Crise prolongada leva a ‘alarmante escalada de tensões’ na Venezuela, diz ONU

A “crise prolongada” na Venezuela levou a uma “escalada alarmante de tensões”, alertou na terça-feira (26) a chefe de Assuntos Políticos da ONU, Rosemary DiCarlo. Em pronunciamento no Conselho de Segurança, a dirigente anunciou que as Nações Unidas têm agora um esforço coordenado, em andamento, para entregar assistência humanitária o mais perto dos venezuelanos que passam necessidade, com foco em nutrição, saúde e proteção.

Rosemary DiCarlo, chefe de Assuntos Políticos da ONU, em pronunciamento no Conselho de Segurança sobre a situação da Venezuela. Foto: ONU/Eskinder Debebe

Rosemary DiCarlo, chefe de Assuntos Políticos da ONU, em pronunciamento no Conselho de Segurança sobre a situação da Venezuela. Foto: ONU/Eskinder Debebe

A “crise prolongada” na Venezuela levou a uma “escalada alarmante de tensões”, alertou na terça-feira (26) a chefe de Assuntos Políticos da ONU, Rosemary DiCarlo. Em pronunciamento no Conselho de Segurança, a dirigente anunciou que as Nações Unidas têm agora um esforço coordenado, em andamento, para entregar assistência humanitária o mais perto dos venezuelanos que passam necessidade, com foco em nutrição, saúde e proteção.

A alta-funcionária explicou ainda que essas ações da ONU seriam realizadas de acordo com os princípios de humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência. Segundo Rosemary, a ajuda da Organização deve ser “livre de objetivos políticos e entregue com base na necessidade”.

“As informações disponíveis mostram uma triste realidade: a economia continua a se deteriorar, as pessoas estão morrendo de causas evitáveis e deixando o país em busca de assistência”, disse a dirigente, lembrando que grupos da sociedade civil estimam um aumento de mais de 50% na mortalidade infantil e no número de mortes de crianças venezuelanas desde 2017.

Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), indicam que 80% dos hospitais da Venezuela não têm remédios suficientes. Estima-se ainda que até 40% dos profissionais de saúde tenham deixado o país.

“Ainda falta muito a ser feito para responder às necessidades extremamente urgentes do povo venezuelano. A ONU está pronta para perseguir esses esforços. Continuaremos a agir conforme os princípios humanitários, em colaboração com as instituições venezuelanas, a fim de ajudar as pessoas em necessidade”, acrescentou Rosemary.

Chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza, em pronunciamento no Conselho de Segurança da ONU. Foto: ONU/Evan Schneider

Chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza, em pronunciamento no Conselho de Segurança da ONU. Foto: ONU/Evan Schneider

A chefe política da ONU observou que mantimentos enviados pela Rússia e pela China entraram no país, em coordenação com o governo venezuelano. Porém, alimentos e suprimentos médicos armazenados pelos Estados Unidos e outros países nas fronteiras colombianas e brasileiras tiveram sua entrada na Venezuela bloqueada pelas autoridades.

A ONU confirmou que quatro pessoas levaram tiros em meio à violência do último final de semana, como resultado do bloqueio da assistência. Outros 64 indivíduos ficaram feridos perto da fronteira brasileira — a maioria deles por armas de fogo. Rosemary citou ainda dados das autoridades migratórias da Colômbia, que apontam um total de 285 venezuelanos feridos. O Escritório de Direitos Humanos da ONU (ACNUDH) recebeu relatos, acrescentou a dirigente, que indicam o envolvimento de grupos armados pró-governo nos ataques violentos contra os manifestantes.

Falando em nome do governo dos Estados Unidos, Elliot Abrams, representante especial dos EUA para a Venezuela, chamou os membros do Conselho de Segurança a responder às necessidades crescentes do país e da região, contribuir para a democracia venezuelana e “pressionar o regime ilegítimo a deixar (o poder) pacificamente”.

Abrams também questionou o valor do diálogo com o presidente Nicolás Maduro, que, nas palavras do representante norte-americano, “preferia bloquear e queimar remédios e pão doados do que vê-los nas mãos de crianças venezuelanas”.

Vassily Nebenzia, representante permanente da Rússia na ONU. Foto: ONU/Eskinder Debebe

Vassily Nebenzia, representante permanente da Rússia na ONU. Foto: ONU/Eskinder Debebe

O representante permanente da Rússia, Vassily Nebenzia, descreveu a tentativa de levar assistência dos EUA para dentro da Venezuela como “uma tentativa de cruzamento ilegal de fronteira para a entrega de uma carga desconhecida”. O dirigente acrescentou que uma tentativa ilegítima havia sido feita para transferir suprimentos “não verificados”, que não foram solicitados pela Venezuela.

Nebenzia afirmou ainda que, se os EUA quisessem genuinamente ajudar o povo venezuelano, eles teriam operado por meio de agências da ONU. O comissário do Estado russo disse que o seu país entregou com sucesso 7,5 toneladas de produtos médicos por meio da Organização Mundial da Saúde (OMS), sem quaisquer obstáculos.

François Delattre, embaixador da França na ONU, disse que a Venezuela estava passando pela pior crise humanitária da sua história, com a população civil — em particular, mulheres e crianças — sendo intencionalmente visadas. O “regime de Maduro”, disse o diplomata, decidiu privar a sua população da ajuda internacional e não hesitou em matar e ferir centenas dos seus próprios cidadãos desarmados durante confrontos.

Elliott Abrams, representante especial dos EUA para a Venezuela. Foto: ONU/Evan Schneider

Elliott Abrams, representante especial dos EUA para a Venezuela. Foto: ONU/Evan Schneider

Delattre completou que, ao bloquear a ajuda internacional, a Venezuela infligiu a si mesma a reprovação da comunidade internacional e do seu próprio povo.

Também no Conselho de Segurança, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, disse que o pronunciamento de Rosemary DiCarlo era “enviesado” e disseminava informação apenas “de uma fonte”. O chanceler disse que os EUA têm tentado organizar “um golpe” contra o seu país.

Sobre as tentativas de atravessar carregamentos de assistência apoiados pelos EUA e pela oposição na fronteira entre Colômbia e Venezuela, o ministro afirmou: “esse foi o último capítulo do golpe no sábado e eu posso lhes dizer, leiam os meus lábios, ele fracassou”.

“Agora é hora de retornarmos à sanidade e ao respeito pelo direito internacional”, acrescentou o chanceler, afirmando que o governo estava preparado para sentar e negociar com a oposição liderada por Juan Guaidó.

“Entre venezuelanos, podemos construir a nossa própria solução sem intervenção, sem interferência de ninguém, muito menos dos Estados Unidos.”


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