Crianças indígenas da Venezuela voltam a estudar em escolas de Manaus

Trinta e nove crianças e adolescentes da etnia Warao foram matriculados em escolas da rede pública da capital do Amazonas. Inclusão dos jovens é objetivo de um novo plano da Secretaria Municipal de Educação de Manaus. Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) celebrou iniciativa.

Com a ajuda de sua mãe, a pequena Dorca, aluna Warao, prepara-se para ir ao Centro Municipal de Educação Infantil, em Manaus. Foto: ACNUR/João Paulo Machado

Com a ajuda de sua mãe, a pequena Dorca, aluna Warao, prepara-se para ir ao Centro Municipal de Educação Infantil, em Manaus. Foto: ACNUR/João Paulo Machado

Às cinco da manhã, a venezuelana Dorca acorda cheia de energia e sai correndo pela casa onde mora na periferia de Manaus, capital do Amazonas, para rapidamente se arrumar e ir à escola. A empolgação da garota de cinco anos de idade é fruto de um plano implementado pela Secretaria Municipal de Educação (SEMED), que quer facilitar o acesso de crianças e adolescentes estrangeiros à rede pública de ensino.

Dorca é uma criança da etnia indígena Warao e está matriculada no Centro Municipal de Educação Infantil (CEMEI) Romualdo Rubi, uma das quatro escolas que integram o projeto da SEMED na capital. Acompanhada dos pais, Dorca caminha todos os dias até a escola. Ao chegar, ela encontra outras crianças Warao e segue portão adentro, onde o corre-corre continua.

Trinta e nove crianças e adolescentes Warao já foram matriculados em escolas de nível infantil e fundamental. Os pais desses jovens estão muito satisfeitos com a oportunidade de terem seus filhos estudando no Brasil.

Yuliz Torrez está em Manaus desde junho do ano passado com seu marido e as filhas, que frequentam a escola em Manaus. Para ela, o fato de as crianças estarem matriculadas é uma grande oportunidade, especialmente para o aprendizado do português.

“Lá na Venezuela, elas não estudavam. Aqui, elas vão à escola, brincam e comem. Elas têm aprendido muita coisa, uma delas já sabe falar e escrever em português”, comenta a mãe, enquanto mostra orgulhosa os cadernos das duas filhas.

Criança Warao é auxiliada pela professora e pelos colegas de classe, que procuram ajudá-la em seu processo de aprendizagem em sala de aula. Foto: ACNUR/João Paulo Machado

Criança Warao é auxiliada pela professora e pelos colegas de classe, que procuram ajudá-la em seu processo de aprendizagem em sala de aula. Foto: ACNUR/João Paulo Machado

Desde o início, o plano teve apoio e mobilização dos gestores das escolas, da equipe de acompanhamento da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (SEMMASDH) e de um grupo de trabalho intersetorial criado pela SEMED.

Assim como a maioria das crianças indígenas que moram em Manaus, Dorca e seus pais tiveram de deixar a Venezuela, pois enfrentavam situações de extrema dificuldade. Sua família divide com outros venezuelanos uma casa próxima ao colégio, mantida com recursos do Governo Federal.

Augusta dos Santos, diretora da escola municipal que recebeu cinco crianças Warao, entre elas Dorca, explica que os desafios são inúmeros, mas que a parceria entre a escola e a comunidade tem sido fundamental. A docente afirma que há muito o que aprender com esse grupo de crianças que já fazem parte da rotina do colégio.

“Eu agradeço por tê-las recebido, elas já estão muito adaptadas e nos ensinam muito. A chegada dessas crianças abriu novos caminhos e contribuiu para a nossa metodologia de ensino.”

Segundo a vice-secretária de Educação de Manaus, Euzenir Trajano, a inclusão das crianças Warao na rede de ensino municipal promove uma educação cada vez mais inclusiva e humana. “O plano permite o acesso à educação básica a todos e todas que procuram a escola, independente de sua nacionalidade, religião, orientação sexual, raça ou etnia”, afirma.

De acordo com declarações dos Warao, muitos dos jovens não frequentavam a escola na região do Delta do Amacuro, onde viviam na Venezuela, devido a problemas com transporte ou alimentação. Grande parte dos adultos, crianças e adolescentes da etnia que vivem nas casas mantidas pela prefeitura são analfabetos. Alguns nunca colocaram os pés numa sala de aula, o que torna o processo de ensino no Brasil um desafio.

As primeiras etapas do plano para matricular as crianças Warao começaram 30 dias antes do início do ano letivo. Durante esse período, foram realizados diálogos com os indígenas e as crianças para estabelecer um nivelamento. Os indígenas também sugeriram a criação de programas para oferecer educação aos pais dos alunos.

Na avaliação de Glademir Sales, assessor técnico de Educação Indígena da SEMED, “o principal desafio neste momento é realizar o acompanhamento das crianças e adolescentes Warao matriculados”. “Essa estratégia será pautada em nossas reuniões de planejamento para orientar gestores, professores e pedagogos”, explica.

Presente em Manaus desde junho de 2017, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) elogia iniciativas como essas, que oferecem às crianças a chance de se desenvolverem plenamente no país de acolhimento, por meio de ações integradas e de respostas efetivas do poder público.


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