Com experiência humanitária, sudanesa ajuda outras refugiadas a recomeçar a vida no DF

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Atuando no projeto “Mulheres Unidas”, o trabalho de Eiman Haru é exemplo da luta pelo fim da violência contra as mulheres refugiadas – e pauta do Dia Laranja pelo Fim da Violência contra as Mulheres, marcado todo dia 25. Iniciativa do Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH) tem o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Como grande parte das mulheres forçadas a se deslocar, a trajetória de Eiman é marcada pela superação das dificuldades inerentes ao refúgio e à integração local. Confira nesse vídeo e nessa reportagem especial.

Mulheres refugiadas e migrantes procuram o Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH) em busca de auxílio no processo de adaptação e integração cultural no Brasil.

Muitas vezes elas precisam de ajuda para entender português ou com a validação dos documentos de trabalho. Não são incomuns relatos de abuso de poder por parte dos parceiros, além de muitos casos de violência sexual.

Quem as ajuda é Eiman Haru, também refugiada, que participa do projeto “Mulheres Unidas – Mulheres que Inspiram o Mundo”. A iniciativa atende a população refugiada feminina residente no Distrito Federal e região.

“Elas vêm de diversos países da África, da América do Sul, da Ásia e pertencem a diferentes religiões, tribos, e tem histórias únicas”, afirma. Como grande parte das mulheres forçadas a se deslocar, a trajetória de Eiman Haru é marcada pela superação das dificuldades inerentes ao refúgio e à integração local.

Hoje, após ultrapassar essas barreiras, ela estende a mão às mulheres em situações semelhantes à sua e as ensina sobre os direitos das mulheres no Brasil, prestando assistência individual e atuando como ponto de referência no processo de acolhida e adaptação cultural e social.

A sudanesa, que é formada em Artes e especializada em assistência humanitária, está no Brasil desde 2015 e foi selecionada para ser consultora no projeto dentro do IMDH. O projeto é apoiado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e foi criado com a intenção de dar atenção especifica às necessidades de mulheres em situação de refúgio.

A empatia e aproximação de Eiman com estas mulheres em situação de refúgio aconteceu de forma espontânea. De acordo com a diretora do IMDH, Rosita Milesi, o projeto nasceu em 2016, a partir de uma série de encontros.

“Nesse caminho de avanço, e querendo mesmo implementar mais atividades e oportunidades para as mulheres refugiadas, o ACNUR nos apoiou com a possibilidade de contratar uma consultora com essa finalidade. Isso fortaleceu muito o projeto e primeira consultora contratada foi justamente uma refugiada, a Eiman, e o que nos levou a convidá-la foi uma questão bastante simples, o idioma”, afirma Rosita.

Muitas das refugiadas e migrantes que chegam sentem-se confortáveis em se abrir com ela e contar sobre as dificuldades enfrentadas, já que, como elas, Eiman tem um histórico de trabalho semelhante no Sudão. É o caso de Rabia, refugiada do Marrocos, que procurou o IMDH e obteve auxílio de Eiman, e que hoje é sua amiga.

“Ela me deixa confortável. É muito bom poder encontrar alguém no momento em que você mais precisa, que te mostra os caminhos possíveis. Ela faz com que eu sinta orgulho de ser quem sou”, afirma Rabia.

Eiman explica que, apesar das dificuldades, é importante poder ajudar as refugiadas e migrantes: “É um pouco difícil ouvir problemas diariamente, principalmente quando você não pode fazer nada relacionado à lei, por exemplo. Mas oferecer apoio inicial emocional e social e ouvir o que essas mulheres tem a dizer… Isso nós conseguimos fazer”.

A partir das conversas, um plano de ajuda é traçado para que as mulheres saiam de situações de risco e não se enquadrem mais no perfil de alta vulnerabilidade.

O trabalho de Eiman destaca-se no Dia Laranja pelo Fim da Violência contra as Mulheres deste mês, que dará a visibilidade às mulheres em situação de refúgio, no contexto do Dia Mundial do Refugiado, celebrado em 20 de junho.

O Dia Laranja foi declarado pelas Nações Unidas e é celebrado no dia 25 de cada mês com o objetivo de ampliar o calendário celebrado no dia 25 de novembro – Dia Internacional pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

Trata-se de um dia para dar visibilidade ao tema, mobilizar o compromisso já feito e exigir as condições para que mulheres e meninas possam viver uma vida livre de violência.

Em todo o mundo, as mulheres têm demonstrado uma enorme resiliência ao refazer suas vidas e a de seus familiares, levando desenvolvimento e progresso às comunidades de acolhida.

Segundo Isabel Marquez, representante do ACNUR no Brasil, “a história das mulheres e meninas refugiadas no Brasil demonstra um grande poder de resiliência e uma imensa colaboração para o desenvolvimento de nossa sociedade”.

Para Isabel, o empoderamento das mulheres e meninas, assim como a igualdade de gênero e de oportunidades, são essenciais para prevenir o deslocamento forçado e promover o desenvolvimento humano sustentável.

Dados sobre mulheres refugiadas

A discriminação contra as mulheres e meninas é causa e consequência do deslocamento forçado e da apatridia. Muitas vezes, a situação é agravada por outras circunstâncias, como por exemplo a origem étnica, deficiências físicas, religião, orientação sexual, identidade de gênero e origem social.

De acordo com os dados do Relatório de Tendências Globais do ACNUR, em 2016, 49% das pessoas refugiadas eram mulheres. Aquelas que estão desacompanhadas, grávidas ou são idosas estão ainda mais vulneráveis.

No Brasil, de acordo com o último relatório do CONARE, 32% das 10.038 solicitações de refúgio, apresentadas no ano passado, foram feitas por mulheres no ano passado.

Em um artigo publicado com o editor-chefe da Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, Roberto Marinucci, Rosita Milesi analisa o papel das mulheres migrantes e refugiadas a serviço do desenvolvimento humano.

Segundo o artigo, o perfil das mulheres refugiadas e migrantes mudou ao longo dos últimos anos. Se, por um lado, atualmente as mulheres têm projetos migratórios individuais e assumem o papel de provedoras do lar; por outro, seu desenvolvimento pessoal é prejudicado, na maioria dos casos, em prol daqueles ao seu redor – filhos, parceiros e comunidades às quais pertencem.

Fatores como as novas leis migratórias e demandas do mercado de trabalho aparecem como principais contribuintes para o novo perfil da mulher migrante. O paradoxo está no fato de que “a mulher migrante e refugiada, em geral, contribui muito para o desenvolvimento humano das pessoas ao seu entorno, mas nem sempre isso vem acompanhado de um processo de empoderamento ou desenvolvimento humano da própria mulher”, afirma Rosita.


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