Copa do mundo reúne refugiados no Rio de Janeiro

No centro de atendimento a refugiados mantido pela Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, a abertura da Copa da África do Sul, no último dia 11 de junho, também servia de pretexto para antecipar as celebrações do Dia Mundial do Refugiado – comemorado em todo o mundo no dia 20 de junho.

No centro de atendimento a refugiados mantido pela Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, um grupo de aproximadamente 50 refugiados aguardava, com grande expectativa, o início da primeira Copa do Mundo em solo africano. A abertura da Copa da África do Sul, no último dia 11 de junho, também servia de pretexto para antecipar as celebrações do Dia Mundial do Refugiado – comemorado em todo o mundo no dia 20 de junho.

Assim, num clima festivo e entre goles de café, os refugiados ajudavam na preparação festa, conversando com amigos e jornalistas presentes e aguardando o início do jogo entre África do Sul e México. Orgulhosos por estarem juntos acompanhando a primeira partida da Copa, todos torciam pela África do Sul, sem deixar de reconhecer que o melhor futebol do torneio é mesmo o brasileiro.

Celebrar o Dia Mundial do Refugiado no Rio de Janeiro durante o jogo inaugural da Copa do Mundo na África foi uma bem sucedida iniciativa da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, que por meio de uma parceria no ACNUR presta assistência e proteção a cerca de dois mil refugiados, a grande maioria procedente do continente africano.

O encontro foi um sucesso. Os refugiados presentes, das mais diferentes nacionalidades, compareceram à festa, que começou às 10h da manhã e só terminou à noite. Congoleses, somalis, eritreus, angolanos, marfinenses e iraquianos se emocionaram e torceram juntos pela África do Sul. Neste dia, todos esqueceram suas nacionalidades e se transformaram momentaneamente em sul-africanos. O entusiasmo dos refugiados foi tão forte que contagiou a todos os presentes.

“O refugiado que vive no Brasil tem que se integrar à sociedade brasileira e viver com o povo brasileiro. E, com certeza, o continente africano tem um ganho extraordinário com essa Copa, pela competência e criatividade com que esse evento está sendo produzido. Para o refugiado é muito importante que eles possam mostrar ao Brasil que o africano é capaz de fazer uma festa tão bonita como essa”, disse o diretor da Cáritas Arquidiocesana do Rio, Candido da Ponte Neto, para quem a celebração do último dia 11 de junho ajudará a melhorar a auto-estima dos refugiados originários da África. Para o representante do ACNUR no Brasil, a Copa do Mundo na África adquire “um sentido especial no Brasil, pois o país tem sua história ligada ao continente africano e abriga milhares de refugiados daquela região”.

Refugiados comemoram a abertura da Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Dos cerca de 4.300 refugiados que vivem no Brasil, cerca de 70% são de origem africana. Foto: ACNUR.

Dos cerca de 4.300 refugiados que vivem no Brasil, cerca de 70% são de origem africana. E para quem foi forçado a abandonar suas casas e suas famílias, um evento como a Copa do Mundo na África adquire um peso simbólico considerável, representando um elo com o espaço físico que um dia foi chamado de casa e também com lembranças alegres e dolorosas.

Ahmad, um refugiado somali que chegou ao Brasil há quase um mês, vê com ironia o fato de acompanhar esta Copa do Mundo longe da África. “Fiquei muito emocionado com a cerimônia de abertura. Esperei tanto pelo momento em que a Copa seria na África, e agora não estou lá. Visitei o líder sul-africano Nelson Mandela na prisão, em 1979, e agora que ele foi homenageado na abertura do torneio, me pergunto por que não estou lá”, afirma Ahmad.

Originário do Iraque, Amir, de 46 anos, também estava presente no evento. Seu time favorito é o Brasil, mas ele também torce pela África. “O Brasil sempre foi meu time favorito, e não digo isso só porque estou vivendo aqui. Mas também estou torcendo com todos os colegas africanos”. Ele trabalhou por 25 anos como inspetor de oleodutos no Iraque, veio ao Brasil sozinho e diz que sua experiência no país tem sido bastante positiva. “O único problema que tenho no Brasil é a dificuldade em conseguir trabalho. Mas as pessoas são amáveis, esse é um país bom, onde a diversidade e a diferença não representam um problema. No futuro, quero ir ao Iraque para visitar minha família, mas quero viver aqui”, afirma.

Embora a alegria durante a festa generalizada, alguns refugiados estavam céticos em relação ao impacto da Copa do Mundo para a África. Antônio, um refugiado angolano que vive no Rio de Janeiro há 16 anos e acaba de se formar em Filosofia, acredita que essa euforia seja “passageira”, como o próprio torneio. “O preconceito contra a África é algo estrutural, que está profundamente inserido mesmo em uma sociedade multicultural como a brasileira e não vai mudar em um mês”, avalia.

O clima de descontração era grande entre os refugiados e o interesse pelo futebol dominava as falas dos convidados. Um refugiado eritreu pergunta, indignado: “Por que o Dunga não convocou o Ronaldinho Gaúcho?” Ao seu lado, Ahmad tenta especular como seria uma final disputada entre o Brasil e uma equipe africana. Indeciso e sem resposta, ele solta um suspiro nervoso e pronuncia apenas: “Oh My God!”

(Por Janaína Galvão/ACNUR, do Rio de Janeiro)