Chefe humanitária da ONU alerta para aumento de crises e pede resposta ‘mais intervencionista’

“Temos a responsabilidade de ser fortes defensores das pessoas sitiadas no meio de conflitos e muitos governos não gostam do que dizemos”, disse Valeria Amos. Em 2013, 155 trabalhadores humanitários morreram e 134 outros foram sequestrados em 251 ataques.

A chefe humanitária da ONU, Valeria Amos, em Mianmar. Foto: ONU

A chefe humanitária da ONU, Valeria Amos, em Mianmar. Foto: ONU

A chefe humanitária das Nações Unidas descreveu, durante palestra realizada esta semana, os ambientes “cada vez mais complexos” em que os trabalhadores humanitários atuam, enquanto lidam cada vez mais com as consequências de crises cujas raízes se encontram em governos ruins, paralisia política, subdesenvolvimento e aumento dos níveis de pobreza e desigualdade.

“Os desafios enfrentados pelas organizações que trabalham no campo humanitário refletem desafios mais amplos que enfrentam toda a ONU”, disse Valerie Amos, que dirige o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

“Como podemos viver de acordo com os valores da Carta das Nações Unidas? Como podemos salvaguardar os direitos humanos, proteger os civis e ajudar a proteger a um mundo mais justo e mais pacífico?”

Ela descreveu alguns dos conhecimentos detidos por aqueles que trabalham no campo humanitário, principalmente o fato de que quebrar ciclos de violência requer engajamento dos atores políticos com as comunidades locais, de modo a encontrar soluções sustentáveis para crises.

Para atender essa necessidade, Amo pediu uma arquitetura global mais forte e, possivelmente, “mais intervencionista” para lidar com as consequências humanitárias do conflito. Os Estados-membros também precisam respeitar sua responsabilidade de proteger os civis de danos, com as instituições multilaterais precisando ser capaz de intervir onde não conseguiram fazê-lo.

As ferramentas atualmente disponíveis para a comunidade internacional têm sido “extremamente limitadas”, apesar da complexidade dos desafios que enfrentam, disse Valerie Amos. O direito humanitário internacional, acrescenta, embora tenha proporcionado meios para enfrentar os desafios decorrentes de conflitos, não está sendo plenamente implementado, pedindo uma visão e um compromisso mais fortes por parte dos governos, instituições multilaterais e agências humanitárias.

O resultado não é apenas o perigo contínuo que enfrentam os trabalhadores humanitários que tentam prestar assistência por todo o mundo, disse, mas o “fracasso manifesto” de líderes políticos para proteger o seu povo, com as organizações humanitárias obrigadas a preencher as “lacunas gritantes” deixadas. Tais situações aumentaram as dificuldades em lugares como Síria, Iraque, Ucrânia e Gaza.

“Temos a responsabilidade de ser fortes defensores das pessoas sitiadas no meio de conflitos e muitos governos não gostam do que dizemos”, disse ela, observando que, em 2013, 155 trabalhadores humanitários morreram e 134 outros foram sequestrados em 251 ataques específicos contra a ajuda humanitária. “Estamos constantemente ‘debaixo de fogo’ – literal e figurativamente.”

Ela também apontou para as pressões financeiras sobre o trabalho humanitário, ao mesmo tempo em que as necessidades crescem em todo o mundo. Em 2015, 78 milhões de pessoas em 22 países necessitarão de assistência humanitária urgente, sob a forma de abrigo, cuidados de saúde, educação e alimentação, a um custo de 16,4 bilhões de dólares.

“[Esse dinheiro] vai ajudar as pessoas a sobreviver”, disse Amos. “Mas o que ele não vai fazer é ajudar as pessoas a reconstruir as suas vidas, porque sem resolução de conflitos, as pessoas vão continuar a fugir da brutalidade.”

Apesar dos perigos e pressões, ela observou que os grupos humanitários continuam prestando assistência por todo o mundo todos os dias. Amos declarou que continuaria a pressionar por melhor proteção de civis em conflitos, exortar os Estados a cumprir o seu dever de proteger seus cidadãos e lembrar aos governos sobre o impacto devastador que o uso de armas explosivas tem sobre as pessoas que vivem em áreas urbanas densamente povoadas.

Resolver os problemas enfrentados pelos trabalhadores humanitários e encontrar abordagens adequadas para resolvê-los é uma prioridade para as consultas que antecederam a Cúpula Mundial Humanitária de 2016, um encontro global inédito sobre o tema.

“Nesta Cúpula, teremos uma oportunidade única para reformular a nossa estratégia de ajuda humanitária e a forma como fazemos ações humanitárias”, disse ela.