Crianças congolesas deslocadas falam sobre sofrimento provocado pelo conflito em Kasai

Felix, de 12 anos, senta em silêncio e observa o acampamento onde mora. Ele e outras quatro crianças foram acolhidas por pais adotivos após fugirem do conflito em Kasai, região na República Democrática do Congo (RDC).

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) estima que 1,4 milhão de pessoas tenham sido deslocadas em razão de conflitos na região que costumava ser pacífica.

Crianças deslocadas internas na entrada de um depósito vazio na província de Kasai. Foto: ACNUR/Andreas Kirchhof

Crianças deslocadas internas na entrada de um depósito vazio na província de Kasai. Foto: ACNUR/Andreas Kirchhof

Felix*, de 12 anos, senta em silêncio e observa o acampamento onde mora. Ele e outras quatro crianças foram acolhidas por pais adotivos após fugirem do conflito em Kasai, região na República Democrática do Congo (RDC).

“Perdi meus pais quando nossa aldeia foi atacada por homens armados”, conta. “Saímos correndo em direções diferentes”.

Felix cruzou a fronteira entre RDC e Angola em busca desesperada pelos pais. “Procurei por eles em todos os lugares onde havia refugiados, mas não os encontrei”, diz. “Agora, voltei para cá. Não sei se eles ainda estão vivos”.

Marie*, de 13 anos, também perdeu os pais. Ela fugiu para uma cidade vizinha com os quatro irmãos, após presenciar o assassinato de seus pais. “Eu agora sou o chefe da família”, diz, enquanto observa seu irmão de 2 anos, o mais novo da família.

Ela vive com seus irmãos em uma casa abandonada pelo dono, que fugiu para Angola. Eles não têm ninguém para cuidar deles, exceto alguns vizinhos.

Felix e Marie estão entre as centenas de crianças que foram separadas de seus pais ou testemunharam terríveis assassinatos. Crianças como elas são acolhidas em abrigos por organizações humanitárias locais, mas não existe nenhum sistema de apoio psicossocial.

O conflito em Kasai começou há mais de um ano, quando a tensão local desembocou em um conflito generalizado que afetou nove das 26 províncias da RDC. A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) estima que 1,4 milhão de pessoas tenham sido deslocadas como resultado da violência na região anteriormente pacífica.

A missão da equipe do ACNUR na semana passada para Kamonia, na fronteira com Angola, mostrou a extensão da violência e destruição na área central do conflito.

Aldeias inteiras foram queimadas e a prestação de serviços humanitários básicos foi interrompida porque o acesso às áreas onde as pessoas necessitam de assistência e proteção foi bloqueado. Instalações de saúde, escolas e outros edifícios públicos foram destruídos.

Crianças como Felix e Marie estão particularmente em risco, assim como os idosos, as pessoas com deficiências e os doentes. O ACNUR fez um apelo às autoridades para permitir que as agências humanitárias tenham mais acesso às pessoas que precisam de assistência.

O ACNUR está enviando mais funcionários e abriu mais escritórios em Kasai para impulsionar operações humanitárias e pediu maior segurança na área. Isso permitirá que os refugiados e os deslocados internos possam, finalmente, voltar para casa.