‘Coloquem a paz acima da política’, diz chefe da ONU a líderes do Sudão do Sul

Ban Ki-moon encerrou no país uma visita a três países da África. “Mesmo sendo muito importante, a ação humanitária não pode ser um substituto para soluções políticas”, disse. “O governo do Sudão do Sul deve intensificar a sua responsabilidade e proteger a sua população.” Representante humanitária alerta que apenas 6% do total solicitado de ajuda para 2016 foi financiado.

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Como parte do último dia de sua visita nesta semana ao Sudão do Sul, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, se reuniu com o presidente Salva Kiir destacando a urgência de formar um governo de transição. Ban também conversou por telefone com o ex-vice-presidente Riek Machar e visitou um local de proteção de civis.

Durante a sua reunião com o presidente Kiir, o chefe da ONU sublinhou que a implementação do acordo de paz alcançado em agosto passado deve ser uma prioridade para o governo do Sudão do Sul, incluindo a formação urgente de um governo de transição de união nacional com o líder da oposição Machar.

Ban Ki-moon encerrou no país uma visita a três países da África – os outros dois foram Burundi e República Democrática do Congo, que também passam por crises políticas, de segurança e humanitárias.

De acordo com um comunicado emitido pelo escritório do secretário-geral, Ban “saudou o compromisso do governo para implementar medidas transitórias de segurança de acordo com a proposta apresentada no início da semana”.

Ban também pediu ao presidente para trabalhar com Machar, após o seu regresso, para “reconstruir a confiança mútua das pessoas e da comunidade internacional para pôr o país no caminho da estabilidade”, disse o comunicado.

O secretário-geral também condenou fortemente o surto de violência no local de proteção de civis da ONU em Malakal na semana passada, e exortou o governo a realizar uma investigação completa e responsabilizar os responsáveis.

Ban Ki-moon reiterou o compromisso da ONU com a proteção de civis, tanto dentro dos locais de proteção da ONU quanto no resto do país, instando o governo a permitir “acesso irrestrito” para o pessoal da ONU e seus parceiros humanitários, disse o comunicado.

Numa coletiva de imprensa na quinta-feira (25), o chefe da ONU destacou que ele estava concluindo sua visita a Juba, capital do Sudão do Sul, em um momento crítico, e reiterou o compromisso da ONU com o processo de paz e o futuro do Sudão do Sul.

“Coloquem a paz acima da política. Busquem o compromisso. Superem obstáculos. Estabeleçam o governo de Transição de Unidade Nacional. Sem atrasos”, disse Ban Ki-moon aos líderes do Sudão do Sul.

As partes devem saber que a responsabilidade não termina com a assinatura de um acordo, acrescentou o chefe da ONU. “De muitas maneiras, ela começa com a assinatura de um acordo. E deve começar agora”, disse.

Ban também afirmou que estava “profundamente comovido” com sua visita a estudantes e outras pessoas afetadas pelo conflito em um local de proteção de civis da Missão da ONU no Sudão do Sul (UNMISS).

“Eu vi nos rostos das pessoas deste país tudo o que a bandeira representou. O orgulho. O espírito. A esperança. E, ainda, tragicamente, essa esperança foi traída”, enfatizou.

Reafirmando que os ataques contra civis, forças de paz e instalações da ONU – como em Malakal – violam o direito internacional humanitário e deve parar, o chefe da ONU observou que os campos de proteção não são uma solução de longo prazo.

“Mesmo sendo muito importante, a ação humanitária não pode ser um substituto para soluções políticas”, disse. “O governo do Sudão do Sul deve intensificar a sua responsabilidade e proteger a sua população.”

Ban Ki-moon exortou todas as partes a remover as restrições à liberdade de movimento da ONU e agentes humanitários e garantir o acesso às pessoas que necessitam de proteção e ajuda para salvar vidas.

Em visita ao país, vice-chefe humanitária pede fim do sofrimento dos civis

A vice-chefe humanitária das Nações Unidas apelou nesta sexta-feira (26) a todas as partes envolvidas no conflito no Sudão do Sul para proteger os civis e conceder acesso humanitário seguro e sem obstáculos. Kyung-wha Kang acompanhou o secretário-geral na visita de dois dias ao país, se encontrando com funcionários do governo e das comunidades afetadas pelo conflito.

Durante sua missão, Kang também se reuniu parceiros humanitários e da comunidade diplomática e visitou Malakal, onde testemunhou o impacto devastador da violência armada ocorrida nos últimos 17 e 18 de fevereiro.

“Estou indignada com o que tenho visto em Malakal”, disse ela, observando que os civis que haviam procurado segurança no local foram atacados, mortos, traumatizadas ou deslocados, mais uma vez. Todo o local – incluindo clínicas médicas e escolas – foi completamente incendiado e destruído.

“Os responsáveis por estes atos hediondos devem ser responsabilizados”, disse ela.

O conflito de dois anos no Sudão do Sul tem sido brutal e mortal para os civis. Recentemente, os conflitos se espalharam para novas áreas, inclusive Wau e Mundri, e novos relatos indicam pessoas sendo estupradas e mortas, e casas e plantações destruídas e danificadas pelos combates.

Apesar do acordo de paz, os civis no país continuam a enfrentar a miséria, a destruição, a morte e a devastação, e as necessidades humanitárias continuam a crescer, disse Kang. Ela pediu o fim dos combates, a proteção das pessoas que estão em meio ao conflito e acesso imediato e sem entraves aos agentes humanitários a todos os necessitados.

Kang apelou à comunidade internacional para agir imediatamente para evitar uma tragédia ainda maior no Sudão do Sul, já que as necessidades humanitárias são maiores agora do que nunca.

O Plano de Resposta Humanitária do Sudão do Sul para 2016 foi apenas 6,5% financiado – já incluindo os 21 milhões de dólares do Fundo Central de Resposta de Emergência (CERF), doação anunciado pelo secretário-geral em Juba na quinta-feira (25). O total restante solciitado, no entanto, é de quase 1,21 bilhões de dólares.

Cerca de 220 milhões de dólares são necessários urgentemente para garantir que suprimentos vitais possam ser adquiridos e entregues durante a estação seca, antes que quase 60% do país fique novamente novamente inacessível pelas estradas.