Chefe da ONU alerta para recentes eventos climáticos: ‘cientistas previram’

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

António Guterres anunciou que visitará a região e lembrou que não se deve vincular “qualquer evento climático com as mudanças climáticas”, acrescentando: “Mas os cientistas sabem que esse clima extremo é precisamente o que seus modelos preveem, e eles preveem que será o novo normal de um mundo que está se aquecendo”.

O secretário-geral agradeceu o apoio humanitário aos países do Caribe, mas classificou a resposta da comunidade internacional como “fraca”.

A ONU forneceu 18 toneladas de alimentos; 3 milhões de comprimidos de purificação de água; 3 mil tanques de água; 2,5 mil tendas; 2 mil mosquiteiros e kits escolares; 500 cartões de débito para assistência em dinheiro. As Nações Unidas dependem, no entanto, da ampliação do financiamento para manter ajuda.

Destruição causada pelo furacão Maria em Dominica. Foto: IRIN/Ben Parker

Destruição causada pelo furacão Maria em Dominica. Foto: IRIN/Ben Parker

Logo após o fim dos debates gerais na Assembleia Geral das Nações Unidas – maior evento global envolvendo líderes de todos os países –, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou para a força das mudanças climáticas e detalhou como a organização está apoiando na resposta aos desastres naturais ocorridos em diversos países do Caribe, México e EUA.

“Alguns dos discursos mais importantes [na Assembleia] durante esse período vieram dos líderes das nações caribenhas que se recuperam de consecutivos furacões”, disse Guterres durante uma coletiva de imprensa na sede da ONU em Nova Iorque nesta quarta-feira (4).

O primeiro-ministro de Antígua e Barbuda informou que toda a população ficou sem teto. O primeiro-ministro de Dominica declarou ter ido à sede das Nações Unidas “diretamente da linha de frente da guerra contra as mudanças climáticas”.

Guterres anunciou uma viagem no próximo sábado (7) para Antígua e Barbuda e Dominica para examinar os danos e avaliar “o que mais as Nações Unidas podem fazer para ajudar as pessoas a se recuperar”, visitando também as operações que estão em andamento.

Quando o conheci no mês passado, fiquei impressionado principalmente com uma mensagem predominante de todos os líderes caribenhos – inclusive dos países mais atingidos.

No debate geral, líderes do Caribe afirmaram que precisam “urgentemente” de apoio. “Mas, mesmo com a devastação total, eles pediram ao mundo que agisse de olho o futuro”, destacou o secretário-geral.

Guterres lembrou que não se deve vincular “qualquer evento climático com as mudanças climáticas”, acrescentando: “Mas os cientistas sabem que esse clima extremo é precisamente o que seus modelos preveem, e eles preveem que será o novo normal de um mundo que está se aquecendo”.

O secretário-geral das Nações Unidas lembrou os dados relativos aos recentes eventos climáticos.

O furacão Irma, que devastou Barbuda, foi um furacão de categoria 5 por três dias consecutivos – o maior registro já feito pelos satélites. Os ventos de Irma atingiram 300 quilômetros por hora durante 37 horas – o mais longo registrado naquela intensidade.

Os furacões Harvey e Irma marcaram a primeira vez que duas tempestades da categoria 4 atingiram a terra nos Estados Unidos no mesmo ano. E foram seguidos pelo furacão Maria, que dizimou a Dominica e teve graves impactos em Porto Rico.

“É raro ver tantas tempestades de tal força tão cedo na temporada”, lembrou Guterres.

Ele destacou ainda que os níveis do mar subiram mais de 10 centímetros desde 1870. Ao longo dos últimos 30 anos, o número de desastres anuais relacionados ao clima quase triplicou, e as perdas econômicas quintuplicaram.

“Os cientistas estão aprendendo cada vez mais sobre os vínculos entre mudanças climáticas e o clima extremo”, afirmou.

As mudanças climáticas estão aquecendo os mares. Isso, por sua vez, significa mais vapor de água na atmosfera. Quando as tempestades chegam, eles trazem mais chuva. Um clima mais quente mexe com a intensidade dos furacões. Em vez de se dissipar, eles pegam combustível à medida que se movem pelo oceano.

O derretimento das geleiras – e a expansão térmica dos mares – significa grandes ondas de tempestade. Com mais e mais pessoas vivendo em litorais, o dano é e será muito maior.

“Os modelos científicos previram há muito um aumento no número de furacões das categorias 4 e 5. Isso é exatamente o que está acontecendo – e até mais cedo do que o esperado”, alertou Guterres.

Apoio humanitário da ONU

Até o momento, as Nações Unidas e seus parceiros prestaram uma variedade de assistência humanitária à região do Caribe por via aérea e marítima, anunciou Guterres. Foram 18 toneladas de alimentos; 3 milhões de comprimidos de purificação de água; 3 mil tanques de água; 2,5 mil tendas; 2 mil mosquiteiros e kits escolares; 500 cartões de débito para assistência em dinheiro; entre outros.

A ONU lançou ainda um apelo humanitário de 113,9 milhões de dólares para cobrir as necessidades no próximo período imediato.

“Congratulo os países que se mostram solidários com os países do Caribe neste momento de extrema necessidade, incluindo aqueles que o fazem através da cooperação Sul-Sul”, afirmou ele, acrescentando: “Mas, no geral, lamento informar, a resposta foi fraca. Exorto os doadores a responder de forma mais generosa nas próximas semanas.”

As Nações Unidas continuarão a ajudar os países do Caribe a fortalecer a preparação para desastres, trabalhando em estreita colaboração com a Agência de Gerenciamento de Emergência de Desastre no Caribe, destacou Guterres.

Menino de sete anos observa destruição promovida pelo furacão Irma na República Dominicana. Foto: UNICEF

Menino de sete anos observa destruição promovida pelo furacão Irma na República Dominicana. Foto: UNICEF

“Estamos firmemente empenhados em ajudar os pequenos Estados insulares e, de fato, todos os países a se adaptar aos inevitáveis impactos climáticos, aumentar o ritmo de recuperação e fortalecer a resiliência em geral”, disse.

Mecanismos inovadores de financiamento serão cruciais para permitir que países como os caribenhos possam lidar com choques externos de magnitude tão significativa, disse ele.

“Sabemos que o mundo tem as ferramentas, as tecnologias e a riqueza para enfrentar as mudanças climáticas, mas devemos mostrar mais determinação em avançar para um futuro de energia verde, limpa e sustentável. Mais uma vez, exorto os países a implementar o Acordo de Paris e com maior ambição.”

Ele lembrou que em 2019 está prevista uma Cúpula do Clima. “Mas hoje, e todos os dias, estou decidido a assegurar que as Nações Unidas trabalhem para proteger o nosso futuro comum e aproveitar as oportunidades da ação climática.”


Comente

comentários