COVID-19 deve agravar situação de saúde, pobreza e capacidade de recuperação da população negra no Brasil

A representante do UNFPA no Brasil, Astrid Bant, lembrou que a pandemia, unida ao racismo e à dificuldade de a população negra exercer seus direitos, tem resultado no agravamento de doenças, na maior letalidade frente à COVID-19 e em mais desemprego e pobreza. 

Os pesquisadores presentes citaram também os obstáculos que as iniquidades, o racismo e a discriminação impõem à população negra brasileira, a tornando mais vulnerável aos impactos de saúde, econômicos e sociais da pandemia.

Passageiros usam máscaras na estação Pinheiros, em São Paulo (SP). Foto: Agência Brasil/Rovena Rosa

Passageiros usam máscaras na estação Pinheiros, em São Paulo (SP). Foto: Agência Brasil/Rovena Rosa

Pesquisadores, representantes da sociedade civil e gestores públicos discutiram na semana passada (4) os impactos da pandemia de COVID-19 sobre a população negra no Brasil, durante webinário realizado por Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Na abertura do evento online, a representante do UNFPA no Brasil, Astrid Bant, lembrou que a pandemia, unida ao racismo e à dificuldade da população negra de exercer seus direitos, tem resultado no agravamento de doenças, na maior letalidade frente à COVID-19 e em mais desemprego e pobreza.

Os pesquisadores presentes citaram também os obstáculos que as iniquidades, o racismo e a discriminação impõem à população negra brasileira, a tornando mais vulnerável nesse contexto de pandemia.

O subsecretário de Políticas de Direitos Humanos e de Igualdade Racial da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, Juvenal Araújo Júnior, traçou um panorama da história das políticas de igualdade racial brasileiras.

“Graças a ícones e movimentos negros brasileiros, a política de promoção da igualdade racial no Brasil foi implementada. Mas ainda existem desafios que ainda não foram possíveis vencer. Não há outra forma de conseguirmos equidade e igualdade racial no Brasil sem ser por meio de políticas públicas. Estas devem ser efetivas e permanentes.”

O subsecretário também citou a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. “Temos esse programa porque a população negra é mais suscetível a determinadas doenças, a mais famosa é a anemia falciforme, assim como o negro também é mais propenso a ter diabetes Mellitus, glaucoma e hipertensão arterial.”

“Nesse momento de pandemia, a população negra não está incluída no grupo de risco, mas hoje estamos com o maior número de morbidade de pessoas negras”.

Para ampliar o debate sobre a taxa de letalidade do novo coronavírus, o professor adjunto do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de Jundiaí, Alexandre da Silva, lembrou que existem vários grupos sociais, como pessoas idosas, negras e pobres, que estão expostos aos mais diversos tipos de vulnerabilidade.

“Mas é perceptível que a COVID-19 possui um acometimento desigual, pois em qualquer faixa etária, se observa que o óbito é maior para pessoas pretas e pardas no Brasil.”

Taxa de letalidade da COVID-19 por raça/cor. Fonte: PUC-RJ

Taxa de letalidade da COVID-19 por raça/cor. Fonte: PUC-RJ

A coordenadora da ONG Criola, Lúcia Xavier, alertou lembrou os desafios que a população negra enfrenta no cenário atual. “Como não há uma data para a pandemia acabar, certamente vamos passar algum tempo tentando buscar novas formas de prevenção e controle.”

Ela ressaltou que a pandemia acirrou e vai continuar acirrando a crise sanitária, econômica, política e social. “As questões sociais relacionadas à população negra não serão as mesmas depois da pandemia, porque os sistemas econômicos, políticos e sociais também se transformaram nesse período e, consequentemente, a lógica capitalista e excludente também muda.”

Do ponto de vista internacional, a coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres (com base em Moçambique desde 2014), Graça Samo, afirmou que a pandemia se dá em um contexto capitalista, colonialista e racista.

“A forma como a resposta é dada, é similar à do colonialismo, pois temos que nos submeter a medidas de prevenção e proteção que caíram de cima para baixo, não tivemos tempo para analisar até que ponto essas medidas são as que melhor se adequam à nossa realidade e até que ponto vão contribuir para que vidas sejam salvas”, disse.

Assista ao debate na íntegra

A cada semana, a série “População e Desenvolvimento em Debate” promovida por UNFPA e ABEP realiza discussões entre academia, governo e sociedade civil sobre temas emergentes na Agenda de População e Desenvolvimento aliadas ao contexto atual.

Na próxima edição, a série de webinários vai abordar saúde coletiva e engajamento social no contexto da COVID-19.