Com assistência da ONU, 130 venezuelanos são interiorizados para Mato Grosso do Sul

Dormindo nas ruas de Boa Vista (RR) por quase um mês, o venezuelano Daniel Andrade, de 29 anos, buscou apoio no centro de registro e documentação da Operação Acolhida na cidade e conseguiu, por meio da estratégia de interiorização, um emprego em Dourados (MS). Em busca de melhores oportunidades de integração, ele confirmou sua participação, refez as malas e embarcou rumo a uma nova vida.

Daniel é um dos 100 venezuelanos embarcados há uma semana para Dourados. Outros trinta, divididos em diferentes voos comerciais, também se juntaram ao grupo, que começa a trabalhar na cidade em 8 de abril. Todos receberam auxílio financeiro emergencial da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O voo foi fretado pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Após duas horas de voo, o avião que decolou de Boa Vista (RR) no último sábado (24) levando refugiados e migrantes venezuelanos para Campo Grande (MS) enfrentou uma forte turbulência. Enquanto alguns passageiros se retraíam em suas poltronas e outros olhavam preocupados pela janela, o venezuelano Daniel Andrade, de 29 anos, sorria e brincava. “Isso não é nada perto do que eu passei no Brasil quando cheguei da Venezuela”.

Dormindo nas ruas de Boa Vista por quase um mês, Daniel buscou apoio no centro de registro e documentação da Operação Acolhida na cidade e conseguiu, por meio da estratégia de interiorização, um emprego em Dourados (MS). Em busca de melhores oportunidades de integração, ele confirmou sua participação na estratégia, refez as malas e embarcou rumo a uma nova vida.

Daniel é um dos 100 venezuelanos embarcados há uma semana para Dourados. Outros trinta, divididos em diferentes voos comerciais, também se juntaram ao grupo, que começa a trabalhar na cidade no próximo dia 8 de abril. No total, são 15 casais e 100 homens solteiros. Assim como Daniel, todos receberam um auxílio financeiro emergencial do ACNUR, com o qual poderão custear o primeiro mês de aluguel e outras despesas emergenciais até receberem seu primeiro salário. O voo foi fretado pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).

“Em Boa Vista morei na região da rodoviária, dormindo sobre papelão e passando frio. Durante o dia, tínhamos que caminhar por toda a cidade até a hora de dormir”, contou. Daniel não chegou a ser acolhido em um dos abrigos existentes em Boa Vista, pois ele foi selecionado rapidamente para uma das vagas de trabalho disponíveis em Dourados por meio da interiorização.

Esta estratégia é uma das frentes de atuação da Operação Acolhida – iniciativa do governo federal para operacionalizar a assistência e acolhimento de refugiados e migrantes venezuelanos em situação de maior vulnerabilidade e que conta com apoio de agências da ONU, organizações da sociedade civil e setor privado.

A Operação Acolhida envolve 11 ministérios e possui apoio e engajamento de organizações da sociedade civil e de diversas agências da ONU, como ACNUR, OIM, Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF), ONU Mulheres e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Frente à perspectiva de um novo emprego, Daniel desabafa: “estou emocionado porque já quero começar a trabalhar, mostrar o que sei fazer”. “Estou preparado para qualquer desafio que vier”.

Conduzida pelas Forças Armadas, essa modalidade da estratégia de interiorização, com oferta de emprego, é apoiada pelo ACNUR por meio de um auxílio financeiro emergencial, que ajuda os refugiados a se estabelecerem na cidade e suprirem suas necessidades básicas durante o primeiro mês. O Instituto Migrações e Direitos Humanos também apoia a iniciativa e foi responsável por viabilizar os pagamentos.

“Para muitos, especialmente para a população com alto grau de vulnerabilidade, é difícil se integrar sem um apoio adicional. Com recursos dos nossos doadores, o ACNUR oferece auxílio financeiro para facilitar o pagamento de aluguel e ajudar nas despesas do dia a dia, como alimentação e transporte. Com isso, as pessoas têm estrutura para buscar um trabalho que permita a elas ter autonomia e recomeçar a vida em plenitude”, afirmou o representante do ACNUR no Brasil, Jose Egas.

Para receber e acolher os venezuelanos em Dourados, entidades da sociedade civil identificaram casas disponíveis para o aluguel e conseguiram doações de alimentos, itens de mobiliário, produtos de higiene, roupas e outros artigos essenciais.

