Condições climáticas pioram no Mediterrâneo e agravam crise de refugiados, alerta ACNUR

Acidentes com embarcações continuam deixando mortos e desaparecidos. A ONU também destaca o crescente número de eritreus entre os migrantes e refugiados que chegam à Europa.

Grupo de refugiados desembarca de bote inflável após chegar à ilha de Lesbos, na Grécia. Foto: ACNUR/Achilleas Zavallis

Grupo de refugiados desembarca de bote inflável após chegar à ilha de Lesbos, na Grécia. Foto: ACNUR/Achilleas Zavallis

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) alertou a comunidade internacional nesta quinta-feira (29) sobre o agravamento da crise de refugiados por conta do mau tempo no Mar Mediterrâneo, local de travessia para milhares de pessoas deslocadas que desejam chegar à Europa. Entre os migrantes e refugiados, cresce o número de eritreus, segundo comissão especial da ONU.

Em cinco incidentes recentes envolvendo barcos de contrabandistas que saíram da Turquia rumo à Grécia, ao menos 15 pessoas morreram e outras 38 continuam desaparecidas.

Na noite de quarta-feira (28), um bote que levava cerca de 300 pessoas afundou próximo à ilha grega de Lesbos, por conta de tempestades. A Guarda Costeira do país resgatou 242 indivíduos, entre eles 15 crianças que tiveram hipotermia. Foram registradas sete mortes.

“Nós avisamos por semanas que uma situação já ruim poderia ficar ainda pior se refugiados e migrantes desesperados continuassem a recorrer a atravessadores que os enviam para o mar apesar do clima que piora”, afirmou a coordenadora sênior de operações do ACNUR para a Grécia, Alessandra Morelli.

“Agora, nossos temores se tornam reais. Quase todos os dias, vamos crianças e pais, idosos e jovens morrendo”, acrescentou.

Em 2015, 570 mil pessoas já chegaram às ilhas gregas vindo da Turquia, a maioria em botes de borracha que contrabandistas lotam com 50 passageiros ou mais. O custo de uma viagem nessas embarcações varia de 1.100 a 1.400 euros por pessoa.

De acordo com informações de refugiados, por conta das condições climáticas cada vez mais adversas, negociantes têm oferecido descontos de até 50%. Contrabandistas também estariam à procura de embarcações maiores, como a do naufrágio na quarta-feira, capazes de carregar centenas de passageiros, que teriam de pagar entre 1.800 e 2.500 euros para fazer a travessia nesses barcos.

O diretor da Comissão de Investigação sobre os Direitos Humanos na Eritreia, Mike Smith, destacou que um número cada vez maior de cidadãos desse país está fugindo para a Europa, apesar de a nação não estar em guerra ou situação de conflito. Entre 2013 e 2014, o volume de emigrantes aumentou 150%.

“Sem eleições desde 1993. Sem imprensa independente desde 2001. Restrições contínuas de todas as liberdades: de movimento, de expressão, de religião e associação. Prisões arbitrárias sem julgamentos justos ou sem mesmo qualquer julgamento. Trabalho forçado. Tortura”, explicou Smith sobre os fatores que têm provocado o “alarmante êxodo” de eritreus.

“Que tantas pessoas sintam necessidade de fugir de seu lugar de origem para viver uma vida decente, livre de medo, é uma intimação extraordinária ao governo que controla a Eritreia desde a independência, há mais de 20 anos”, afirmou o diretor. O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas vai estender por mais um ano o mandato da Comissão chefiada por Smith, a fim de investigar as violações de direitos humanos no país.