Cinema pode ajudar a criar empatia por refugiados, diz diretor brasileiro

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Em cartaz no Festival do Rio, o documentário THF: Aeroporto Central transporta o espectador para os terminais do Tempelhof, um aeroporto construído na Berlim dos anos 1920 e transformado em 2015 num abrigo para refugiados.

Em entrevista à ONU Brasil, o diretor do filme, o brasileiro Karim Aïnouz, discute o papel do cinema em meio à ascensão da extrema direita na Europa e fala sobre o drama de refugiados vivendo na Alemanha.

Ibrahim Al Hussein (à esquerda) é um dos refugiados que participam do documentário 'THF: Aeroporto Central', do brasileiro Karim Aïnouz. Imagem: THF

Ibrahim Al Hussein (à esquerda) é um dos refugiados que participam do documentário ‘THF: Aeroporto Central’, do brasileiro Karim Aïnouz. Imagem: THF

Em cartaz no Festival do Rio, o documentário THF: Aeroporto Central transporta o espectador para os terminais do Tempelhof, um aeroporto construído na Berlim dos anos 1920 e transformado em 2015 num abrigo para refugiados. Dirigido pelo brasileiro Karim Aïnouz, o filme aborda o drama de quem fugiu da guerra para sobreviver, mas vive com a angústia de um futuro incerto na Europa.

A obra acompanha ao longo de um ano o jovem sírio Ibrahim Al Hussein, que deixou seu vilarejo próximo à fronteira com a Turquia por causa do conflito armado em sua terra natal. Refugiados de outros países também povoam as galerias do THF. Por meio de suas histórias, o público conhece as dificuldades de integração na nova pátria — a longa burocracia para regularizar o status migratório ou conseguir uma autorização de trabalho, o esforço para aprender alemão, a falta de privacidade no abrigo.

Aïnouz cria um inventário de situações cotidianas, assombradas por uma certa melancolia e pela incerteza quanto à permanência em solo alemão.

“O que há de mais dramático é essa espera, que você tem que estar ali sem saber como é que vai ser o seu dia seguinte, sem saber se você vai poder ficar ali, sem saber se você vai ter que voltar para (o lugar) de onde você fugiu”, afirmou o diretor da obra nesta semana (5) em entrevista ao Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio).

Fachada do Tempelhof, o antigo aeroporto central de Berlim. Imagem: THF

Fachada do Tempelhof, o antigo aeroporto central de Berlim. Imagem: THF

Embora o aeroporto não seja um centro de detenção e seus moradores tenham liberdade de ir e vir, a impressão é de que os refugiados estão confinados num limbo, entre a memória de um passado violento e um futuro nebuloso.

“Eles foram sequestrados pelo tempo ali, de um jeito ou de outro. Na hora que eles entram ali, que eles se matriculam e que eles estão numa lista de espera, eles estão realmente sem nenhum domínio do tempo deles”, completa o cineasta.

Para a atriz Fernanda Montenegro, que compareceu à sessão especial do filme no último domingo (4), THF: Aeroporto Central “é de uma humanidade sem nome, é de (fazer) a gente pensar no que está acontecendo no mundo”.

“A Alemanha ainda tem um lastro econômico que pode socorrer (os refugiados) desse jeito”, acrescentou a artista.

Por um cinema que derrube muros e fronteiras

Radicado na Alemanha há quase dez anos, Aïnouz explica que o documentário nasceu de um incômodo com a forma como a imprensa cobria em 2015 a vinda de refugiados para o continente europeu. Naquele ano, cerca de 970 mil refugiados e migrantes chegaram à Europa pelo Mar Mediterrâneo e outros 34 mil por terra, segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Quando considerado o biênio 2015-2016, mais de 1 milhão de estrangeiros que buscavam proteção foram acolhidos pela Alemanha.

As imagens de indivíduos cruzando mares e fronteiras eram apresentadas como imagens de “um vírus atacando um corpo”, lembra Aïnouz. “Parecia que o continente estava sendo invadido por imigrantes. Eu queria muito entender quem eram aquelas pessoas que estavam naquelas multidões sendo filmadas.”

