Chefe da ONU pede fim do racismo e enfrentamento de ‘velhas e novas formas de escravidão’

Aumentar a consciência sobre os perigos do racismo e “enfrentar velhas e novas formas de escravidão” foi a mensagem do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, nesta segunda-feira (25), durante um evento especial marcando o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos.

“A escravidão e o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas estão entre as manifestações mais chocantes da história da brutalidade humana”, disse Guterres aos delegados de todo o mundo reunidos no Salão da Assembleia Geral, fazendo um apelo por “justiça e igualdade de oportunidades para todos os afrodescendentes”.

“Precisamos engajar a todos no desmantelamento da nociva e ilusória noção de superioridade racial”, afirmou, enfatizando que a recente onda de pensamento neonazista e a ideologia da supremacia branca deve ser enterrada “de uma vez por todas”.

Mostra de fotografias para o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos na sede da ONU em Nova Iorque. Foto: ONU/Loey Felipe

Mostra de fotografias para o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos na sede da ONU em Nova Iorque. Foto: ONU/Loey Felipe

Aumentar a consciência sobre os perigos do racismo e “enfrentar velhas e novas formas de escravidão” foi a mensagem do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, nesta segunda-feira (25), durante um evento especial marcando o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos.

“A escravidão e o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas estão entre as manifestações mais chocantes da história da brutalidade humana”, disse Guterres aos delegados de todo o mundo reunidos no Salão da Assembleia Geral, fazendo um apelo por “justiça e igualdade de oportunidades para todos os afrodescendentes”.

Em 2007, a ONU designou 25 de março como um dia para homenagear e lembrar aqueles que sofreram durante o tráfico transatlântico de escravizados. “Prestamos homenagem aos milhões de homens, mulheres e crianças africanos que tiveram sua humanidade negada e foram forçados a suportar uma crueldade abominável durante séculos”, disse Guterres.

Ao longo de 400 anos, mais de 15 milhões de pessoas foram mortas e irrevogavelmente prejudicadas “por uma instituição que nunca deveria ter existido”, lamentou o chefe da ONU. Ele sinalizou, no entanto, que essas pessoas eram mais do que apenas vítimas, e muitas vezes “sacrificaram suas vidas pela causa da liberdade e da dignidade”.

O secretário-geral da ONU pediu a todos que lembrem não apenas a brutalidade contra eles, mas também sua “notável resistência, resiliência e inúmeras contribuições” para a humanidade.

Ele lembrou alguns dos muitos que “se levantaram contra seus opressores”, citando Zumbi dos Palmares no Brasil, a Rainha Nanny dos Maroons (quilombolas) na Jamaica, o Reino de Matamba, que resistiu à colonização portuguesa, e a norte-americana abolicionista Harriet Tubman.

O tema deste ano, “Lembre-se da escravidão: o poder das artes para a justiça”, reconhece a contribuição da arte como um instrumento para “confrontar a escravidão, capacitar as comunidades escravizadas e honrar aqueles que tornaram a liberdade possível”.

Literatura, música e poesia estão entre as formas de arte que lembram as lutas do passado, destacam as injustiças em curso e celebram as conquistas dos afrodescendentes, salientou.

“Hoje, os artistas, escritores e poetas comprometidos com a luta pela igualdade e empoderamento racial devem saber que estamos com eles”, declarou Guterres, dizendo “vamos de forma resoluta levar suas mensagens para longe” com o objetivo de combater o racismo, a xenofobia, a discriminação, acabar com a marginalização social e política e “defender a dignidade humana para todos”.

Discurso de ódio está se espalhando como incêndio na floresta, diz Guterres

Mais cedo, Guterres observou que o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial tinha como objetivo “renovar nossa promessa de acabar com o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância correlata, incluindo discriminação social e étnica, ódio anti-muçulmano e anti-semitismo”.

Em um evento na Assembleia Geral, ele relembrou o massacre em mesquitas na Nova Zelândia em que 50 foram mortas por um atirador supremacista branco, como “a mais recente tragédia enraizada em tal veneno”. O secretário-geral visitou na sexta-feira (22) um centro islâmico em Nova Iorque para mostrar solidariedade e expressar sua indignação.

“Hoje e todos os dias, devemos nos unir contra o ódio racial e religioso e o terrorismo dos fanáticos”, disse o chefe da ONU.

Alarmado com o atual aumento da xenofobia, do racismo e da intolerância alimentados por ideologias nacionalistas e populistas, ele afirmou que “nenhum país ou comunidade está imune”.

“O discurso de ódio está entrando no mainstream, espalhando-se como fogo pelas mídias sociais e pelo rádio nas democracias liberais e nos Estados autoritários”, ressaltou.

O chefe da ONU argumentou que “essas forças obscuras” ameaçam os valores democráticos, a estabilidade social e a paz e estigmatizam mulheres, minorias, migrantes e refugiados – prejudicando a sociedade.

Para combater o discurso de ódio e “defender os princípios da igualdade e da dignidade humana”, Guterres pediu a Adama Dieng, seu assessor especial para a prevenção do genocídio, que coordene uma estratégia e um plano de ação para o Sistema das Nações Unidas.

“Precisamos engajar a todos no desmantelamento da nociva e ilusória noção de superioridade racial”, afirmou, enfatizando que a recente onda de pensamento neonazista e a ideologia da supremacia branca deve ser enterrada “de uma vez por todas”.

Isso pode ser apoiado por uma legislação nacional que promova a não discriminação, e por políticos e líderes religiosos que falem contra a intolerância e o discurso de ódio, disse Guterres.

Ele contou como um inglês branco se solidarizou com a comunidade muçulmana da Nova Zelândia após os assassinatos, segurando um cartaz em uma mesquita no Reino Unido dizendo: “vocês são meus amigos, vou vigiar enquanto vocês oram”.

“Estamos todos conectados pela nossa humanidade. Somos todos iguais. Todos devemos estar atentos ao bem-estar do outro”, concluiu o secretário-geral da ONU.

Cooperação global é mais necessária do que nunca

Por sua vez, a presidente da Assembleia Geral, Maria Fernanda Espinosa, citou uma observação do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), segundo a qual os populistas demonizam o “outro”, “explorando as queixas legítimas daqueles que se sentem deixados para trás”.

“Discurso de ódio não é liberdade de expressão. É racismo”, declarou, acrescentando que culpar os migrantes pelos problemas deve ser combatido e que o nacionalismo míope não deve atrapalhar a busca de soluções globais.

“Os desafios que enfrentamos exigem cooperação global como nunca antes”, disse Espinosa. “O multilateralismo nos torna mais fortes, não mais fracos. A Agenda 2030 é uma estrutura que todos os governos podem usar para responder às necessidades e aspirações dos seus cidadãos”.