Chefe da ONU pede maior proteção para crianças atingidas pela crise da COVID-19

Enfermeira mede a temperature de menina num Centro de Atenção à Saúde Primária em Beirute, no Líbano, durante a crise da COVID-19. Foto: Fouad Choufany/UNICEF

A iminente recessão global resultante da pandemia da COVID-19 poderia causar mais centenas de milhares de mortes de crianças neste ano, efetivamente revertendo ganhos recentes de diminuição da mortalidade infantil. A conclusão está num novo relatório da ONU divulgado nesta quinta-feira (16).

Em um comunicado com os principais resultados do documento, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu ação urgente para apoiar as crianças de todo o mundo no meio desta crise universal.

“Felizmente, as crianças têm sido amplamente poupadas até aqui dos sintomas mais severos da doença. Mas suas vidas estão sendo totalmente viradas de cabeça para baixo”, afirmou.

“Apelo às famílias, em todos os lugares, e aos líderes, de todos os níveis: protejam nossas crianças.”

O relatório aponta que o impacto econômico-social da pandemia, aliado às medidas para mitigar o avanço do novo coronavírus, poderia ser potencialmente catastrófico para milhões de crianças em todo o mundo.

O documento detalha como a crise está colocando jovens vidas em risco em áreas fundamentais que incluem educação, alimentação, proteção e saúde. Acesse aqui o documento.

Educação no confinamento – Praticamente todos os estudantes ao redor do mundo estão fora da escola agora por conta da pandemia. Cerca de 190 países impuseram o fechamento das escolas, afetando um bilhão e meio de crianças e jovens. O relatório afirma que as perdas de aprendizado hoje e no desenvolvimento futuro são difíceis de compreender.

“Algumas escolas estão oferecendo ensino a distância, mas isto não está disponível para todos”, afirmou o secretário-geral, acrescentando que crianças em países com serviços de internet caros ou lentos são gravemente prejudicadas.

Milhões perdendo merenda escolar – Nutrição infantil é outra preocupação vital, de acordo com o relatório. O chefe da ONU lembrou que antes mesmo da pandemia, a desnutrição infantil e o atraso no crescimento estavam em níveis inaceitáveis.

Com as salas de aula fechadas, aproximadamente 310 milhões de crianças em todo o mundo que dependem da merenda escolar estão perdendo esta dose diária de nutrição. Enquanto isso, medidas de confinamento implementadas precipitadamente arriscam descontinuar as cadeias de abastecimento alimentar e os mercados locais, tornando-se grave ameaça em potencial no acesso à comida.

Parquinho em Ridgefield (Connecticut, EUA) permanece vazio em função do fechamento temporário das escolas por conta da COVID-19. Foto: JC McIlwaine/UNICEF

Segurança em casa e online – Sessenta por cento de todas as crianças em todo o mundo estão vivendo em países que implementaram confinamento parcial ou total, aponta o relatório.
Na medida em que a crise se aprofunda, os níveis de stress familiar também estão aumentando e as crianças confinadas em casa são ao mesmo tempo vítimas e testemunhas de abuso e violência doméstica.

O fechamento das escolas também implica na perda do que o chefe da ONU chamou de “um importante mecanismo de alerta precoce” para incidentes.

“Há ainda o perigo das meninas abandonarem a escola, levando a um aumento de casos de gravidez na adolescência”, ele afirmou.

No início desta semana, o Fundo da ONU para a Infância (UNICEF) e parceiros informaram que com mais crianças utilizando a tecnologia para aprendizado e socialização, está aumentando o risco de abuso e exploração online. O secretário-geral destacou, em especial, a responsabilidade  das empresas de mídias sociais em garantir a proteção online para crianças.

Saúde infantil em baixa – Apesar das taxas de infecção por coronavírus até aqui estarem brandas entre crianças, o relatório apontou que os efeitos mais amplos da crise na saúde das crianças são significativos.

Hospitais e centros de saúde sobrecarregados com pacientes da COVID-19 estão tornando mais difícil o acesso a cuidados básicos da saúde das crianças.

Famílias sem trabalho ou passando por redução de renda são forçadas a cortar gastos em alimentação e saúde essencial, o que afeta particularmente as crianças, mulheres e nutrizes.

As campanhas de vacinação contra a poliomielite pararam, retardando o progresso da erradicação da doença em pelo menos dois redutos: Afeganistão e Paquistão. Adicionalmente, 23 países suspenderam as campanhas de imunização do sarampo destinadas a aproximadamente 80 milhões de crianças.

“Com o avanço da recessão global, poderemos ter mais centenas de milhares de mortes de crianças em 2020”, alertou o secretário-geral. Este cenário efetivamente reverteria o progresso feito na redução da mortalidade infantil nos últimos dois ou três anos.

“Estes números alarmantes não levam sequer em consideração a interrupção de serviços em função da crise – apenas refletem a atual relação entre economia e mortalidade, então é provável um impacto subestimado”, aponta o relatório.

Ação para crianças – Embora a crise da COVID-19 seja sem precedentes, é também uma oportunidade para “solidariedade internacional sem precedentes” para crianças e a humanidade.

Governos são instados a adotar medidas para conter os efeitos indesejados nas crianças ao estender ou expandir assistência social para famílias, assegurar cadeias de suprimento alimentar e mercados de alimentação locais, e priorizando a continuidade de serviços como educação, programas de nutrição e atendimento maternal e para recém-nascidos.

O relatório recomenda ainda proteções específicas para crianças mais vulneráveis, como migrantes, refugiadas, minorias, crianças com deficiência e aquelas vivendo em favelas.

Estratégias padrão para distanciamento físico e confinamento deveriam ser adaptadas em locais de baixa renda em áreas urbanas, campos de refugiados e zonas de conflito.

O relatório ressaltou que as Nações Unidas estão trabalhando em todos os lugares e permanecem prontas para apoiar os países que estiverem empenhados em investir na geração mais jovem do mundo.

“Com a pandemia colocando em risco tantas crianças do mundo, reitero meu apelo urgente: vamos proteger nossas crianças e preservar seu bem-estar”, declarou o secretário-geral.