Morador das proximidades do Tempelhof, o diretor conta que fazer o filme foi “quase uma não escolha”. A decisão era motivada pela necessidade de registrar o fato histórico e de construir uma representação distinta das reportagens pouco pessoais da mídia hegemônica.

“Principalmente na Europa, a ascensão da extrema direita é absolutamente pautada pelo medo. Então, eu acho que essas imagens, de fato, alimentam o medo do outro. Elas acendem o fogo da xenofobia, do fascismo mesmo”, alerta o diretor.

“Não só como cineastas, mas como cidadãos mesmo, eu acho que a gente tem a obrigação de construir um contracampo disso. Você vê raramente imagens de barcos que naufragaram, por exemplo.”

O diretor brasileiro Karim Aïnouz defende um cinema que crie empatia pelo outro. Foto: Gabriel Rufatto

O diretor brasileiro Karim Aïnouz defende um cinema que crie empatia pelo outro. Foto: Gabriel Rufatto

A história do Tempelhof se confunde com a do século XX. Com a ascensão do nazismo na década de 1930, as instalações do aeroporto foram utilizadas pelo programa de rearmamento da Alemanha. Sob a autoridade de Adolf Hitler, o país perseguiria minorias como os judeus, ciganos e homossexuais — que viraram refugiados durante a Segunda Guerra Mundial. Ironicamente, os terminais do THF são atualmente residência para vítimas de conflitos armados e violações de direitos humanos.

No local, a primeira reação do cineasta foi subtrair a câmera. Aïnouz passou seis meses visitando o aeroporto para conhecer seus habitantes, antes de conseguir permissão para gravar, por volta de julho de 2016.

O cineasta lembra que “ninguém podia entrar naquele abrigo (o aeroporto THF) porque tinha uma questão de segurança, as pessoas tinham que passar por uma triagem, para a (própria) proteção de quem estava vivendo ali”.

“Eu acho que o cinema por exemplo, nesse caso específico, tinha a obrigação de derrubar aquele muro”, completa o cineasta.

“Como você de alguma maneira consegue abolir paredes, destruir fronteiras? Eu acho que o cinema tem essa força”, ressalta o diretor. “A expressão cultural tem uma potência muito grande porque ela não é um gesto de convencimento. Eu acho que ela é um gesto de criação de empatia pelo outro.”

Crise de refugiados ou de solidariedade?

O diretor afirma ainda que o desejo de filmar THF veio de sua história familiar. O pai de Aïnouz, argelino, deixou seu país de origem durante a década de 1970, devido à instabilidade política. Nos anos 1980, o realizador, então adolescente, foi morar na França, onde sofreu preconceito por ter um nome tipicamente árabe.

Suas origens acabaram facilitando o diálogo com os personagens do documentário. Ibrahim chegou a achar que o brasileiro falava árabe, mas fingia não conhecer o idioma para escutar as conversas sem os refugiados saberem.

“Eu acho que teve ali uma conexão muito grande pelo meu nome e muito também por eu não ser dali, da Alemanha. Eu acho que isso, de fato, criou uma relação de horizontalidade que foi muito importante para a confecção do documentário, mas também para a relação com os personagens.”

Sobre a chegada do filme a terras brasileiras, Aïnouz diz esperar que a obra seja recebida como “um discurso sobre a tolerância e sobre a solidariedade”.

“Eu detesto essa palavra ‘crise dos refugiados’. Existem guerras e, como consequência das guerras, você tem pessoas fugindo dos seus países. Eu acho que a gente não está vivendo isso exatamente no Brasil, mas a gente está vivendo uma crise da solidariedade. Na verdade, a crise é da solidariedade”, avalia o diretor.

O filme THF: Aeroporto Central será exibido no próximo domingo (11), às 21h10, no Cine Arte UFF (Rua Miguel de Frias, 9 – Icarai – Niterói), como parte da programação do Festival do Rio. O documetário deve ser lançado no circuito comercial do Brasil em março de 2019.


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