COVID-19 reduzirá produção econômica global em US$8,5 trilhões nos próximos dois anos

No contexto de uma pandemia devastadora, a economia global deverá ter uma contração acentuada de 3,2% este ano, de acordo com relatório Situação Econômica Mundial e Perspectivas das Nações Unidas (WESP) de meados de 2020, divulgado nesta quarta-feira (13).

A expectativa é de que a economia global perca quase 8,5 trilhões de dólares em produção nos próximos dois anos devido à pandemia de COVID-19, acabando com quase todos os ganhos dos quatro anos anteriores.

Pandemia levará mais de 34 milhões de pessoas à pobreza extrema em 2020. Foto: Jan Truter (CC, Flickr)

Pandemia levará mais de 34 milhões de pessoas à pobreza extrema em 2020. Foto: Jan Truter (CC, Flickr)

No contexto de uma pandemia devastadora, a economia global deverá ter uma contração acentuada de 3,2% este ano, de acordo com relatório Situação Econômica Mundial e Perspectivas das Nações Unidas (WESP) de meados de 2020, divulgado nesta quarta-feira (13).

A expectativa é de que a economia global perca quase 8,5 trilhões de dólares em produção nos próximos dois anos devido à pandemia de COVID-19, acabando com quase todos os ganhos dos quatro anos anteriores.

A forte contração econômica, que marca a maior queda desde a Grande Depressão na década de 1930, vem após previsões econômicas anêmicas feitas no início do ano de um avanço de 2,1%.

O relatório estima que o Produto Interno Bruto (PIB) das economias desenvolvidas deverá cair 5% em 2020.

A projeção é de um crescimento modesto de 3,4% – apenas o suficiente para compensar a perda de produção – em 2021. Prevê-se que o comércio mundial se contraia quase 15% em 2020, em meio à demanda global drasticamente reduzida e interrupções nas cadeias globais de suprimentos.

Quase 90% da economia mundial está sob algum tipo de bloqueio total ou confinamento, interrompendo as cadeias de suprimentos, deprimindo a demanda dos consumidores e deixando milhões de pessoas desempregadas.

Sob o cenário-base, as economias desenvolvidas deverão contrair 5% em 2020, enquanto a produção dos países em desenvolvimento diminuirá 0,7%.

A pandemia está exacerbando a pobreza e a desigualdade

A pandemia provavelmente fará com que cerca de 34,3 milhões de pessoas caiam abaixo da linha de extrema pobreza em 2020, com 56% desse aumento ocorrendo nos países africanos.

Outras 130 milhões de pessoas podem se juntar às fileiras que vivem em extrema pobreza até 2030, causando um enorme golpe nos esforços globais para erradicar a extrema pobreza e a fome.

A pandemia está afetando desproporcionalmente empregos pouco qualificados e com baixos salários, embora deixe empregos mais qualificados menos afetados, o que aumentará ainda mais a desigualdade de renda dentro e entre países.

Diante de uma crise sanitária, social e econômica sem precedentes, os governos em todo o mundo implementaram grandes medidas de estímulo fiscal – equivalentes a cerca de 10% do PIB – para combater a pandemia e minimizar seus impactos nos meios de subsistência. No entanto, a profundidade e a gravidade da crise prenuncia uma recuperação lenta e dolorosa.

Elliott Harris, economista-chefe da ONU e secretário-geral adjunto de Desenvolvimento Econômico, afirmou que “o ritmo e a força da recuperação da crise não dependem apenas da eficácia das medidas de saúde pública na redução da propagação do vírus, mas também da capacidade dos países de proteger empregos e rendas, principalmente dos membros mais vulneráveis ​​de nossas sociedades.”

A crise provavelmente acelerará a digitalização

O relatório destaca que a pandemia pode impulsionar um novo normal, fundamentalmente redesenhando as interações humanas, a interdependência, o comércio e a globalização, enquanto acelera a digitalização e a automação.

Um rápido aumento nas atividades econômicas online provavelmente eliminará muitos empregos existentes, ao mesmo tempo em que criará novos empregos na economia digital. Os efeitos líquidos nos salários e no emprego podem ser negativos, agravando ainda mais a desigualdade de renda.

Muitos países em desenvolvimento enfrentam severas restrições fiscais

A maioria das economias em desenvolvimento – sobrecarregadas com déficits fiscais crônicos e níveis já altos de dívida pública – está enfrentando dificuldades para implementar pacotes fiscais suficientemente grandes, que até agora representam em média menos de 1% do PIB.

A queda nas exportações e do crescimento estão minando rapidamente a sustentabilidade da dívida de muitos países em desenvolvimento, particularmente daqueles fortemente dependentes de commodities, receitas do turismo ou remessas.

O crescente endividamento representa um enorme desafio para esses países, restringindo ainda mais sua capacidade de implementar medidas de estímulo muito necessárias.

Medidas de estímulo devem aumentar os investimentos produtivos

O relatório alerta contra o risco de grandes medidas de estímulo fiscal e monetário – com trilhões de dólares de nova liquidez injetada no sistema financeiro – contribuindo para a rápida recuperação dos preços das ações e dos títulos, ao mesmo tempo em que ignoram os investimentos produtivos.

A liquidez global per capita aumentou desde que a crise financeira de 2008, enquanto o investimento produtivo per capita estagnou, observou o relatório.

Hamid Rashid, chefe do Setor de Monitoramento Econômico Global e principal autor do relatório, disse: “a lição que aprendemos na última crise é a de que as medidas de estímulo fiscal e monetário não necessariamente aumentam os investimentos produtivos”.

“Os governos devem incentivar as empresas que recebem sua assistência financeira a investir em capacidades produtivas. Esta é uma obrigação para proteger empregos decentes e impedir um aumento adicional da desigualdade de renda.”

Uma cooperação internacional mais forte é um imperativo

Uma cooperação global mais forte é fundamental, especialmente para conter a pandemia e estender a assistência financeira aos países mais afetados pela crise. No curto prazo, o aumento da disponibilidade e rápida implantação de fundos internacionais para suprir a escassez de liquidez e liberar espaço fiscal é fundamental.

Além dessas medidas de curto prazo, muitos países em desenvolvimento – principalmente economias dependentes de commodities e turismo – ainda precisarão de uma reestruturação abrangente da dívida para ter espaço fiscal para estimular o crescimento e acelerar a recuperação.

O relatório destaca uma janela de oportunidade para “se recuperar melhor”, com a solidariedade global renovada melhorando os sistemas de saúde pública, construindo resiliência para suportar choques econômicos, melhorando os sistemas de proteção social em todo o mundo, esverdeando as economias e abordando as mudanças climáticas.

Clique aqui para acessar o relatório completo (em inglês).