Com apoio de agência da ONU, refugiados vivem dia de acolhida com o Corinthians

Cerca de 80 refugiados residentes em São Paulo visitaram a tradicional casa do “timão”, o Parque São Jorge, e assistiram a uma partida na arquibancada da Arena Corinthians no sábado (16).

Projeto do departamento de responsabilidade social do Corinthians tinha como objetivo aproximar seus jogadores e torcedores da causa dos refugiados. Foto: ACNUR

Projeto do departamento de responsabilidade social do Corinthians tinha como objetivo aproximar seus jogadores e torcedores da causa dos refugiados. Foto: ACNUR

O garoto colombiano Jesus Romero Beltran não poderia ter comemorado com maior alegria seus oito anos de idade na tarde de 16 de abril. Vestido com o uniforme oficial do time de futebol de seu coração, Jesus entrou no gramado da Arena Corinthians, em São Paulo, junto com os jogadores profissionais pelo Campeonato Paulista de Futebol.

Ele passou o dia com sua família e cerca de 80 outros refugiados residentes em São Paulo em uma visita ao Parque São Jorge, a casa tradicional do Corinthians. Pôde ainda assistir, da arquibancada da Arena, as saudações da torcida corinthiana aos refugiados no Brasil e a vitória de seu time por 4 a 0 sobre o Red Bull Brasil.

“Foi o maior presente vir aqui no estádio do Corinthians no dia do meu aniversário”, disse Jesus, que aprende futebol na rede de escolas para crianças mantida pelo time, a Chute Inicial. “Quero ser jogador de futebol. Jogo no meio-campo, mas meu jogador favorito é o Lucca, que é atacante”.

A iniciativa do Departamento de Responsabilidade Social do Corinthians de aproximar seus jogadores e sua torcida pela causa dos refugiados fez parte do projeto “Time dos Povos”. Chamado de “Dia de Corinthians”, o evento do dia 16 foi articulado com o Cáritas de São Paulo, por meio de seu Centro de Referência do Refugiado (CRR), e teve o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Do ponto de vista da Cáritas e do ACNUR, tratou-se de uma oportunidade ímpar para facilitar a integração dos refugiados ao cotidiano da metrópole paulista.

No estádio Arena Corinthians, a locutora oficial anunciou a celebração aos refugiados, enquanto era exibido no telão um depoimento de Frederico Romero, pai de Jesus, em gratidão pelo acolhimento. “O Brasil é uma mãe”, afirmou ele, que já torcia pelo time paulista antes de refugiar-se no País.

Cinco meninos e cinco meninas, todos refugiados com uniforme do Corinthians, entraram no campo com os jogadores. Jesus e sua irmã Juana estavam entre eles. O momento foi marcado por uma explosão dos torcedores que, entre cantos e gritos, levantaram faixas com nomes de diferentes países como forma de acolher os refugiados visitantes.

Evento foi articulado com o Cáritas de São Paulo, por meio de seu Centro de Referência do Refugiado (CRR), e teve o apoio do ACNUR. Foto: ACNUR

Evento foi articulado com o Cáritas de São Paulo, por meio de seu Centro de Referência do Refugiado (CRR), e teve o apoio do ACNUR. Foto: ACNUR

Para Wessam Aljammal, engenheiro naval sírio de 43 anos, foi grande a alegria ao ver a filha Gawa entre as crianças que acompanhavam os jogadores do Corinthians. Da arquibancada, ele esperava os gêmeos Mohamad e Abdalla, que haviam assistido ao aquecimento dos jogadores, enquanto segurava o caçula Taim.

Aljammal e sua mulher Muna, professora de inglês, tentaram várias vezes chegar à Europa com seus quatro filhos para escapar do conflito em seu país. Sem sucesso, rumaram para o Egito, de onde seguiram para o Brasil há dois anos e meio. “Eu não escolhi o Brasil. O Brasil me escolheu”, afirmou o refugiado sírio, que hoje trabalha ao lado da mulher na preparação de pratos da culinária árabe.

No intervalo da partida, os refugiados Nsoma Isidoro Jorge, de Angola, e os congoleses Hidras Tvala, Mabiala Nkombo e Muanda Tuala foram escolhidos pelo Corinthians como voluntários para os próximos jogos na Arena. O quarteto faz parte do grupo vocal “Os Escolhidos” e animou todo o Dia de Corinthians, desde o trajeto de ônibus, com um repertório de canções africanas e de soul music. Nas instalações do time, o grupo improvisou várias vezes o mais popular bordão da torcida: “Vai Corinthians!”.

Entre os “selfies” dos visitantes, Exiauce Katumba, congolês de 6 anos, concentrou-se em registrar sua visão sobre o passeio com a câmera ganha das mãos da atriz Regina Casé no programa “Esquenta”, da Rede Globo. Exiauce se destacou ao fotografar os jogos da 2ª Copa dos Refugiados, em junho do ano passado. No grupo de visitantes ao Corinthians, ele oscilava entre o papel de mascote e de “fotógrafo oficial”.

Aspirante a jogador de futebol no Brasil, Abdoulaye Traore, de 20 anos, atuou no clube Stade Malien de Bamako, no Mali, e tentou ingressar em times da Turquia, Espanha, Alemanha, Marrocos e Senegal antes de se refugiar. No ano passado, atuou como atacante do time do Mali na Copa dos Refugiados.

Mas na visita ao Corinthians, no dia 16, não escondia seu desejo de mostrar seu talento aos olheiros do clube paulista. “Já vim assistir a três jogos aqui. Queria mesmo era jogar”, disse. “Quando cheguei ao Brasil, todo mundo me falava do Corinthians. Eu nem sabia o que era. Conhecia o Santos, o Flamengo e o Fluminense. Comprei uma camiseta e descobri que ela era do Corinthians. Virei torcedor”, contou.

O Corinthians é considerado um dos times mais populares do Brasil e, particularmente, de São Paulo. Fundado em 1910, disputava no último sábado uma vaga para as quartas de final do Campeonato Paulista, garantida com a vitória conquistada.

O cuidado da administração do time com a recepção dos cerca de 80 estrangeiros em refúgio no Brasil foi marcante: dois ônibus transportaram o grupo da praça da Sé, no centro de São Paulo, ao Parque São Jorge, a sede tradicional do clube no bairro de Vila Matilde, na Zona Leste da capital. Ali, todos puderam visitar o Memorial Corinthians, assistir à equipe do Sub20 treinar no estádio Fazendinha e almoçar no restaurante do clube. De presente, o grupo recebeu duas camisetas – uma do projeto “#Time dos Povos”, imediatamente vestida, e outra com as cores da seleção brasileira de futebol e o emblema do Corinthians.

Por Denise Chrispim, de São Paulo