Chefe da Organização Mundial da Saúde se despede após dez anos no cargo

“Lembrem-se das pessoas”, disse a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, em seu discurso de despedida na 70ª Assembleia Mundial da Saúde em Genebra. Ela ressaltou a importância de ouvir a sociedade civil para que se possa “dar um rosto e uma voz a quem sofre”.

Margaret Chan discursa pela última vez como diretora-geral da OMS, durante a 70ª Assembleia Mundial da Saúde. Foto: OMS

Margaret Chan discursa pela última vez como diretora-geral da OMS, durante a 70ª Assembleia Mundial da Saúde. Foto: OMS

“Lembrem-se das pessoas”, disse a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, em seu discurso de despedida na 70ª Assembleia Mundial da Saúde em Genebra. Ela ressaltou a importância de ouvir a sociedade civil para que se possa “dar um rosto e uma voz a quem sofre”.

“Por trás de cada número há uma pessoa que define nossa humanidade comum e merece nossa compaixão, especialmente quando o sofrimento ou a morte prematura podem ser evitados”, afirma a médica chinesa, há dez anos ocupando o cargo máximo da OMS.

Ela ressaltou o enorme potencial das vacinas, afirmando que o surto de sarampo na Europa e na América do Norte nunca teriam ocorrido caso a imunização estivesse no patamar dos 95% necessários.

Refutando o “frequente criticismo” de que a OMS perdeu sua relevância, Chan citou um relatório recente que mostra a melhora na saúde pública durante o tempo que esteve à frente da organização. Como exemplo, observou que, embora tenha levado quase uma década para baixar os preços dos tratamentos antirretrovirais para o HIV, graças ao trabalho em equipe e colaboração, os preços dos novos medicamentos para curar a hepatite C caíram dentro de dois anos.

“O fato de que, em 2015, cerca de 1 bilhão de pessoas receberam tratamentos gratuitos para cegueira, mutilações, deformações e outras debilidades tem impacto na situação geopolítica do mundo. As pessoas protegidas estão na mais grave situação de pobreza.”

‘Falhamos algumas vezes, mas nunca desistimos’

“Esta é a cultura da aprendizagem baseada na eficiência, dando aos esforços na saúde resistência notável, deixando-nos incrivelmente otimistas”, afirma a médica. “Falhamos algumas vezes, mas nunca desistimos.”

Chan admitiu a falha da OMS na resposta ao surto de ebola, em 2014, na África Ocidental. Novos casos do vírus foram reportados recentemente próximos à fronteira da República Democrática do Congo e da República Centro-Africana.

Para ela, a organização demorou a reconhecer que o vírus, durante as primeiras aparições na parte ocidental do continente, se comportaria de forma muito diferente em relação aos focos anteriores na África Central, onde era raro, porém familiar, e as medidas de contenção foram bem ensaiadas.

Embora a organização tenha feito “correções de rápido curso” para conter três surtos e ajudado a criar a primeira vacina contra o ebola, a epidemia aconteceu sob a direção de Chan. “Eu sou pessoalmente responsável”, reconhece.

Desafios atuais

Neste ano, a Assembleia Mundial da Saúde, que inclui 194 países, discutirá o que se aprendeu sobre as epidemias, bem como o tratamento da OMS em relação à zika e outras doenças.

Especialistas explicarão ainda como Angola respondeu o surto de febre amarela em 2016, que esgotou a reserva global de vacinas diversas vezes.

A agenda prevê ainda a atual epidemia de cólera em um Iêmen devastado pela guerra, descrita pela OMS como “sem precedentes”. A pólio ainda é uma das causas de miséria e paralisia em três países onde é endêmico: Afeganistão, Paquistão e Nigéria. Por isso, as delegações continuarão a trabalhar pela completa erradicação do poliovírus selvagem, para o qual não há cura, apenas prevenção.

Países elegem 1º africano para chefiar Organização Mundial da Saúde

Durante a 70ª Assembleia, os Estados-membros da OMS elegeram na terça-feira (23) o etíope para o cargo de diretor-geral do organismo internacional. Ghebreyesus será o primeiro africano a liderar a agência de saúde da ONU. Seu mandato terá início em 1º de julho de 2017.

Ao centro, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o novo diretor-geral da OMS. À direita, Margaret Chan, ex-chefe da Organização. Foto: OMS/ L. Cipriano

Ao centro, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o novo diretor-geral da OMS. À direita, Margaret Chan, ex-chefe da Organização. Foto: OMS/ L. Cipriano

Na Etiópia, Ghebreyesus foi ministro das Relações Exteriores, de 2012 a 2016, e ministro da Saúde, de 2005 a 2012. Também trabalhou como diretor do Conselho do Fundo Global contra AIDS, Tuberculose e Malária, codiretor do Conselho da Parceria para a Saúde Materna, Neonatal e Infantil e diretor do Conselho da Parceria Roll Back Malaria (RBM).

Na chefia do Ministério da Saúde de seu país de origem, o dirigente liderou uma reforma abrangente no sistema de atendimento e ampliou a infraestrutura nacional, criando 3,5 mil centros de saúde e 16 mil postos de saúde.

Ghebreyesus aumentou em 38 mil o número de profissionais de saúde, além de implementar mecanismos de financiamento para expandir a cobertura de seguros de saúde. Como chanceler, Ghebreyesus liderou esforços de negociação pela aprovação da Agenda de Ação de Adis Abeba.