Cicatrizes do terrorismo ‘são profundas’, diz chefe da ONU ao prestar homenagem às vítimas

As cicatrizes do terrorismo “são profundas” e, por mais que possam diminuir com o passar do tempo, “elas nunca desaparecem”, disse o chefe da ONU na última quarta-feira (21), em sua mensagem para marcar o segundo Dia Internacional de Lembrança e Tributo às Vítimas de Terrorismo.

Na estreia da exposição fotográfica para marcar a data, na sede da ONU em Nova Iorque, o secretário-geral disse que a ameaça terrorista e o extremismo violento estão “entre os nossos desafios mais complexos”.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, e outros membros da organização posam com as três vítimas de terrorismo que falaram em evento oficial do Dia Internacional. Foto: UN Photo | Eskinder Debebe.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, e outros membros da organização posam com as três vítimas de terrorismo que falaram em evento oficial do Dia Internacional. Foto: UN Photo | Eskinder Debebe.

As cicatrizes do terrorismo “são profundas” e, por mais que possam diminuir com o passar do tempo, “elas nunca desaparecem”, disse o chefe da ONU na última quarta-feira (21), em sua mensagem para marcar o segundo Dia Internacional de Lembrança e Tributo às Vítimas de Terrorismo.

“O terrorismo, em todas suas faces e manifestações, continua a ser um desafio global”, disse Guterres. “Ele causa danos duradouros a indivíduos, famílias e comunidades”, acrescentou.

A Assembleia Geral das Nações Unidas estabeleceu em 21 de agosto o Dia Internacional de Lembrança e Tributo às Vítimas de Terrorismo, um dia para honrar e apoiar as vítimas e os sobreviventes. O dia também serve para divulgar e proteger os direitos humanos, exigir o justo cumprimento das leis e para prevenir e combater o terrorismo.

Vítimas e sobreviventes em todo o mundo demonstram “grande resiliência, coragem e energia” ao estabelecer alianças globais, enfrentar e contrariar falsas narrativas disseminadas por terroristas, e ao falar abertamente “contra a ameaça terrorista e sobre a ausência de justiça”, disse Guterres.

Ele defendeu um “apoio a longo prazo e multifacetado para as vítimas e os sobreviventes do terrorismo”, através de parcerias entre governos e sociedade civil, “para que possam se recuperar, reconstruir suas vidas e ajudar outros”, apontou.

“Apoiar as vítimas do terrorismo é uma das maneiras com as quais nós nos responsabilizamos por defender seus direitos e a nossa humanidade compartilhada”, disse o chefe da ONU. “Ao ouvir o que eles têm a dizer, podemos aprender mais sobre como unir nossas comunidades contra o terrorismo”, apontou. Ele também pediu a todos para “refletirem sobre as vidas que foram modificadas para sempre por conta do terrorismo”.

“Vamos nos comprometer a mostrar às vítimas que elas não estão sozinhas e que a comunidade internacional se solidariza com elas, onde quer que estejam”, concluiu o secretário-geral. “Em seus clamores por recuperação e justiça, elas falam por todos nós”, concluiu.

Atrocidades cruéis

Na estreia da exposição fotográfica para marcar a data, na sede da ONU em Nova Iorque, o secretário-geral disse que a ameaça terrorista e o extremismo violento estão “entre os nossos desafios mais complexos”.

Ele citou os “ataques hediondos” em Cabul, Cairo, Nigéria, Burquina Faso, outros locais próximos à bacia do Chade, e ao redor do mundo. “Muitas vidas inocentes foram tragicamente perdidas” por essas “atrocidades cruéis”, lamentou.

No começo deste ano, Guterres se encontrou com sobreviventes de ataques terroristas cuja “coragem e resiliência” o comoveu. “A mensagem deles era clara e simples”, disse. “Vamos transformar essas experiências traumáticas em energia positiva para alcançar mudanças.”

Nenhum país segue ileso

Yury Fedotov, diretor executivo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), declarou que “muitas pessoas continuam a perder suas vidas para o terrorismo, e famílias e comunidades continuam a sofrer”.

“Os recentes ataques terroristas no mundo todo expuseram a terrível verdade de que nenhuma sociedade ou país permanece ileso ao terrorismo”, disse Fedotov.

