Coronavírus ameaça indígenas venezuelanos que buscam segurança no Brasil

Enquanto quase metade dos quase 5 mil refugiados indígenas venezuelanos que vivem no Brasil está em abrigos de Belém (PA), Manaus (AM), Boa Vista (RR) e Pacaraima (RR), muitos outros permanecem em situações de insalubridade, vivendo em moradias superlotadas – ou mesmo nas ruas – sem saneamento básico, o que dificulta a prevenção contra a infecção. Leia o relato da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

"Não conseguimos pagar o aluguel e fomos expulsos”, conta Orlando Martinez sobre os impactos econômicos enfrentados por ele e outros indígenas venezuelanos da etnia Warao em Belém (PA) durante a pandemia. ACNUR/Camila França

“Não conseguimos pagar o aluguel e fomos expulsos”, conta Orlando Martinez sobre os impactos econômicos enfrentados por ele e outros indígenas venezuelanos da etnia Warao em Belém (PA) durante a pandemia. ACNUR/Camila França

Orlando Martínez mal ouvira falar da COVID-19 quando 26 membros de sua família, indígenas da etnia Warao, começaram a apresentar sintomas da doença.

“No começo, eles estavam com febre e não conseguiam comer. Então, tiveram dores de cabeça e dores no peito. Depois, começaram a tossir e não conseguiam mais andar”, lembra Orlando, aidamo – líder comunitário de 43 anos do grupo indígena Warao, originário da Venezuela, que chegou ao Brasil em 2017 com outras 18 famílias fugindo da fome, violência e insegurança.

“Eles estavam muito, muito doentes”, disse ele.

Orlando buscou em sua tradição ancestral uma forma para tentar curá-los, orando para que intervenção divina ajudasse a expulsar a doença. Mas um deles não conseguiu ser salvo.

“Quando ele morreu, toda a comunidade chorou”, disse Orlando. “Estamos com muito medo do coronavírus”.

Embora o impacto da pandemia tenha sido devastador em todo o mundo – matando mais de 300 mil pessoas e elevando exponencialmente as taxas de desemprego e pobreza – há maior vulnerabilidade de povos originários à doença, especialmente aqueles que se encontram em situação de refúgio.

Enquanto quase metade dos quase 5 mil refugiados e migrantes indígenas venezuelanos que vivem no Brasil (principalmente da etnia Warao, mas também das comunidades Eñapa, Kariña, Pemon e Ye’kwana) está em abrigos de Belém (PA), Manaus (AM), Boa Vista (RR) e Pacaraima (RR), muitos outros permanecem em situações de insalubridade, vivendo em moradias superlotadas – ou mesmo nas ruas – sem saneamento básico, o que dificulta a prevenção contra a infecção.

Além disso, sofrem com o impacto econômico das medidas de isolamento social, que impedem a venda de artesanato e a busca de outros meios de subsistência, anulando sua capacidade de comprar itens básicos como comida, fraldas, medicamentos e pagar por moradia.

Em meio à pandemia, a vulnerabilidade de refugiados e migrantes indígenas é intensificada, como explica Sebastian Roa, assistente de proteção da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) no Brasil.

“O deslocamento forçado de povos indígenas geralmente os deixa debilitados e desnutridos”, afirma. Isso, combinado com “a falta de acesso à medicina natural, condições insalubres de acomodação e exposição a novas doenças” pode ser, às vezes, fatal.

No Brasil, seis pessoas indígenas da Venezuela já faleceram em decorrência da COVID-19. Enquanto povos indígenas enfrentam suas próprias vulnerabilidades específicas em relação à COVID-19 e outras doenças, historicamente surtos de sarampo, varíola e gripe dizimaram as populações indígenas nas Américas, que não tinham imunidade natural às doenças infecciosas do Velho Mundo.

Em decorrência do deslocamento forçado, as vulnerabilidades de populações indígenas são intensificadas com a pandemia. A barreira do idioma que dificulta o acesso a serviços, bem como a distância dos locais onde se estabeleceram pelas últimas gerações, reforçam o temor de que o coronavírus possa ser devastador para suas já reduzidas populações.

