Chef de Paraty mobiliza escolas para tornar merenda mais nutritiva

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Em 2014, a chef de cozinha Ana Bueno, de 27 anos, fundou o projeto Escola de Comer, em Paraty (RJ). A iniciativa tinha por objetivo melhorar a merenda da rede de ensino local, tornando-a mais nutritiva. Atualmente, o programa mobiliza voluntários, professores, merendeiras, nutricionistas e agricultores familiares da cidade histórica.

Ana Bueno decidiu mobilizar merendeiras de Paraty para melhorar a dieta dos alunos que se alimentam nas escolas. Imagem: FAOAna Bueno decidiu mobilizar merendeiras de Paraty para melhorar a dieta dos alunos que se alimentam nas escolas. Imagem: FAO

Ana Bueno decidiu mobilizar merendeiras de Paraty para melhorar a dieta dos alunos que se alimentam nas escolas. Imagem: FAO

Em 2014, a chef de cozinha Ana Bueno, de 27 anos, fundou o projeto Escola de Comer, em Paraty (RJ). A iniciativa tinha por objetivo melhorar a merenda da rede de ensino local, tornando-a mais nutritiva. A estratégia da mestre-cuca era engajar seus colegas de profissão e membros da comunidade escolar para capacitar as merendeiras. Atualmente, o programa mobiliza voluntários, professores, merendeiras, nutricionistas e agricultores familiares da cidade histórica.

Ana virou cozinheira por necessidade, tornou-se chef por amor à culinária. Paratiense de coração e afinada com as tradições locais, descobriu seu potencial aos 17 anos, quando saiu da terra natal, São José dos Campos (SP), para morar na praia do Cachadaço, Vila de Trindade, localizada em Paraty. Na bagagem, trazia memórias da comida caipira do interior.

Cozinhar era o que ela sabia fazer. Passou a vender na praia tortas, sanduíches e bolos batidos à mão. Tudo era na base do improviso, com tabuleiros e soprando a brasa do seu fogão sem forno, para não queimar as massas. Ana chegou a cultivar uma pequena horta para garantir parte da sua própria alimentação. Ela trocava verduras por peixes e outros frutos do mar com os pescadores locais.

A atividade que garantia o seu sustento foi se aprimorando e levou a cozinheira para os restaurantes. Hoje, Ana é dona do Banana da Terra. Com foco na gastronomia criativa e contemporânea, mas sempre ancorada nas raízes da culinária caiçara, a chef decidiu em 2014 ampliar as fronteiras do seu trabalho.

A mestra-cuca visitou escolas municipais para convidar merendeiras e alunos a participar da Folia Gastronômica. Durante as idas aos centros de ensino, ficou claro que a alimentação escolar era de baixa qualidade. As instalações físicas dos colégios para o preparo das refeições também eram precárias.

Para solucionar o problema, foi proposta à Secretaria de Educação da Prefeitura de Paraty a realização do projeto de requalificação da merenda escolar. O programa também previa a compra de alimentos dos agricultores familiares da região, para abastecer os centros de ensino. No segundo semestre de 2015, a iniciativa Escola de Comer já servia os novos cardápios dos estudantes.

Anda conta que teve a ideia de criar o programa quando estava escrevendo cadernos de receitas para seus filhos.

“Tive a ideia de reproduzir esses cadernos nas escolas municipais. E assim foi feito em oito escolas. Depois dessa visita inicial, resolvi visitar todas as outras 24 escolas. Hoje um programa que requalificou a merenda escolar, desenvolveu a agricultura local e ainda garante a parceria com a sociedade em forma de apadrinhamento das escolas, com apoio direto às merendeiras e professores, com canal direto de comunicação com os pais”, explica.

No começo, a iniciativa mobilizava apenas oito fornecedores locais. Hoje, são mais de cem — entre eles, pessoas que voltaram a produzir e tem na merenda escolar uma fonte de renda garantida. Mas os desafios são constantes, pois é necessário manter os voluntários no projeto, envolver os gestores e assegurar que a Escola de Comer siga adiante.

“Considero comida saudável o alimento fresco, plantado e colhido pelos produtores da minha região e é nisso que meu trabalho é baseado. Foi assim desde o começo porque eu não tinha outro caminho. Era isso que eu sabia fazer, que eu conhecia e fazia parte da minha cultura”, afirma a chef.

Durante as visitas às escolas, Ana conheceu as profissionais da cozinha responsáveis pela alimentação das crianças, um cargo ocupado 99% das vezes por mulheres, as merendeiras.

“Escutei cada uma delas e, como um dos objetivos do Escola de Comer, decidi empoderá-las, valorizando e desenvolvendo suas habilidades para estarem aptas a exercer suas funções e sabendo de todos seus direitos como cidadãs”, lembra Ana.

Além da cozinha do Banana da Terra, Ana também comanda um bufê e coordena o festival Folia Gastronômica, criado em 2003 e relançado em novo formato em 2014, quando passou a oferecer aulas gratuitas de culinária, programação cultural, atividades infanto-juvenis, iniciativas de valorização da cozinha local e um circuito pelos restaurantes de Paraty.

A Folia e a Escola de Comer foram muito importantes para que a cidade recebesse da UNESCO, em outubro de 2017, o selo de Cidade Criativa por sua gastronomia.

Ao longo da carreira, Ana conheceu muitas mulheres — empresárias, cozinheiras, agricultoras — e isso a fez convicta de que a igualdade é essencial para que todos possam exercer a cidadania, fazendo do mundo um lugar melhor.

“Como mulher, tenho consciência de que o sexo feminino nunca me prendeu a nenhuma situação, acredito que lugar de mulher possa ser na cozinha e onde ela mais quiser estar, tendo direitos iguais a qualquer outra pessoa, independente de sexo ou crença.”

15 dias pela autonomia das mulheres rurais

Os papéis desempenhados pelas mulheres rurais são tão numerosos quanto suas lutas e vitórias. O que não faltam são histórias de vida inspiradoras. No entanto, elas ainda não têm o reconhecimento merecido. Sofrem com o preconceito e a desigualdade de gênero.

Ainda há um longo caminho para a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres no campo. A fim de mostrar que a equidade de gênero e o respeito são valores necessários cotidianamente, a ONU decretou 2018 como o Ano da Mulher Rural.

A partir de 1º de outubro, serão publicadas no portal da FAO uma série de reportagens que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe – 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.

Para acessar todas as matérias da campanha, clique aqui.


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