Cineastas são premiados em evento da ONU pelo Dia Internacional da Paz

Três vídeos foram premiados na noite de quinta-feira (21) durante evento organizado pelo Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, para a ocasião do Dia Internacional da Paz.

Os filmes “Afronte Negra!”, de Carina Aparecida dos Santos; “Tecendo a Liberdade”, de Luíza Matravolgyi Damião; e “Onde a Música Transforma”, de Pedro Ferrarini e Rodrigo Cabral; foram os vencedores do I Concurso de Vídeos da ONU Nelson Mandela, cujo tema foi “a luta contra a pobreza é uma questão de justiça, não é um gesto de caridade”.

Os filmes foram escolhidos por um júri composto pelo alto-funcionário da ONU aposentado Manuel de Almeida; pela professora de cinema da PUC-Rio, Patrícia Machado; pela assistente social e diretora do IBASE, Rita Brandão; pelo crítico de cinema e doutor em Meios e Processos Audiovisuais Sérgio Rizzo; e pelo ator e cineasta Werner Schünemann.

Os cineastas receberam a homenagem após exibição dos filmes na principal sala de cinema do CCBB, com a presença de representantes das Nações Unidas e de membros do júri.

O diretor do UNIC Rio, Maurizio Giuliano, lembrou na abertura da premiação que o Dia Internacional da Paz foi instituído pela Assembleia Geral da ONU em 1981 e, em 2001, a data também foi designada como o dia universal para a não violência e a trégua.

“Infelizmente, mais de 70 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo não está em paz. Neste momento, há várias guerras civis, sobretudo no Oriente Médio e em vários países da África. A situação da população rohingya em Mianmar é muito grave e, na Península Coreana, estamos vendo uma continuação do armamento nuclear e existe o risco de guerra”, declarou.

Os países latino-americanos também enfrentam o problema da violência que, mesmo fora de situações de conflito, mata inocentes todos os dias, disse Giuliano. “Todos juntos temos que trabalhar pela paz. É um trabalho complexo que requer soluções políticas”, completou.

O concurso de vídeos foi lançado em 18 de julho, Dia de Nelson Mandela, que teve como tema central a luta pela erradicação da pobreza. Segundo Giuliano, a justiça social também é elemento central para a conquista da paz e da própria Agenda 2030, conjunto de objetivos estabelecidos pela comunidade internacional para os próximos 15 anos.

O evento também teve a apresentação de vídeos produzidos pela equipe do UNIC Rio para a campanha “Juntos”, lançada pelo secretário-geral da ONU para promover respeito, segurança e dignidade, com foco especial para a situação de refugiados e migrantes no mundo todo.

Afronte Negra!

A mineira Carina Aparecida dos Santos dirigiu o vídeo “Afronte Negra!”, que a partir de uma linguagem poética faz reflexões sobre o histórico de injustiças e de resistência que marca as vidas das mulheres negras brasileiras. A obra foi produzida para o Sindicato dos Professores de Minas Gerais (SINPRO-MG).

“A ideia era produzir um vídeo com esse recorte de gênero, dentro da realidade da mulher negra. Retrata trabalhadoras do próprio sindicato, além da participação de uma atriz”, explicou Carina.

“O objetivo foi valorizar esses gestos, esses rostos que estão em cada face, cada semblante. É uma forma de conectá-las a elas mesmas. Foi um laboratório, uma brincadeira, mas que fala da importância do protagonismo e de as câmeras estarem apontadas para elas”, disse.

Segundo a diretora, a própria realização do filme fez com que as mulheres retratadas mudassem a forma como veem a si mesmas. “O audiovisual é uma chance de apostar no sensível, no simples, de olhar para o nosso lado e de tentar contar essas histórias. E tentar construir esse protagonismo”, declarou.

Tecendo a Liberdade

Longe das grandes metrópoles brasileiras, detentas no Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua (Pará) criaram a primeira cooperativa exclusivamente formada e administrada por presas, a COOSTAFE. A cooperativa gera renda para detentas, que de dentro do cárcere podem ajudar a sustentar suas famílias, e conseguir trabalho após a saída da prisão.

Das mais de 200 mulheres que passaram pelo projeto, nenhuma reincidiu no crime, número que impressionou a organização Humanitas 360, da qual a diretora do filme, a paulista Luíza Matravolgyi Damião, faz parte. Ela visitou a unidade prisional por cinco dias para colher imagens e depoimentos das detentas.

“O vídeo foi uma forma de inspirar as pessoas a repensar o sistema carcerário e, principalmente, olhar para quem está lá dentro das unidades prisionais. Ver quem são essas mulheres. Talvez isso possa tocar outras pessoas, como me tocou”, disse Luiza.

“Essas mulheres não estão em paz. Há a violência policial, do tráfico de drogas e de dentro da penitenciária. Se a gente não pensar essa política de drogas que leva essas mulheres ao cárcere e faz com que elas sofram ainda mais violência, não vamos atingir paz e justiça”, afirmou.

Para Luíza, o líder sul-africano Nelson Mandela é uma inspiração por ser figura importante dentro do movimento negro. “Grande parte da população carcerária é negra e está nessa situação por um racismo na hora da abordagem da polícia. Não podemos repensar o sistema carcerário sem também repensar as questões de raça e classe. Ele é inspirador nesse sentido”, afirmou.

Onde a Música Transforma

Utilizando a arte como ferramenta na construção de um mundo mais inclusivo e coletivo, o Instituto Baccarelli se tornou importante agente transformador que tem por missão oferecer formação musical e artística de excelência a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social na favela de Heliópolis, em São Paulo.

Existente há 20 anos, o instituto gerencia programas como “Coral da Gente”, de canto coral com técnicas de expressão cênica; “Orquestra do Amanhã”, de iniciação e aprimoramento em estudo de instrumentos; e “Sinfônica Heliópolis”, de prática orquestral.

Pedro Ferrarini e Rodrigo Cabral foram convidados pela organização a dirigir um vídeo sobre o instituto, fundado pelo maestro Silvio Baccarelli. “Quando aparece oportunidade de botar nossas lentes sobre algo grandioso como é a história do maestro Silvio Bacarreli, é um grande prazer”, disse Ferrarini, da produtora Vila Filmes. “É aí que nossa profissão ganha uma força muito maior”, completou.

Segundo Cabral, a ideia do vídeo é mostrar a música como propulsora de transformações sociais. “A música não faz distinção de classe social, ela nivela todo mundo pelo nível de talento, de paixão, de comprometimento. Ela é um caminho para a justiça social e a paz”, disse. “Celebramos aqui a paz, a justiça social, e a música como uma ferramenta para impulsionar esses dois valores”, concluiu.