Crise humanitária ameaça futuro de gestantes e crianças na Nigéria, alerta ONU

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A insurgência do grupo terrorista Boko Haram na Nigéria provocou uma crise humanitária sem precedentes na região. Grupos em situação de vulnerabilidade são os mais afetados, com quase 3 milhões de crianças fora da escola e um crescente número de mortes de bebês ainda em gestação por conta da epidemia de cólera.

Desde 2009, mais de 2.295 professores foram mortos e 19 mil deslocados no nordeste do país. Quase 1,4 mil escolas foram destruídas, e a maioria não tem condições de operar devido a extensos danos ou por conta da situação de insegurança na região.

Crianças participam de aula em escola patrocinada pelo UNICEF em Dikwa, estado de Borno, na Nigéria. Foto: UNICEF/Naftalin (arquivo)

Crianças participam de aula em escola patrocinada pelo UNICEF em Dikwa, estado de Borno, na Nigéria. Foto: UNICEF/Naftalin (arquivo)

A insurgência do grupo terrorista Boko Haram na Nigéria provocou uma crise humanitária sem precedentes na região. Grupos em situação de vulnerabilidade são os mais afetados, com quase 3 milhões de crianças fora da escola e um crescente número de mortes de bebês ainda em gestação por conta da epidemia de cólera.

“Crianças no nordeste da Nigéria estão vivendo muito horror”, disse o vice-diretor executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Justin Forsyth, em um comunicado à imprensa na última sexta (29). Ele acabava de voltar de uma visita de três dias à capital do estado de Borno, Maiduguri, epicentro da crise. Cerca de 57% das escolas do estado estão fechadas e 3 milhões de crianças estão sem aula.

Desde 2009, mais de 2.295 professores foram mortos e 19 mil deslocados no nordeste do país. Quase 1,4 mil escolas foram destruídas, e a maioria não tem condições de operar devido a extensos danos ou pela situação de insegurança da região.

O uso de crianças como bombas humanas criou um clima de desconfiança entre as comunidades da região, e o surto de cólera afetou mais de 3,9 mil pessoas, incluindo mais de 2,45 mil crianças.

“Além da desnutrição devastadora, da violência e de um surto de cólera, os ataques às escolas correm o risco de criar uma geração perdida de crianças, ameaçando seu futuro e o de seu país”, acrescentou Forsyth.

No entanto, algumas crianças deslocadas no estado de Borno estão se beneficiando da educação pela primeira vez em suas vidas. No campo Muna Garage, nos arredores de Maiduguri, estima-se que 90% dos alunos estejam matriculados na escola pela primeira vez.

Nos três estados mais afetados do nordeste da Nigéria, o UNICEF e seus parceiros matricularam cerca de 750 mil crianças este ano, estabelecendo mais de 350 espaços de aprendizado temporário e distribuindo quase 94 mil kits de aprendizagem que ajudarão as crianças a aprender.

Contudo, os programas de emergência do UNICEF para salvar vidas no nordeste da Nigéria permanecem sem financiamento. Com apenas três meses restantes no ano, o UNICEF tem um déficit de 40% em suas necessidades para 2017.

Sem defesa

A crise humanitária criada pelo conflito prejudica também aqueles que têm poucas chances de se proteger. Desde o último surto em agosto, mulheres grávidas e seus bebês estão ainda mais vulneráveis ao cólera, alertou o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). E uma das razões é o “papel tradicional” desempenhado pelas mulheres na região.

“Precisamos entender que o cólera não é neutro em termos de gênero”, ressaltou Sylvia Opinia, especialista do UNFPA em questões de gênero. Ela observou que geralmente são mulheres e meninas que cuidam de familiares doentes, limpam latrinas, buscam e manipulam água não tratada.

Devido ao conflito em curso, muitas mulheres grávidas estão desnutridas, agravando sua vulnerabilidade ao cólera e suas conseqüências caso adoeçam.

“Estudos mostram que as infecções por cólera durante a gravidez podem levar à perda súbita do feto, parto prematuro, morte fetal e aumento da mortalidade e morbidade, tanto para o bebê como para a mãe”, disse Homsuk Swomen, especialista em saúde reprodutiva do UNFPA em Maiduguri, uma das áreas mais afetadas pela violência do Boko Haram.

A agência da ONU está trabalhando com parceiros locais para esclarecer meninas e mulheres, sobretudo grávidas. Agentes de saúde também trabalham para identificar os casos e encaminhar para cuidados adequados.

Mas os recursos não são suficientes. Desde 25 de setembro, 3.934 casos suspeitos de cólera, incluindo 54 óbitos, foram relatados nos arredores de Maiduguri. Cerca de 14 milhões de pessoas são afetadas pela crise no nordeste da Nigéria (estados de Adamawa, Borno e Yobe), das quais 6,9 milhões precisam de assistência médica.


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