Chefe humanitário da ONU denuncia ‘carnificina’ no noroeste da Síria

Nos últimos 80 dias, conflitos armados no noroeste da Síria deixaram mais de 350 civis mortos e provocaram o deslocamento de 330 mil pessoas. Região é o último enclave dos rebeldes no território sírio.

Famílias se abrigam num acampamento improvisado, 50 km ao norte de Idlib, na Síria. Desde setembro de 2018, milhares de pessoas foram deslocadas, após uma escalada nos confrontos armados no noroeste do país. Foto: UNICEF/Aaref Watad

Famílias se abrigam num acampamento improvisado, 50 km ao norte de Idlib, na Síria. Desde setembro de 2018, milhares de pessoas foram deslocadas, após uma escalada nos confrontos armados no noroeste do país. Foto: UNICEF/Aaref Watad

Após 80 dias de escalada nos confrontos armados no noroeste da Síria, o coordenador humanitário das Nações Unidas, Mark Lowcock, afirmou na quinta-feira (18) que a “carnificina precisa acabar”. De acordo com a ONU, mais de 70 civis foram mortos apenas em julho na região, que é o último enclave tomado por rebeldes.

“Pessoas em todo o mundo têm assistido em choque conforme aviões de guerra e artilharia matam e ferem civis e destroem infraestruturas civis. Nos últimos 80 dias, tivemos mais de 350 civis mortos, muitos mais feridos e 330 mil pessoas deslocadas”, disse Lowcock, que é chefe do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

Em setembro, num esforço para evitar um desastre humanitário dentro e nos arredores da província de Idlib, a Turquia e a Rússia assinaram um acordo que previa o fim das hostilidades em zonas específicas. O entendimento também exigia que o governo da Síria permitisse acesso humanitário irrestrito a áreas tomadas por rebeldes.

Apesar do acordo, confrontos se intensificaram novamente, principalmente nos últimos três meses. Soma-se a essa conjuntura o fato de que o governo tem manifestado determinação em recapturar todos os territórios perdidos durante os mais de oito anos de conflito.

“Desde 1º de julho, ao menos seis instalações médicas, cinco escolas, três estações de tratamento de água, duas padarias e uma ambulância foram danificadas ou destruídas”, disse Lowcock em pronunciamento feito após um encontro a portas fechadas no Conselho de Segurança da ONU.

“Vilarejos inteiros foram destruídos ou esvaziados. Em 16 de julho, recebemos relatos de um ataque na principal rua comercial do vilarejo de Ma’ar Shureen, que deixou 12 pessoas mortas, incluindo uma criança, e mais de 20 feridos. A carnificina precisa acabar”, acrescentou o coordenador humanitário.

Lowcock destacou com preocupação um ataque em 10 de julho ao Hospital Nacional Ma’arat. A operação militar foi realizada mesmo com as partes do conflito tendo conhecimento da localização das instalações de saúde.

“Casos de toda a região são encaminhados para o hospital e ele lida com até 20 mil casos por mês. Havia, segundo relatos, 250 pessoas no hospital quando o ataque aconteceu, incluindo muitas que precisavam de assistência emergencial. O hospital agora retomou o funcionamento. Peço novamente que ele seja protegido”, afirmou Lowcock.

O coordenador também condenou a “brutalidade injustificada e indevida que civis são forçados a suportar em Idlib”. O dirigente explicou que o OCHA tem ampliado as suas operações humanitárias para atender às necessidades da população, especialmente as mais de 330 mil pessoas que fugiram para a parte norte da província.

Lowcock alertou ainda que a entrega de assistência humanitária em áreas onde há operações militares é difícil e, às vezes, impossível. O representante da ONU pediu que todas as partes da guerra síria assumam o compromisso de cessar os assassinatos de civis e a destruição de edificações de civis; respeitar o direito humanitário internacional e investigar violações; e garantir o acesso da assistência humanitária a áreas bloqueadas.