Conflitos e resistência da população dificultam ação contra ebola na República Democrática do Congo

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que o novo surto de ebola, anunciado em agosto no leste da República Democrática do Congo, pode piorar rapidamente devido a conflitos em andamento, à desinformação em comunidades já traumatizadas e à proliferação geográfica do vírus. Agência disse no entanto que nem a OMS nem funcionários da ONU se retirarão da região.

Equipe da OMS em resposta ao surto de ebola na República Democrática do Congo. Foto: OMS

Equipe da OMS em resposta ao surto de ebola na República Democrática do Congo. Foto: OMS

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse no final de setembro que o novo surto de ebola, anunciado em agosto no leste da República Democrática do Congo (RDC), pode piorar rapidamente devido a conflitos em andamento, à desinformação em comunidades já traumatizadas e à proliferação geográfica do vírus.

“Agora estamos extremamente receosos de que diversos fatores possam estar se somando nas próximas semanas e meses para criar uma tempestade perfeita em potencial”, disse o diretor-geral adjunto da OMS para Preparação e Resposta a Emergências, Peter Salama, em uma coletiva de imprensa em Genebra.

Os comentários de Salama foram feitos após uma série de ataques de grupos armados a civis, especialmente aqueles atribuídos à Aliança de Forças Democráticas (ADF), com destaque para um atentado que matou 21 pessoas na cidade de Beni, onde ficam as equipes de resposta ao ebola da OMS.

Além dos atentados, a OMS também precisou lidar com uma “ville morte” no dia 24 – um período de luto declarado pelas comunidades de Beni, que obrigou a agência de saúde das Nações Unidas a suspender suas atividades; a “ville morte” durou 4 dias.

Segundo Salama, na semana do luto, a OMS não conseguiu monitorar 80% dos contatos de ebola – pessoas sob o risco de desenvolverem a doença – dentro e nos arredores de Beni.

“A cidade de Butembo também pode vir a declarar ‘ville morte’ nos próximos dias, em solidariedade com o povo de Beni”, informou Salama, acrescentando que isso “aumentaria as chances da situação piorar rapidamente”.

O diretor-geral adjunto da OMS observou ainda que a epidemia pode piorar em razão de enterros feitos de maneira insegura e do acesso limitado da OMS a civis.

De acordo com ele, a situação também tem se agravado por causa da resistência da população. “Os meios de comunicação contribuíram para a divulgação de uma série de teorias conspiratórias a respeito do ebola, que aumentaram o medo da doença e dificultaram o trabalho da OMS”, informou.

Outro fator que dificulta a resposta ao vírus é a exploração desse medo por políticos locais, que têm manipulado moradores antes das eleições.

“As pessoas estão fugindo dos agentes de saúde, inclusive em locais onde houve um grande número de casos nas últimas semanas”, contou.

Nos quase dois meses desde que o surto foi declarado, 150 casos de ebola foram confirmados e pelo menos 100 pessoas morreram desde 23 de setembro.

Os sintomas do vírus incluem febre alta e vômitos – o que dificulta o trabalho de resposta da OMS devido à semelhança com muitas outras doenças em seus estágios iniciais.

Falando a jornalistas na ONU em Genebra, Salama afirmou que a resposta internacional ao ebola foi excelente e que os doadores responderam “rápida e generosamente” a este último surto, que é o décimo desde os anos 1970.

“Esse progresso corre o risco de ser desfeito pelo aumento da violência na região de Kivus, que abriga mais de 100 grupos armados”, disse ele, informando que os países vizinhos agora também enfrentam um risco maior de disseminação da doença.

“Pedimos à comunidade internacional que continue a financiar a resposta tanto em Kivu do Norte quanto nas províncias vizinhas de Kivus e Ituri, e nos países vizinhos, onde é cada vez mais importante”, instou Salama.

‘Não há planos para que a OMS ou a equipe da ONU se retirem’

Com capacidade militar suficiente para emboscar agentes da Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO) e invadir bases das FARDC – as forças do governo da RDC –, o ADF representa uma das principais ameaças aos civis e à resposta internacional ao ebola.

Perguntado se os crescentes conflitos envolvendo grupos armados podem forçar a OMS a deixar a área, Salama afirmou que não havia “planos” para isso e que apenas uma “presença muito significativa” da ONU e de seus parceiros poderia deter a doença.

“Não há planos para a OMS ou a equipe da ONU se retirarem”, disse, ratificando a missão das Nações Unidas. “Você sabe que a filosofia da ONU é ficar e ajudar sob todas as circunstâncias, a menos que nos tornemos alvos diretos de violência.”


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