Chefe humanitário da ONU alerta para situação no Sudão, uma das maiores crises humanitárias do mundo

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

O chefe humanitário das Nações Unidas, Mark Lowcock, pediu à comunidade internacional em maio (14) para intensificar a ajuda humanitária vital para 7,1 milhões de sudaneses vulneráveis e investir mais no desenvolvimento socioeconômico do país.

Zona segura para refúgio em Um Baru, no norte de Darfur. Foto: UNAMID\Hamid Abdulsalam

Zona segura para refúgio em Um Baru, no norte de Darfur. Foto: UNAMID\Hamid Abdulsalam

O chefe do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Mark Lowcock, pediu à comunidade internacional neste mês de maio (14) para intensificar a ajuda humanitária vital para 7,1 milhões de sudaneses vulneráveis e investir mais no desenvolvimento socioeconômico do país.

“Milhões de pessoas enfrentam necessidades humanitárias sérias e crescentes”, disse Mark Lowcock, chefe humanitário da ONU, no final de uma visita de três dias ao Sudão, enfatizando a importância do acesso humanitário livre e contínuo.

“Muitos sofreram nos últimos 15 anos, mas não podemos deixá-los voltar para uma situação em que sejam completamente dependentes da assistência humanitária”, acrescentou o representante da ONU, ressaltando a necessidade de ampliar a ajuda ao desenvolvimento de longo prazo com o objetivo de ajudar o país a ser mais resiliente.

Durante sua missão, o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários reuniu-se com funcionários do governo, saudando seus esforços para melhorar o acesso humanitário a áreas remotas, incluindo aquelas controladas por grupos armados não estatais.

O chefe humanitário da ONU, Mark Lowcock, visita o Kordofan do Sul durante sua missão de três dias ao Sudão. Foto: ONU/OCHA

O chefe humanitário da ONU, Mark Lowcock, visita o Kordofan do Sul durante sua missão de três dias ao Sudão. Foto: ONU/OCHA

Lowcock também falou com parceiros humanitários e visitou assentamentos para os deslocados internos em Murta e Kulba, em Kordofan do Sul.

Embora os cessar-fogos unilaterais tenham melhorado a segurança em Darfur, Kordofan do Sul e Nilo Azul, os recentes confrontos entre grupos armados na região de Jebel Marra, em Darfur, provocaram uma onda de deslocamentos internos, disse o chefe do organismo internacional.

“É fundamental fortalecer os mecanismos de proteção social para os mais frágeis, incluindo retornados, deslocados internos e comunidades de acolhimento”, disse ele, destacando sua preocupação particular com a proteção de mulheres e crianças vulneráveis à violência sexual.

Lowcock elogiou o governo sudanês e as pessoas que abrigam cerca de 1,2 milhão de refugiados este ano, incluindo mais de 770 mil do Sudão do Sul, país devastado pela guerra. Os aumentos de preços significam que muitos não podem comprar alimentos, enquanto a recente escassez de combustível afetou a capacidade dos comboios de ajuda para alcançar muitos dos mais necessitados.

Ele pediu à comunidade internacional que forneça mais apoio ao Plano de Resposta Humanitária coordenado pela ONU em 2018, que está pedindo 1,4 bilhão de dólares. Até agora, neste ano, os doadores forneceram cerca de 229 milhões de dólares.

Após 15 anos de conflito, comunidade internacional parece ter esquecido uma das maiores crises humanitárias do mundo

O conflito armado no país tem provocado o deslocamento de milhões de pessoas desde 2003. Cinco milhões e meio de pessoas ainda precisam de ajuda humanitária, aos que agora se somam mais de 700 mil refugiados do Sudão do Sul.

Imerso numa profunda crise humanitária desde 2003, o Sudão conta com mais de 5 milhões de pessoas que precisam de ajuda humanitária, das quais 3,1 milhões vêm da província de Darfur, e milhões de deslocados por causa dos conflitos violentos.

No ano passado, apesar dos conflitos esporádicos, o país recebeu milhares de deslocados do vizinho Sudão do Sul e o número já alcançou os 770 mil refugiados.

Marta Ruedas, chefe humanitária da ONU no Sudão, em visita ao assentamento de Tawilla para deslocados internos. Foto: ONU/OCHA

Marta Ruedas, chefe humanitária da ONU no Sudão, em visita ao assentamento de Tawilla para deslocados internos. Foto: ONU/OCHA

“Caso fosse uma crise recente, suas dimensões, sua escala e suas necessidades a tornariam uma das maiores crises mundiais – mas, apesar disso, o Sudão está em risco de sair do radar dos doadores internacionais”, disse Marta Ruedas, chefe humanitária das Nações Unidas no Sudão.

“Apesar da gravidade, ninguém percebeu isso porque é um conflito que vem se arrastando há muito tempo. A necessidade ainda existe, mas a resposta não é mais a mesma e nós precisamos que as pessoas respondam como a necessidade exige”, continuou Ruedas.

Segundo o escritório da ONU no país, os recentes refugiados têm chegado em condições preocupantes e muitos morreram tentando chegar até a fronteira. Segundo Ruedas, o apoio recebido não tem sido suficiente.

A ONU e seus parceiros humanitários têm solicitado um apoio de 3 bilhões de dólares para fornecer assistência aos refugiados e deslocados do Sudão do Sul. Desse valor, 1,5 bilhão estaria destinado ao auxílio para as comunidades e agências locais que têm dado apoio aos refugiados sul-sudaneses nos países vizinhos, incluindo 327 milhões para o Sudão.

A prioridade atual é o auxílio para a compra de alimento e água, além de investimento nos serviços de saúde.

A grande maioria da população mais necessitada é de deslocados sudaneses que precisam de assistência para obter apoio alimentar e de subsistência, educação, água, saneamento e serviços de saúde.

O governo diz que aproximadamente 400 mil pessoas, incluindo deslocados internos e refugiados, têm retornado às suas casas, mas que a maioria continua relatando que as condições não são suficientes para um retorno seguro e com acesso a serviços básicos. Muitos deles preferem se integrar às comunidades onde moram atualmente.

“Muitos deles estão nos acampamentos há 10, 15 anos, e nós os chamamos de deslocados, mas na verdade são pessoas que moram há quase duas décadas no mesmo local”, disse Ruedas.

Segundo a coordenadora residente e humanitária da região, deveria ser possível integrá-los à comunidade onde eles moram atualmente – considerados, na prática, subúrbios das comunidades – ou, caso eles desejarem e puderem retornar aos seus locais de origem, “deveríamos ser capazes de permitir que assim o façam, que se estabeleçam lá e não façam mais parte do número de deslocados internos”.

O apelo para a ajuda humanitária para 2017 no país alcançou apenas 46% de financiamento e foi a primeira vez que, do total da ajuda solicitada, foi arrecadada menos da metade desde que começou a crise de Darfur, em 2003.

“O Sudão tem feito parte dos registros de doação humanitária durante tanto tempo que tem causado um esgotamento entre os doadores. Mas só porque o conflito permanece após tantos anos, não quer dizer que a necessidade seja menor”, concluiu Ruedas.


Comente

comentários