Crianças refugiadas participam de festas de fim de ano no Rio e em SP

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

Crianças refugiados que vivem no Brasil participaram de eventos de fim de ano no Brasil. Em São Paulo, elas cantaram temas de Ano Novo comandadas pelo pianista e maestro João Carlos Martins. No Rio de Janeiro, o refugiado sírio Mohammad Zarba, de 10 anos, subiu ao palco da festa de réveillon em Copacabana ao lado da cantora Elba Ramalho.

Regidos pelo pianista e maestro João Carlos Martins, crianças refugiadas do coral “Somos Iguais” se apresentam às vésperas do Natal em São Paulo. Foto: ACNUR/Cleiby Trevisan

Regidos pelo pianista e maestro João Carlos Martins, crianças refugiadas do coral “Somos Iguais” se apresentam às vésperas do Natal em São Paulo. Foto: ACNUR/Cleiby Trevisan

Num ambiente de total excitação, crianças refugiadas que vivem no Brasil fizeram uma grande algazarra nos camarins do Teatro Santander, em São Paulo. Em pouco tempo, elas entraram no palco, cantando temas de Ano Novo sob a batuta do mundialmente famoso pianista e maestro João Carlos Martins. Em plena véspera do Natal, o coral “Somos Iguais” estreou em grande estilo na noite paulistana.

Poucos dias depois, na festa de réveillon que reuniu 2 milhões de pessoas em Copacabana, no Rio de Janeiro, o refugiado sírio Mohammad Zarba, de 10 anos, subiu ao palco ao lado da cantora Elba Ramalho e mandou uma forte mensagem de paz para o público: “as crianças que estão morrendo não querem morrer, elas têm que viver”. Ele mesmo, um sobrevivente das batalhas em Alepo (Síria), foi aplaudido pela multidão.

Estes foram dois momentos marcantes do final de 2016 que, mais uma vez, colocaram em evidência a crescente presença de refugiados no Brasil. Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), o país abriga cerca de 9 mil refugiados reconhecidos, sendo que 18% são crianças e jovens de até 18 anos.

Neste processo de conscientização sobre as causas do deslocamento forçado, as crianças refugiadas têm desempenhado um papel fundamental.

O coral “Somos Iguais” é fruto do trabalho da voluntária Daniela Guimarães para auxiliar a integração de crianças e suas famílias no Brasil. Já o menino sírio que se dirigiu ao público nas areias de Copacabana participa do coral infantil “Coração Jolie”, coordenado pela organização não governamental IKMR em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) no Brasil.

“Esta é uma sementinha sendo plantada que certamente dará muitos frutos”, afirmou o maestro João Carlos Martins, tutor artístico do coral “Somos Iguais”. “As crianças de diferentes nacionalidades mostram a importância da união entre todos nós. E quando investimos em cultura, podemos acreditar no futuro”, completou.

Para o maestro João Carlos Martins, os corais de crianças refugiadas são “uma sementinha que dará frutos”, pois permitem a elas pensar em seu futuro. Foto: ACNUR / Cleiby Trevisan

Para o maestro João Carlos Martins, os corais de crianças refugiadas são “uma sementinha que dará frutos”, pois permitem a elas pensar em seu futuro. Foto: ACNUR / Cleiby Trevisan

A crença no futuro está estampada na face de cada uma das 25 crianças da Síria e da África (Congo e Angola) que integram o coral.

“Consigo expressar minha alegria, esquecer meu passado e pensar no futuro”, disse Doriana Basila, de 13 anos, que quer se tornar cantora profissional. Ela vive no Brasil há quase dois anos e atesta: “as crianças da Síria vieram da mesma situação nossa na África”.

O também africano Victor Manuel, de 16 anos, sonha em ser cantor. “Sempre cantei na igreja e na escola. Quero me aperfeiçoar, em busca de oportunidades para ser cantor ou mesmo produtor”.

Já o sírio Lawand Othman, de 12 anos, tem outra visão do futuro. “Estou achando tudo muito legal, mas quero mesmo é ser jogador de futebol”, afirmou o menino que morava em Alepo e vive no Brasil há dois anos.

Para Ghena Deh, de 10 anos, participar do coral tem sido uma oportunidade de conhecer crianças de outros países. “Não sabia que as meninas podiam usar tranças”, declarou a menina síria, espantada com os cabelos das suas colegas africanas – devidamente entrelaçados para festejar o dia especial.

“Ter ao lado uma orquestra de ponta é algo que certamente ficará marcado na memória destas crianças para sempre”, disse o maestro ao se referir à Orquestra Bachiana Filarmônica SESI-SP, uma organização sem fins lucrativos que ele fundou e que acolheu o coral “Somos Iguais”. “A música tem um poder multiplicador incrível”, completou.

“É muito importante que as pessoas possam ver o potencial das crianças e que o estigma que elas carregam possa ser minimizado”, afirmou Viviane Reis, diretora da organização IKMR. Além de proporcionar o encontro de crianças refugiadas com a música, a ONG também fornece auxílio humanitário, reunião familiar e programa de educação complementar, entre outros projetos. Nos últimos dois anos, cerca de 180 crianças já participaram do “Coração Jolie”.

O deslocamento forçado continua afetando muitas pessoas pelo mundo. Segundo dados do ACNUR, há globalmente cerca 65,3 milhões de pessoas deslocadas por conflitos e guerras. Desse total, 21,3 milhões buscaram proteção em outros países e foram reconhecidas como refugiadas, e 51% delas são crianças e jovens de até 18 anos de idade.

Estatísticas ainda mais alarmantes mostram que cerca de 98 mil deslocados são menores separados ou desacompanhados, ou seja, sem seus familiares ou responsáveis.


Mais notícias de:

Comente

comentários