Crise de refugiados sírios levou comunidade internacional a ampliar redes de saúde do Líbano

Atualmente, existem 230 centros de saúde em todo o Líbano, 180 a mais do que antes da guerra na Síria. Fluxo de refugiados que fugiu do país em guerra para o vizinho fez com que organizações humanitárias e doadores internacionais disponibilizassem mais recursos, utilizados para expandir o acesso a serviços de saúde mental, o atendimento a vítimas de violência sexual, a prevenção ao HIV e o combate à desnutrição.

A libanesa Sally não entendia por que sua filha estava abaixo do peso. Mas depois que a assistência nutricional foi integrada aos centros de saúde primários no Líbano, a pequena foi tratada com sucesso. Foto: ACNUR / Dalia Atallah

A libanesa Sally não entendia por que sua filha estava abaixo do peso. Mas depois que a assistência nutricional foi integrada aos centros de saúde primários no Líbano, a pequena foi tratada com sucesso. Foto: ACNUR / Dalia Atallah

Desde que se casou, aos 13 anos de idade, a libanesa Yolanda* nunca mais se sentiu segura. Episódios de violência doméstica perpetrados pelo marido, um aborto e uma série de diagnósticos psicológicos equivocados a deixaram à beira do desespero.

Agora, aos 50 anos, ela recebe tratamento especializado de saúde mental para lidar com as angústias. A terapia tem lhe ajudado a reconstruir sua vida. “Eu costumava me sentir oprimida de tanto medo”, contou à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Yolanda está entre os milhares de libaneses em situação de vulnerabilidade social que passaram a ter acesso a uma variedade de serviços básicos de saúde — que vão de apoio psicológico até assistência pré-natal e pediátrica — desde que a guerra na Síria gerou um fluxo massivo de refugiados para o país vizinho.

Atualmente, mais de 1 milhão de refugiados moram no Líbano — menos de 1% desse contingente é de estrangeiros que não são da Síria. A crise chamou a atenção de doadores, cujas contribuições ajudaram o Líbano a disponibilizar uma série de serviços essenciais de cuidado médico tanto para os sírios quanto para os libaneses de baixa renda.

Atualmente, existem 230 centros de saúde em todo o Líbano, 180 a mais do que antes da guerra na Síria.

Revolução na saúde mental

Antes da crise, o Hôpital Psychiatrique De La Croix – uma organização de caridade localizada na periferia de Beirute – era o único local em todo o Líbano que oferecia serviços de saúde mental de forma acessível, tornando a assistência para os que vivem fora da capital particularmente difícil.

Tonina Frangieh, oficial de saúde mental e apoio psicossocial da International Medical Corps, localizada ao norte do Líbano, explica que, antigamente, esse tipo de cuidado não existia nessa região do país.

“No passado, pacientes de saúde mental eram descartados por serem considerados loucos. Eles costumavam ser agredidos, trancados e algumas vezes até mesmo acorrentados”, conta.

Atualmente, o apoio psicológico é um dos diversos serviços que estão amplamente disponíveis devido a melhora gradual da prestação de cuidados de saúde.

“Com a chegada de refugiados, as necessidades de assistência de saúde dispararam”, disse Randa Hamadeh, chefe do departamento de saúde primária do Ministério de Saúde Pública.

“Com a generosa contribuição da União Europeia, trabalhamos com o ACNUR e integramos a saúde mental (aos cuidados disponíveis), promovemos o tratamento da desnutrição e reforçamos a nível nacional os serviços de saúde reprodutiva no sistema de saúde básica”, afirmou.

Vacinação gratuita

Como resultado das parcerias internacionais, pacientes sírios e libaneses podem agora receber vacinas gratuitas com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Até mesmo a taxa de consulta para a aplicação da imunização, que costumava ser cobrada antes da crise, foi dispensada.

Diana, de 25 anos, observa seu bebê no Hospital Governamental de Trípoli. Os dois estão entre os beneficiários das melhorias no sistema de saúde libanês com financiamento do ACNUR. Foto: ACNUR / Dalia Atallah

Diana, de 25 anos, observa seu bebê no Hospital Governamental de Trípoli. Os dois estão entre os beneficiários das melhorias no sistema de saúde libanês com financiamento do ACNUR. Foto: ACNUR / Dalia Atallah

Além de capacitação para lidar com casos mais específicos, de subnutrição e estupros, funcionários dos centros de saúde básica têm recebido treinamento para gerir de forma eficaz os recursos.

Para que fosse possível atender à demanda, um total de 84 novos agentes especializados foram disponibilizados pelo ACNUR e pela Organização Mundial para as Migrações (OIM) para trabalhar em centros de saúde em todo o país.

Combate ao HIV e à violência de gênero

Dois anos após o início da crise, clínicas em todo o Líbano receberam kits especiais de profilaxia pós-exposição para ajudar a prevenir a infecção pelo HIV. O aconselhamento e tratamento para sobreviventes de violência sexual ou de gênero foi institucionalizada e passou a incluir apoio psicológico e acompanhamentos minuciosos de cada caso.

A expansão dos serviços de assistência de saúde também possibilitou que equipes médicas pudessem encaminhar meninas e mulheres sobreviventes de violência sexual e de gênero para locais seguros que atuam sob a orientação de organizações especializadas.

Rola Hajj, chefe de enfermaria do Hospital Governamental de Trípoli, lembra o dia em que uma jovem libanesa de 17 anos foi trazida às pressas para a sala de emergência com ferimentos da cabeça aos pés. Ela havia sido espancada pelos pais, que a haviam proibido de sair de casa até mesmo para ir à escola. “Naquela noite, ela foi atendida em um dos espaços seguros para meninas e mulheres’ e permaneceu lá desde então”, disse a diretora.

Desafios permanecem

Apesar dos progressos, a já frágil infraestrutura médica do Líbano também sentiu as consequências negativas da chegada de um grande número de refugiados, que hoje somam quase um quarto da população total do país.

Devidos aos altos valores e capacidade limitada de atendimento, o sistema particular de saúde continua enfrentando dificuldades, sobretudo com o aumento das demandas.

“Hospitais e centros de saúde ficaram sobrecarregados com a chegada de milhões de pessoas com necessidades urgentes. Mas um olhar mais atento ao impacto da crise de refugiados revela uma realidade menos conhecida”, disse Mireille Girard, representante do ACNUR no Líbano.

Segundo ela, muitas famílias libanesas “também dizem que agora podem procurar cuidados hospitalares de qualidade dentro de suas regiões, graças à aquisição de equipamentos importantes como scanners, máquinas de reanimação e incubadoras”.

Antes, a falta de tecnologias modernas fazia com que moradores tivessem que sair de áreas remotas de Beirute para ter acesso à assistência de emergência.

“As pessoas acreditam mais na área da saúde pública agora”, disse Hamadeh. “Esperamos continuar trabalhando nesse sentido”, acrescentou, observando que, a longo prazo, serão necessários mais investimentos para manter as conquistas.

“Nós precisamos desesperadamente de mais financiamento. Percorremos um longo caminho, mas ainda existem lacunas, e não podemos ser abandonados neste momento”, alertou.