O chefe do UNODC disse ainda que o escritório faz “tudo o que pode para impedir que tais tragédias aconteçam novamente”. “Os nossos primeiros e principais parceiros são as vítimas e sobreviventes do terrorismo, e o UNODC está empenhado em empoderar todos os que sofreram por este crime para que possam agir”, completou.

Ainda assim, vítimas e sobreviventes muitas vezes enfrentam desafios em sua busca por justiça, como dificuldades em acessar informação antes, durante e depois do processo penal; falta de mecanismos adequados baseados em gênero e idade; e também falta de apoio médico, financeiro ou legal a longo prazo.

“Os governos devem se esforçar para adequarem suas abordagens judiciais colocando o foco nas vítimas e nos seus direitos, como parte de suas ações antiterroristas e para que possam sanar todas as necessidades das vítimas ao mesmo tempo em que os criminosos são levados à Justiça”, disse o diretor do UNODC.

Apontando que as mulheres “são constantemente alvo dos terroristas”, ele citou o manual do UNODC sobre ‘Dimensões de Gênero nas Respostas da Justiça Criminal ao Terrorismo’, documento que assinala medidas adequadas em relação às questões de gênero para uso dos governos, e que também aborda desafios específicos, “como preconceito e discriminação”.

“Nós precisamos de lideranças e da participação ativa de mulheres, se quisermos intensificar a prevenção e melhorar nossas respostas ao terrorismo”, afirmou Fedotov. “As vozes de todas as vítimas e sobreviventes de terrorismo são essenciais no combate e na prevenção a ataques futuros”, concluiu.

Ataque à embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi

Sobreviventes de ataques terroristas participaram do evento em Nova Iorque em comemoração à data, se posicionando contra o ódio e compartilhando suas experiências.

Sarah Tikolo se tornou viúva aos 21 anos, com um filho de 4 meses, no dia 7 de agosto de 1998, quando seu marido Geoffrey foi morto no ataque à embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi.

“Vivi com essa dor por muitos anos e foi muito difícil”, revelou. Mas recentemente ela decidiu que para ajudar a si mesma e o seu filho, ela precisava perdoar, como “o único modo de seguir em frente”, acrescentou.

Sarah contou que viver com raiva e amargura estava lhe causando “ainda mais danos”, “tanto física quanto emocionalmente”.

Agora é ela quem trabalha na embaixada dos EUA e comentou ser grata por ter como apoiar o estudo universitário de seu filho. “Não poderia estar mais orgulhosa dele e do que ele conseguiu”, declarou ao público do evento na sede da ONU em Nova Iorque.

Sobreviventes do ataque terrorista em Londres

Thelma Stober, do Reino Unido, sofreu “ferimentos graves e permanentes”, como a perda de um membro e danos a órgãos internos, como resultado dos ataques terroristas em Londres, em 7 de julho de 2005, no qual 52 pessoas morreram em seus caminhos para o trabalho, e centenas foram feridas.

“Após ter a sorte de sobreviver a esta atrocidade, resiliência, para mim, tem sido a persistência inabalável, a coragem e a determinação que carrego para alcançar o meu ‘propósito’, que é poder usar minha experiência para fazer a diferença na vida de outras vítimas e sobreviventes de terrorismo e outros crimes”, contou.

Por fim, Stober comentou que muito já foi escrito sobre ajudar vítimas de terrorismo, mas indagou: “quem vigia para garantir uma implementação eficaz, justa, transparente e igualitária sobre o assunto? Quem garante que os Estados-membros serão cobrados pelos compromissos que acataram?”. Para ela “este é um papel que deve ser o da ONU”.

Viúva do 11 de setembro

Maureen Basnicki, aeromoça da companhia aérea Air Canada, estava fazendo escala na cidade alemã de Mainz quando seu “amado esposo Ken” foi assassinado nos ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque.

Basnicki disse que muitas coisas nos últimos 18 anos a ajudaram a lidar com a morte de Ken, entre elas “trabalhar incansavelmente para defender vítimas de crimes violentos e do terrorismo”, apontou.

Ela pediu à ONU “que cobre e recomende que as vítimas que cruzam fronteiras recebam o apoio pleno de seu país de origem”, e que garanta que esse apoio esteja “disponível não só em um primeiro momento mas também a longo prazo”.

“Leva apenas um segundo para acabar com a vida de alguém, mas todo o resto de uma para reconstruir outras”, disse. “Todas as vítimas no mundo de qualquer tipo de terrorismo precisam de apoio”, concluiu.