Competição por recursos provoca atrito entre refugiados e moradores locais no Sudão do Sul

Mulheres e crianças deslocadas sob um sol quente em Maban, no Sudão do Sul, onde a escassez de alimentos está causando tensão. Foto: ACNUR/P. Rulashe

Em meio a conflitos entre os habitantes locais e os refugiados, provocados pela escassez de alimentos em uma área volátil no Estado do Alto Nilo, no Sudão do Sul, a agência das Nações Unidas para refugiados disse na sexta-feira (21) que está seriamente preocupada com novas tensões crescentes na região.

“Os moradores locais [em Maban County] estão agora exigindo que os cerca de 60 mil refugiados nos campos de Yusuf Batil e Gendrassa saiam dentro de dois meses”, disse Fatoumata Lejeune-Kaba, a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a jornalistas em Genebra, acrescentando que as hostilidades também se espalharam para os campos de Doro e Kaya.

Embora destacando que o ACNUR está trabalhando com as autoridades e outras agências humanitárias para acalmar a situação, ela explicou que a competição por recursos naturais — incluindo lenha, grama e pastagens — aumentou recentemente ataques, forçando 8 mil refugiados a fugir do campo de Yusuf Batil.

“Casas, tendas e celeiros pertencentes tanto a refugiados quanto a moradores foram incendiados durante os combates. Embora os refugiados já tenham retornado ao acampamento, as tensões persistem. Moradores de Maban que vivem perto Yusuf Batil fugiram, citando o medo de novos confrontos com refugiados”, disse Lejeune-Kaba.

Segundo o ACNUR, desde que o conflito armado entre as forças governamentais e os rebeldes eclodiu no Sudão do Sul, em meados de dezembro, a instabilidade e os conflitos na região interromperam o plantio e a colheita. Ao mesmo tempo, a insegurança ao longo das rotas de transporte tem dificultado a entrega de alimentos e outros suprimentos humanitários.

“Há uma necessidade de assegurar um fornecimento adequado antes do início das chuvas, ou então todas as entregas terão de ser realizadas por via aérea”, afirmou Lejeune-Kaba. “Sem o suficiente para comer, os refugiados têm aumentado sua inquietação. Alguns ameaçaram voltar ao estado do Nilo Azul, no Sudão, de onde fugiram por causa do contínuo conflito armado.”

Maban abriga 125 mil refugiados sudaneses do Nilo Azul. Um terço da população refugiada é composta por crianças pequenas, mulheres grávidas e lactantes, idosos e deficientes e doentes crônicos. E eles são os mais vulneráveis à desnutrição, alertou o ACNUR.

Os governos do Sudão do Sul e da Etiópia concordaram em permitir que suprimentos humanitários sejam entregues por Gambella, na Etiópia, o que permitirá que o Programa Mundial de Alimentos (PMA) envie produtos alimentares essenciais para os deslocados internos e refugiados em Maban nos próximos dias.

Enquanto isso, a insegurança e a fome estão forçando mais sul-sudaneses a fugir para países vizinhos, como a Etiópia, onde uma média de mil refugiados sul-sudaneses chegam diariamente.