Com o domínio do português, venezuelanos encontram mais oportunidades em Boa Vista

Sair de seu país e deixar tudo para trás em busca de proteção é uma decisão difícil de tomar. E para as pessoas refugiadas, o processo de integração em um novo país é ainda mais desafiador quando refugiados e migrantes precisam vencer a barreira do idioma local.

Foi a partir dessa compreensão que professores da Universidade Federal de Roraima (UFRR) desenvolveram o projeto “Português para Acolhimento”, que oferece aulas do idioma utilizando ferramentas digitais e promovendo a educação ao integrar idioma e tecnologia. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

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Sair de seu país e deixar tudo para trás em busca de proteção é uma decisão difícil de tomar. E para as pessoas refugiadas, o processo de integração em um novo país é ainda mais desafiador quando refugiados e migrantes precisam vencer a barreira do idioma local.

Foi a partir dessa compreensão que professores da Universidade Federal de Roraima (UFRR) desenvolveram o projeto “Português para Acolhimento”, que oferece aulas do idioma utilizando ferramentas digitais e promovendo a educação ao integrar idioma e tecnologia.

O curso dura dez meses e suas aulas já alcançaram mais de 530 refugiados e migrantes venezuelanos em Boa Vista (RR), capital do estado. A última turma se formou há cerca de um mês, e entre os graduados estava a venezuelana Adriana Duarte, de 35 anos, que chegou ao Brasil no início deste ano.

No início de sua jornada no Brasil, Adriana fazia alguns trabalhos audiovisuais (sua especialidade) em Boa Vista. Após o curso, e podendo se comunicar melhor, oportunidades mais concretas foram aparecendo.

Hoje, ela trabalha no Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS), uma organização não governamental que atua nas áreas de educação, sustentabilidade e inclusão social.

Adriana atende o público externo – inclusive outros venezuelanos que vivem dentro e fora dos abrigos – informando sobre oportunidades de empreendimento, questões da legislação brasileira e temas como sustentabilidade e inclusão social. Além disso, continua prestando serviços a uma produtora de vídeo local.

“Saber falar o português nos dá força e poder para lutar por nossos sonhos. Depois da formatura consegui me estabelecer como profissional na área de comunicação e hoje estou trabalhando para uma organização que apoia os venezuelanos que estão chegando”, afirma Adriana, orgulhosa.

A turma de Adriana, que se formou em junho, reuniu 64 refugiados e migrantes venezuelanos (adultos e crianças, indígenas e não indígenas). Eles concluíram o curso de língua portuguesa e educação digital.

O projeto “Português para Acolhimento” tem apoio da empresa de tecnologia Ericsson, que forneceu equipamentos como computadores e tablets, e também capacitou os professores. Outra ferramenta bastante utilizada durante as aulas é o portal HELP (https://help.unhcr.org) da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), que oferece informações sobre o Brasil em vários idiomas.

O ACNUR também apoiou o projeto oferecendo o espaço para as aulas e outros materiais por meio do suporte financeiro da União Europeia, que tem contribuído com o fortalecimento da resposta aos venezuelanos na região norte do Brasil e ajudando a promover a integração dessas pessoas. A Cooperativa dos Produtores Culturais do Estado de São Paulo (COOPCESP) também colaborou com a iniciativa.

Após o curso, alunos e professores mantiveram contato por meio de grupos de mensagens em que oportunidades de trabalho e dicas de português são regularmente trocadas. A integração sempre foi a palavra-chave do projeto, não apenas entre idiomas e tecnologia, mas também entre nacionalidades e etnias.

Isso possibilitou também um maior relacionamento pessoal entre os participantes. Para o jovem indígena venezuelano da etnia Warao, Yonder Rivas, de 15 anos, o curso ajudou a quebrar a primeira barreira do idioma, fazendo com que ele se aproximasse mais das pessoas. “Agora eu já sei dizer ‘bom dia’, ‘boa noite’ e ‘com licença’”, revela.

Enquanto morou no abrigo indígena Janokoida, na cidade fronteiriça de Pacaraima (a 200 quilômetros de Boa Vista), Yonder participou do projeto “Canarinhos da Amazônia”, também apoiado pelo ACNUR com fundos da União Europeia. Vivendo agora em Boa Vista no abrigo Pintolândia, ele teve acesso ao projeto “Português para Acolhimento” e é muito agradecido por esta oportunidade.

Quando perguntado qual é a frase em português que mais gosta, Yonder diz: “eu gosto da vida”. Para ele, essa frase “o faz viver e continuar”. E complementa: “se eu aprender a falar a língua do Brasil, vou conseguir estudar, trabalhar e ter mais oportunidades”.

Além da resposta de emergência (com ações de registro, abrigamento, alimentação e saúde), fornecer meios de capacitar refugiados a trilharem os seus próprios caminhos é fundamental, explica Marília Cintra Correa, assistente sênior de soluções duradouras do escritório do ACNUR em Roraima.

“Quando alguém é forçado a deixar seu país, a pessoa não pode levar quase nada. Mas uma coisa ninguém pode tirar de você: o seu conhecimento, e estamos sempre trabalhando nesse sentido”, diz Marília.

“A universidade tem papel fundamental na recepção desses refugiados e migrantes ao oferecer oportunidade de conhecimento aos que chegam”, diz Jefferson Fernandes do Nascimento, reitor da UFRR. Ele entende o contato com os venezuelanos como uma importante oportunidade para os alunos e professores desenvolverem estudos sobre a situação que estão presenciando.

Muito efusiva ao cumprimentar outros colegas e convidados, Adriana responde em português qual a palavra que mais gostou de aprender. “Saudade, que só existe em português e explica muito bem o que tenho no meu coração”. “Mas estou muito feliz por estar aqui, ainda mais agora que posso me expressar e os outros me entenderem”, complementa.