McNeish

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) disse na quinta-feira (13) que está “horrorizado” com a crueldade e a violência perpetradas contra as crianças da República Centro-Africana (RCA), onde pelo menos 133 delas foram mortas ou mutiladas nos últimos dois meses.

“As crianças são cada vez mais visadas por causa de sua religião ou por causa de sua comunidade”, disse o diretor regional do UNICEF para a África Ocidental e Central, Manuel Fontaine.

Segundo a agência, a violência infantil atingiu níveis “sem precedentes” nas últimas semanas, à medida que disputas entre os muçulmanos do grupo Séléka e os cristãos dos anti-Balaka foram acirradas.

O UNICEF recebeu relatos de crianças decapitadas, mutiladas e feridas, que tiveram seus membros amputados, pois não conseguiram chegar a tempo no centro médico.

“Embora a violência esteja sendo cometida por todos os grupos, os alvos mais recentes têm sido os muçulmanos, resultando na evacuação de comunidades inteiras e um aumento significativo no número de crianças desacompanhadas, separadas de suas famílias. Estas crianças estão particularmente em risco”, disse o UNICEF.

A agência está pedindo que o governo, as comunidades e os líderes civis e religiosos ajudem a acabar com a violência e promovam a reconciliação e que os casos de violações graves contra crianças sejam investigados e os culpados sejam punidos.

Mais da metade dos habitantes do país precisam de assistência humanitária

O país tem a terceira maior taxa de mortalidade materna no mundo e a sexta maior taxa de mortalidade infantil, mesmo antes do início da atual crise, alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS), acrescentando que a grande maioria das clínicas foram danificadas e saqueadas e os profissionais tiveram que deixar seus postos devido à insegurança.

Segundo o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), estima-se que 2,5 milhões de pessoas – mais da metade dos 4,6 milhões de habitantes da RCA – necessitam de assistência.

Os programas essenciais para a promoção da saúde no país, como a vacinação, foram interrompidos e as pessoas têm sido forçadas a fugirem para acampamentos insalubres.

A OMS e seus parceiros têm tomado uma série de medidas para resolver a situação, tentando ampliar os serviços de saúde às pessoas deslocadas nos campos.

Mais de 140 mil crianças foram vacinadas, especialmente contra o sarampo, e medicamentos para atender às necessidades de 180 mil pessoas para os próximos três meses foram distribuídos.

Enquanto isso, a porta-voz do Programa Mundial de Alimentos (PMA), Elisabeth Byrs, disse que o transporte aéreo de comida para a RCA, que começou na última terça-feira (11), continua e está previsto para durar um mês.

Esta operação vai levar um total de 1,8 tonelada métrica de cereais, o suficiente para alimentar 150 mil pessoas durante um mês.

Dois comboios rodoviários transportando 1,2 tonelada chegaram à cidade de Bangui entre os dias 8 e 13 de fevereiro, permitindo ao PMA reabastecer seus estoques e aumentar as rações distribuídas diariamente. Até agora, somente este mês, a agência já forneceu ajuda alimentar para 39 mil deslocados internos ou pessoas extremamente vulneráveis em Bangui e nas cidades de Bouar e Bossangoa.