Yesmari Zapata, uma mulher Warao do nordeste do delta do Orinoco, na Venezuela, que atualmente vive em Manaus, enfatizou o quão difícil era para ela e sua família aderirem às medidas básicas de higiene recomendadas antes de serem realocadas para o novo abrigo.

“Estávamos todos dormindo em um quarto pequeno e não havia água suficiente” para lavar as mãos frequentemente, afirmou. “Foi difícil.”

Com o apoio do ACNUR e da Prefeitura de Manaus, ela e a família foram transferidos para outro abrigo no mês de abril, onde Yesmari afirma ser mais fácil manter o distanciamento social.

“Acho que ficar aqui neste abrigo é a melhor coisa que poderíamos fazer no momento”, disse ela. “Aqui, temos muito espaço, é bem ventilado e seguro para as crianças. É muito bom que temos todas as refeições, e assim muitos de nós não precisam sair para juntar dinheiro para comprar comida”, disse ela, se referindo às dificuldades econômicas que o impacto das medidas de isolamento social representam para muitos venezuelanos indígenas no Brasil.

Já em Belém, Orlando e sua família ganhavam a vida vendendo artesanato feito das folhas de buriti. Mas, como não conseguiram mais sair para vender seus produtos, a família não conseguiu pagar pelas diárias de aluguel da casa na capital, onde viveram em condições insalubres por vários meses.

“Não conseguimos pagar o aluguel e fomos expulsos”, lembra ele.

No meio da pandemia, ele e o grupo com mais de 120 pessoas foram despejados. No mesmo dia, foram transferidos na primeira semana de maio para o novo abrigo indígena aberto pela Prefeitura de Belém com apoio do ACNUR e outras agências da ONU, onde também recebem três refeições diárias e vivem em segurança.

O ACNUR está trabalhando com governos municipais em toda a região para dar aos refugiados e solicitantes de refúgio indígenas acesso a abrigos com melhor infraestrutura de saneamento básico, além de fornecer kits de higiene.

A agência também se tornou a principal fonte de informações sobre a COVID-19 para algumas comunidades indígenas que vivem na fronteira norte do Brasil, graças a sessões informativas e distribuição de panfletos sobre prevenção nos idiomas indígenas Warao e Eñepá.

Apesar disso, a comunidade de refugiados indígenas no Brasil ainda enfrenta um futuro incerto e temeroso.

“Estamos com medo”, disse Manuel José Borges Mata, um homem Warao de 29 anos originário da região nordeste do delta de Amacuro, na Venezuela, que foi realocado para um novo abrigo em Manaus. “Apesar de tudo, temos medo de morrer e de perder entes queridos.”

Apelo global

No início de maio, líderes indígenas brasileiros apelaram à Organização Mundial da Saúde (OMS) para estabelecer um fundo de emergência para ajudar a proteger os povos originários da ameaça da pandemia de coronavírus.

Líderes comunitários representando os cerca de 850 mil indígenas do país alertaram que “somos extremamente vulneráveis ​​e há um risco real de que o novo vírus cause outro genocídio”. Uma carta aberta assinada por celebridades globais, incluindo Brad Pitt, Madonna e Paul McCartney, afirmou que a COVID-19 representa uma “ameaça extrema” para os povos indígenas da Amazônia.

“Cinco séculos atrás, esses grupos étnicos foram dizimados por doenças trazidas por colonizadores europeus”, disse a carta, assinada por mais de 240 mil pessoas. “Agora… eles podem desaparecer completamente, pois não têm como combater a COVID-19”.

O ACNUR segue atuando no Brasil e no mundo para proteger refugiados, pessoas deslocadas e comunidades que os acolhem do novo coronavírus.

Doe AGORA para apoiar esses esforços. Você pode salvar vidas!

Em meio à pandemia da COVID-19, refugiados e migrantes indígenas venezuelanos Warao foram transferidos para um espaço seguro em Manaus. Foto: ACNUR / Felipe Irnaldo

Em meio à pandemia da COVID-19, refugiados e migrantes indígenas venezuelanos Warao foram transferidos para um espaço seguro em Manaus. Foto: ACNUR / Felipe Irnaldo

Situação na América Latina

À medida em que a pandemia do novo coronavírus se espalha pela América Latina, o ACNUR alerta que muitas comunidades indígenas deslocadas agora estão perigosamente expostas e em risco.

