COVID-19: ONU lidera proposta para ajudar 135 países a conseguir kits médicos vitais

Com apoio do PNUD, trabalhadores comunitários em Bangladesh estão distribuindo kits de higiene e promovendo ações de prevenção contra o novo coronavírus. Foto: Fahad Kaizer/PNUD

Uma grande iniciativa liderada pela Organização das Nações Unidas (ONU) está em curso para garantir suprimentos para equipamentos médicos fundamentais para 135 países de renda média que enfrentam a pandemia da COVID-19. O anúncio foi feito nesta terça-feira (28) pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A iniciativa da força-tarefa da COVID-19 segue um pedido direto do secretário-gera da ONU, António Guterres, para que a OMS coordene a resposta da Organização ao novo coronavírus.

Demanda 200 vezes maior do que o normal – O chefe de Apoio de Operações e Logísticas do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Paul Molinaro, afirma que a iniciativa acontece em meio a falta global e sem precedentes de suprimentos críticos, preços estratosféricos e proibição de exportações.

“Obviamente a demanda aumentou cerca de 100 a 200 vezes nestes mercados”, afirmou ele a jornalistas em videoconferência. “Do lado do abastecimento, vemos muitas interrupções na produção, muitos controles de exportação, vemos um sistema de transporte aéreo internacional – do qual somos dependentes para a movimentação de carga – gradualmente parar, então estamos em um ponto onde precisamos buscar soluções para isto”, explicou o dirigente.

Como parte do esforço coletivo da ONU e de parceiros privados, um portal exclusivo “CODIV-19 Supply Portal” (Portal de Suprimento COVID-19) será lançado dentro de alguns dias, oferecendo aos países a oportunidade de submeter solicitações de suprimento através de uma única plataforma.

Isto irá permitir que o sistema da cadeia de abastecimento humanitária “planeje e coordene a alocação dos suprimentos críticos” para os 135 países considerados os mais vulneráveis, afirmou a OMS em um comunicado. “Precisamos agilizar a demanda no nível do país para realmente olhar para as maiores prioridades e tentar e dar números para algo que seja gerenciável e coordenado”, afirmou Paul Molinaro, reforçando a primeira das quatro prioridades da iniciativa.

“O segundo passo é um processo de aquisição colaborativo entre nós na ONU e alguns de nossos parceiros, com aproximação conjunta no mercado. Isto nos dá mais voz, particularmente num mercado condicionado por muita competição intensa”, acrescentou.

“O terceiro é um processo de distribuição baseado nas vulnerabilidades e lacunas e em necessidades críticas. O quarto passo – à luz das dificuldades com transporte – é criar um sistema unificado de transporte e isto é algo que nossos parceiros já estão fazendo, particularmente o Programa Mundial de Alimentos (WFP)”, explicou.

Foco nos sistemas de saúde mais frágeis – Depois de expressar alarme no início deste ano sobre a ameaça em saúde apresentada pelo novo coronavírus que emergiu na China central em dezembro, a OMS anunciou que estava intensificando o apoio a países com sistemas de saúde público fragilizados.

Até agora, mais de 1,1 milhão de testes foram distribuídos em 129 países e mais 1,5 milhão de testes estão a caminho, informou Paul Molinaro, lembrando que a nova iniciativa de cadeia de suprimentos deve garantir mais 9 milhões de testes, que deverão ser distribuídos de acordo com as necessidades.

Trabalhadores de saúde na Guiana aprendem como vestir com segurança Equipamento de Proteção Individual (EPI) – Foto: OPAS/OMS Guiana

Além disso, o Fundo da ONU para a Infância (UNICEF) enviou suprimentos para 44 países, incluindo 1,2 milhão de máscaras cirúrgicas, mais de 320 mil respiradores, 6,4 milhões de luvas cirúrgicas e mais de 250 mil vestimentas médicas. O UNICEF também enviou concentradores de oxigênio, equipamentos básicos de cirurgia, estetoscópios, remédios e suplementos nutricionais para a República Democrática do Congo, além de Equipamento de Proteção Pessoal (EPI) para Irã e Venezuela e 50 leitos de isolamento e unidade de tratamento da COVID-19 para o município de Cox’s Bazar, em Bangladesh.

De acordo com a OMS, a força-tarefa visa adquirir 75 milhões de máscaras, 50 milhões de respiradores, 28 milhões de luvas cirúrgicas, 10 milhões de protetores faciais e três milhões de óculos de proteção para distribuição. Em comunicado, a OMS informou que estão em andamento negociações com a Fundação Jack Ma para outros 100 milhões de máscaras cirúrgicas e um milhão de respiradores.

Fechamento de fronteiras afetando entrega de ajuda – A iniciativa acontece em meio a preocupações sobre fechamentos de fronteira ou atrasos que já impactam entregas de ajuda, incluindo na fronteira entre Uganda e Quênia. A porta voz do Programa Mundial de Alimentos (WFP) Elisabeth Byrs disse: “Temos visto longas filas de caminhões esperando, porque.. alguns governos como Uganda, Quênia e Ruanda estão medindo a temperatura dos motoristas, isto atrasa a entrega de comida no país”.

Há também preocupações de que atrasos na fronteira e medidas de proteção de mercado podem dificultar o trabalho de imunização. “Há enormes desafios e quanto mais tempo estamos nesta situação, fica claro que teremos repercussões fora da resposta a COVID-19”, afirmou Molinaro. “Já vemos carregamentos de vacina do UNICEF que são altamente dependentes do transporte de carga aéreo, vemos eles sendo interrompidos no mês de abril, se isto continuar em maio, teremos intervalos na rotina de imunização e também nas campanhas contra surtos de outras doenças”, alertou.

Questionado sobre a interrupção de suprimentos para os países da América Latina, o oficial da OMS respondeu que embora estejam ocorrendo algumas “dificuldades iniciais”, ainda com o número de casos não muito alto, “a situação tem mudado e, como mencionado, estamos em processo de agora planejar as próximas aquisições e lotes e, pelo menos de EPI, conseguiremos enviar nesta direção, certamente”.

A estratégia da força-tarefa da COVID-19 é “falar pelos países que não têm meios de acessar suprimentos que salvam vidas”, afirmou a OMS. Os parceiros da força-tarefa incluem agências da ONU, Fundo Global, Banco Mundial, entre outros.

Em outra frente, o Programa Mundial de Alimentos (WFP) emitiu um alerta sobre um aumento potencialmente massivo da insegurança alimentar em nações do leste da África e no Chifre da África, como resultado direto da pandemia.

“O WFP estima que 20 milhões de pessoas estão agora em insegurança alimentar em muitos países da região. Etiópia, Sudão do Sul, Quênia, Somália, Uganda, Ruanda, Burundi, Djibuti e Eritreia”, afirmou a porta-voz do WFP Elisabeth Byrs. “Fizemos projeções sobre a situação lá, sobre o número de pessoas em situação de insegurança alimentar e este número deve aumentar para 34 até 41 milhões de pessoas nos próximos três meses, em função do impacto econômico-social da COVID-19”.