Cerca de 250 mil iraquianos poderão ser deslocados por novos conflitos em Mossul, alerta ACNUR

Ofensiva do governo iraquiano para reconquistar parte oeste da cidade poderá deslocar milhares de pessoas. Desde que teve início, em outubro de 2016, operação militar forçou 217 mil indivíduos a abandonarem suas casas. Desses, 160 mil continuam vivendo em acampamentos ou se deslocando em busca de segurança.

Família iraquiana que fugiu dos combates em Mossul recolhe itens de ajuda no acampamento de Hasansham, no Iraque. Foto: ACNUR/Ivor Prickett

Família iraquiana que fugiu dos combates em Mossul recolhe itens de ajuda no acampamento de Hasansham, no Iraque. Foto: ACNUR/Ivor Prickett

“Eles dizem ´se vocês não vierem lutar conosco, nós violentaremos suas mulheres, mataremos seus homens e humilharemos você´”. O depoimento é de Ahmed, um iraquiano cuja família está sitiada na parte oeste de Mossul, ainda sob controle de extremistas.

Vivendo atualmente no campo para deslocados forçados de Hasansham, localizado cerca de 40 quilômetros a leste da cidade, o jovem de 25 anos tenta manter contato com os parentes. Após o anúncio de uma operação militar do governo para reconquistar a porção ocidental de Mossul, a preocupação com a segurança dos familiares se tornou maior do que nunca.

“Eles estarão no meio do conflito, não há escapatória”, lamenta Ahmed. No último telefonema que trocou com os parentes, ele foi informado de que terroristas estão pressionando a população a lutar ao lado deles. Segundo o iraquiano, os que forem pegos utilizando telefones celulares em áreas controladas pelos grupos armados podem enfrentar uma punição extrema ou até mesmo a morte.

O acampamento onde Ahmed mora é administrado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), que aguarda uma nova — e dramática — onda de deslocamento forçado com as investidas militares.

Cerca de 250 mil pessoas poderão deixar a região sob ataques. Desde outubro de 2016, quando a ofensiva em Mossul começou, 217 mil iraquianos foram forçados a abandonar suas casas. Cerca de 160 mil continuam deslocadas, enquanto o restante já começou a retornar para os locais agora sob controle das autoridades.

O ACNUR está concentrando seus esforços na construção de campos para lidar com os novos êxodos. Existem atualmente oito campos abertos ou concluídos e outro em construção. O organismo internacional também já está planejando a criação de outro acampamento, na zona sudoeste de Mossul.

Nos campos existentes, ainda há espaço para mais de 27 mil pessoas. “Com a previsão do êxodo de cerca de 250 mil pessoas, será impossível acomodar essa quantidade de pessoas nos espaços que já existem. Nós identificamos outros terrenos que poderão ser utilizados como campo uma vez que as linhas de frente mudem”, disse o porta-voz do ACNUR, Matthew Saltmarsh, em coletiva de imprensa na última terça-feira (21).

Saltmarsh alertou que as condições de vida na populosa parte oeste da cidade estão piorando. Depoimentos coletados pela agência da ONU falam sobre escassez de alimentos, combustível e remédios. O representante do organismo internacional advertiu que as circunstâncias podem se agravar ainda mais se os civis “não conseguirem escapar do conflito”.

Outra moradora do campo de Hasansham, é Noor*, que há um mês foi forçada a deixar sua casa na vizinhança de Jadidah, ao oeste de Mossul, com o marido e quatro filhos. Eles pagaram a contrabandistas para atravessarem o rio Tigre de barco e ficaram com membros da família no leste da cidade por 20 dias, antes de partirem novamente em busca de segurança.

Noor, que tem 35 anos, disse que eles fugiram do oeste devido à falta de comida, eletricidade, gasolina e também por conta dos constantes bombardeios aéreos. Ela se preocupa com a segurança de seus familiares que permaneceram na região conflituosa da cidade.

“Eu conversei com eles há dois dias. Eles me disseram que as coisas têm ficado cada vez mais caras. Um saco de 50 quilos de farinha que costumava custar 20 mil dinares iraquianos (17 dólares), agora custa 150 mil (127 dólares)”, conta.

“As pessoas começaram a suplicar por comida e as famílias estão passando fome. Poucas pessoas podem pagar pelos altos preços. Eles estão pulando refeições e talvez se alimentem uma vez por dia; às vezes pão, às vezes lentilhas”, acrescentou Noor.

*Nomes alterados por razões de proteção.