Representantes de diferentes religiões em Dourados se uniram para proporcionar um carinhoso acolhimento. “Sou muito grato de fazer parte desse projeto com parceiros de outras denominações religiosas, como as igrejas Católica, Metodista e Protestante. Todos esses líderes estão juntos em um único propósito: servir nossos irmãos venezuelanos para que possam recomeçar uma vida digna e honesta”, explica o bispo Maykon Ferreira, da Igreja Cristã.

Instalado na sala da nova casa, que dividirá com um casal de venezuelanos já residente de Dourados, Daniel disse que o programa de interiorização é uma nova oportunidade. “Sem isso, nada seria possível. Se não houvesse esse programa, uma pessoa como eu não teria a oportunidade de conseguir coisas melhores para poder ajudar a família”.

Com essa nova rodada de interiorização, o número total de refugiados e migrantes realocados sobe para mais de 5,2 mil. A estratégia já envolve 50 cidades brasileiras em 17 estados.

Para o representante do ACNUR no Brasil, o país é um exemplo em resposta humanitária. “O Brasil está protegendo os refugiados e migrantes venezuelanos. Sua situação é difícil, e seu grau de vulnerabilidade, muito alto. A resposta humanitária no país é uma resposta coordenada que envolve autoridades governamentais em diferentes níveis, o Sistema ONU, a sociedade civil e o setor privado. Ela deve continuar”, declarou.

“Estava estudando o sexto semestre de Medicina na Venezuela. Mas tive que dormir na rua quando cheguei, na época de chuva. Vinha com a meta de trabalhar, e já havia perdido a esperança de seguir estudando”, contou Alexander Diaz, de 21 anos, outro novo morador de Dourados.

Formado como farmacêutico e com habilidades de socorrista, Alexander foi encaminhado pela Operação Acolhida ao abrigo Rondon 1, em Boa Vista, onde permaneceu por sete meses. Ele contou ter realizado dois partos no abrigo, onde também foi voluntário como educador social dando aulas de Biologia para jovens de 11 a 17 anos. Por esta atividade, conseguiu um certificado de educador social.

Alexander viu na estratégia de interiorização uma chance de continuar crescendo profissionalmente. Com o novo emprego e uma nova cidade, o jovem espera poder recomeçar a sua vida e seguir seus objetivos. “Meu sonho, e espero nunca perder esta motivação, é ser médico. Custe o que custar, quero conseguir”.

A empresa alimentícia de Dourados, que agora soma mais de 200 venezuelanos contratados, disse avaliar como muito positivo o desempenho dos novos funcionários. Existe inclusive o interesse em colocar aqueles com Ensino Superior em posições de liderança em áreas relacionadas às suas formações e experiências de trabalho, uma vez que parte desses venezuelanos são engenheiros e veterinários.

Jinmy Payagua, que chegou a Dourados em fevereiro de 2019 — na primeira leva de interiorização com trabalho garantido —, contou um pouco sobre sua experiência na empresa. “Gosto muito do meu trabalho. Nunca tive essa oportunidade em 39 anos de vida. É um trabalho onde nos respeitam como estrangeiro, são pessoas que nos valorizam muito. Eles são solidários com nosso sofrimento e nossas dores. Além de tudo, estou aprendendo algo novo. Agradeço por essa oportunidade”.

Auxílio que salva

A concessão de auxílios financeiros pelo ACNUR visa promover o acesso a serviços, a segurança e a dignidade dos refugiados e migrantes venezuelanos que voluntariamente aderiram à estratégia de interiorização. Em caráter emergencial e temporário, a bolsa auxilia na proteção e favorece a autossuficiência econômica e social de venezuelanos que querem ficar no Brasil. É o caminho para que essas pessoas possam reconstruir suas carreiras e objetivos profissionais.

O venezuelano Luiz Salazar, que vivia em um abrigo de Boa Vista, agora está morando em Dourados numa casa grande, com cinco quartos e quintal. “Podemos nos juntar em grupos para facilitar o pagamento do aluguel, que fica mais barato. Serei eternamente agradecido”, disse ele, sentado na sala de sua nova casa, que dividirá com outros 14 colegas. “Isso vai me ajudar em meu sonho, que é simples: ter uma família digna”.

Até o momento, o ACNUR já concedeu mais de 3,2 mil bolsas para 4,1 mil refugiados e migrantes venezuelanos. Em Dourados, já são mais de 200 venezuelanos beneficiados, que compartilham a mesma esperança: trabalhar, contribuir com a sociedade, reunir-se com a família e ter um futuro próspero e digno.

É para isso que trabalham todos os envolvidos na estratégia de interiorização da Operação Acolhida, que acaba de completar um ano neste mês.


Comente

comentários