Na Colômbia, vários grupos indígenas binacionais, incluindo Wayuu, Bari, Yukpa, Inga, Sikwani e Amorúa, vivem perto da fronteira com a Venezuela. Embora seus lares ancestrais abranjam ambos os países, muitos não foram capazes de regularizar sua permanência na Colômbia e não têm documentos. Alguns agora também enfrentam ameaças de grupos armados irregulares que controlam as áreas onde vivem.

O ACNUR está preocupado com o fato de que a vida desses indígenas venezuelanos esteja em alto risco em decorrência de questões de documentação, principalmente seu status irregular e condições de vida e habitação.

Muitos vivem em áreas isoladas ou remotas, onde não têm acesso a serviços de saúde, água potável e sabão. Outros vivem em moradias apertadas ou em assentamentos urbanos informais sem acesso a equipamentos de proteção.

A maioria dos grupos indígenas fronteiriços está ameaçada de extinção física e cultural devido à falta de alimentos e desnutrição grave, que podem aumentar o risco de contágio. Essas áreas não possuem serviços de saúde adequados, o que agora pode agravar a situação atual.

As medidas nacionais de isolamento social também interromperam muitas de suas atividades de subsistência, como agricultura, venda de produtos e artesanato. Diante do aumento da pobreza e da miséria, alguns não têm outra opção senão vender mercadorias nas ruas para tentar sustentar suas famílias.

Isso não apenas os expõe ao risco de infecção, mas também à estigmatização e discriminação, uma vez que são percebidos como incapazes de cumprir as medidas de isolamento e distanciamento físico.

Outras preocupações de proteção incluem um risco aumentado de recrutamento de crianças em certas áreas da Colômbia, onde o conflito armado não cessou. A educação também é um desafio, já que estudantes e professores indígenas em isolamento e situação de pobreza não têm meios de aprender à distância ou impulsionar educação virtual durante a pandemia.

Desde março, o ACNUR trabalha com governos nacionais para garantir que as medidas de prevenção e assistência à COVID-19 estejam presentes nas áreas remotas onde esses grupos encontraram segurança, além do trabalho com comunidades indígenas deslocadas no Brasil e na Colômbia sobre conscientização e prevenção da doença.

À medida que o número de casos suspeitos e confirmados aumenta e as primeiras mortes são relatadas entre as comunidades indígenas, o ACNUR ampliou seu apoio, apesar da grave falta de fundos.

Para tentar limitar a propagação e o impacto do vírus, o ACNUR está trabalhando com as autoridades nacionais para aumentar as capacidades dos sistemas de saúde. Novas estruturas, incluindo abrigos, instalações de atendimento e isolamento, bem como sistemas de alerta rápido também foram implementadas para responder à COVID-19 entre indígenas, venezuelanos deslocados e seus anfitriões.

Na Colômbia, complementando os esforços nacionais, o ACNUR e os parceiros estão apoiando o Estado na distribuição de alimentos e fornecendo kits de higiene para os mais vulneráveis ​​entre as populações Yukpa e Wayuu, especialmente aqueles que vivem em assentamentos informais.

Brigadas de saúde foram organizadas e linhas de proteção remota também foram ativadas pelo ACNUR e parceiros. As campanhas de promoção de informações e higiene personalizadas para as comunidades indígenas também continuam.

Apesar dos fortes esforços feitos pelos países anfitriões e pelas organizações humanitárias, é urgentemente necessário um maior apoio para continuar as intervenções que salvam vidas das comunidades indígenas, outros refugiados e comunidades que os acolhem.

Antes da conferência internacional de doadores para refugiados e migrantes venezuelanos na América Latina, organizada pela União Europeia e Espanha e marcada para a próxima terça-feira, o ACNUR está pedindo aos países que se comprometam a apoiar. Surpreendentemente, o Plano de Resposta Regional para refugiados e migrantes da Venezuela (RMRP) tem apenas 4% do seu financiamento garantido.