Chefe política da ONU lista temas que devem ser monitorados pela Organização em 2019

Conforme o mundo e as Nações Unidas continuam lidando com crises políticas, a subsecretária-geral para Assuntos Políticos da ONU, Rosemary DiCarlo, analisou o cenário para este ano.

Ela comentou os conflitos na Síria, no Iêmen, a situação dos refugiados rohingya de Mianmar e o processo de paz na Colômbia. Leia a entrevista completa.

Rosemary A. DiCarlo, sub-secretária da ONU para Assuntos Políticos. Foto: ONU/Paulo Filgueiras

Rosemary A. DiCarlo, sub-secretária da ONU para Assuntos Políticos. Foto: ONU/Paulo Filgueiras

Conforme o mundo e as Nações Unidas continuam lidando com crises políticas, a subsecretária-geral para Assuntos Políticos da ONU, Rosemary DiCarlo, analisou o cenário para este ano. Ela primeiramente explicou suas principais funções no organismo internacional.

“Meu cargo é duplo. Primeiro, (existe) para ajudar a resolver conflitos e ajudar a prevenir conflitos. Nosso papel no Departamento de Assuntos Políticos – que em breve será Assuntos Políticos e de Construção de Paz – também é muito focado em prevenir conflitos. E nós trabalhamos em uma série de questões, muitas que não vão ao Conselho de Segurança. Nosso objetivo é ajudar a resolvê-las antes mesmo de chegarem ao Conselho”.

“Eu cubro o mundo inteiro agora. Nunca, em minha carreira inteira, tive um trabalho em que tive que cobrir o mundo inteiro”, disse DiCarlo, em sua primeira entrevista ao UN News. “Como vice da Missão dos Estados Unidos para as Nações Unidas, trabalhei em muitas questões que foram apresentadas ao Conselho de Segurança”.

Seguem abaixo alguns dos principais temas na agenda política da ONU – em nenhuma ordem específica – para o próximo ano, de acordo com DiCarlo.

Iêmen

Imagens de crianças iemenitas desnutridas chocaram o mundo em 2018, conforme mais de 8 milhões de iemenitas agora estão à beira da fome, entre eles 1,8 milhão de crianças com menos de 5 anos.

A situação humanitária no Iêmen tem sido “horrível” dada a destruição, devastação e perda de vidas desde 2011, mas a ONU elogia o fato de os dois lados – o governo de Abdrabbuh Mansour Hadi e as forças houthi – terem se reunido na Suécia em dezembro para discutir um fim ao conflito.

Há atualmente monitores da ONU em solo (liderados pelo general holandês Patrick Cammaert) para ver se há violações do acordo de cessar-fogo na cidade portuária de Hodeida e para ajudar a abrir caminhos para que a assistência possa ser entregue no porto e distribuída para outras partes do país.

DiCarlo também disse ao UN News que o acordo sobre um cessar-fogo é só o começo: “há muito mais a ser feito para resolver o conflito no Iêmen, mas este é um começo muito bom”.

Ela deu crédito aos escritórios do enviado especial Martin Griffiths pelo progresso feito até o momento.

Síria

Após quase oito anos de guerra, mais de 13 milhões de pessoas precisam de ajuda – incluindo 6,1 milhões que foram deslocadas internamente e 5,5 milhões que vivem como refugiadas em Iraque, Jordânia, Líbano e Turquia.

Junto a estes números do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), considere este: 66% das crianças na Síria perderam um ente querido, tiveram suas moradias danificadas ou sofreram ferimentos relacionados a conflitos.

“A Síria está conosco há um longo período e nós não avançamos de verdade em direção a um processo político, mas nossa intenção é continuar apoiando estes esforços”, disse DiCarlo.

A partir de janeiro, esforços liderados pela ONU em negociações diplomáticas serão comandados por Geir Pedersen, que sucede Staffan de Mistura.

As discussões mais recentes têm sido sobre criar uma Constituição nova e mais inclusiva na Síria pós-guerra, que tem sido o foco de consultas intensas entre três partes envolvidas no futuro sírio – Irã, Rússia e Turquia.

Há ainda fatos novos, incluindo o anúncio mais recente de que os Estados Unidos estão retirando suas tropas da Síria, e o que isto significa para o conflito e para o destino das pessoas afetadas.

Crise de refugiados rohingya

“Nós não vimos progresso, não vimos condições que são apropriadas para refugiados retornarem, tanto em termos de plano físico quanto em termos de garantias políticas”, disse DiCarlo ao UN News sobre a situação de refugiados rohingyas que fugiram de Mianmar para Bangladesh.

Sob o acordo feito entre os dois países, milhares de refugiados que começaram a fugir em agosto de 2017 iriam voltar a Mianmar em novembro. Mas nenhum queria voltar por medo do Exército do país, acusado de cometer genocídio.

A ONU nomeou uma enviada especial para trabalhar com o governo de Mianmar, com objetivo de melhorar a cooperação na resposta ao conflito. Christine Schraner Burgener se encontrou com Aung San Suu Kyi e outras autoridades seniores. A função de Burgener é trabalhar com o governo para tentar resolver problemas e ajudar o governo a colocar em vigor um plano para retorno de refugiados, disse DiCarlo.

Colômbia

Em 2016, combatentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) entregaram suas armas após 50 anos de conflito sangrento que matou mais de 260 mil pessoas e deslocou cerca de 7 milhões.

DiCarlo visitou a Colômbia no começo de dezembro e se encontrou com alguns ex-combatentes que agora são parlamentares, costureiros, padeiros e professores.

“As Nações Unidas deram a estas comunidades ajuda para desenvolver meios de subsistência para que pudessem se afastar das atividades anteriores”, disse. “Vi uma série de (ex-combatentes das) FARC agora no legislativo e estou muito orgulhosa de um grupo que está tomando decisões sobre o futuro do país”.

A ONU diz que o processo de reintegração teve progressos, mas continua complexo. “É um trabalho constante e há um caminho a ser seguido, mas acho que as Nações Unidas podem ter orgulho do papel desempenhado na ajuda para criação de um acordo, mas também na verificação da implementação deste acordo”.

Como parte de um acordo de paz, uma câmara especial está analisando crimes que ocorreram durante o conflito e uma comissão da verdade criada em maio espera ajudar vítimas a superarem traumas.

A opinião sobre se estas medidas irão ajudar na justiça “é dividida”, disse DiCarlo.

“Há também um senso de gratidão extrema por parte de muitas pessoas, porque a violência que viam antes acabou. Embora haja violência de alguns grupos criminosos que entraram. Será um processo de longo prazo”, disse DiCarlo.


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