CEPAL prevê retrocesso de 10 anos nos níveis de renda por habitante na América Latina e Caribe

A atividade econômica global está recuando mais mais do que o previsto há alguns meses, como consequência da pandemia de COVID-19. Com isso, aumentam os impactos externos negativos na América Latina e no Caribe por meio do comércio, dos termos de troca, do turismo e das remessas.

Nesse cenário, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) prevê uma queda de 9,1% para o Produto Interno Bruto (PIB) regional este ano. Para o Brasil, a projeção é de um recuo de 9,2%.

O documento lembra que a queda na atividade econômica é de tal magnitude que fará com que, até o fim do ano, o nível do PIB per capita da América Latina e Caribe seja similar ao observado em 2010. Ou seja, haverá um retrocesso de 10 anos nos níveis de renda por habitante.

Passageiros usam máscaras na estação Pinheiros, em São Paulo (SP). Foto: Agência Brasil/Rovena Rosa

Passageiros usam máscaras na estação Pinheiros, em São Paulo (SP). Foto: Agência Brasil/Rovena Rosa

A atividade econômica global está recuando mais mais do que o previsto há alguns meses, como consequência da pandemia de COVID-19. Com isso, aumentam os impactos externos negativos na América Latina e no Caribe por meio do comércio, dos termos de troca, do turismo e das remessas.

A região se encontra hoje no epicentro da pandemia e, enquanto alguns governos começaram a reduzir as medidas de contenção, outros tiveram que continuar ou até intensificá-las, devido ao aumento persistente dos casos diários da doença.

A conclusão é de Relatório especial COVID-19 N⁰ 5 da CEPAL, intitulado: Enfrentar os efeitos cada vez maiores da COVID-19 para uma retomada com igualdade: novas projeções, que foi apresentado nesta quarta-feira,  (15) pela secretária-executiva do organismo regional das Nações Unidas, Alicia Bárcena, em coletiva de imprensa virtual realizada de Santiago, Chile.

Segundo o relatório, dado que tanto o choque externo como o interno se intensificaram, a região apresentará uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 9,1% em 2020, com diminuições de 9,4% na América do Sul e de 8,4% na América Central e México. O Caribe terá uma queda de 7,9%, excluindo a Guiana, cujo forte crescimento leva o total sub-regional a uma menor contração (de 5,4%).

O documento lembra que a queda na atividade econômica é de tal magnitude que fará com que, até o fim do ano, o nível do PIB per capita da América Latina e Caribe seja similar ao observado em 2010. Ou seja, haverá um retrocesso de 10 anos nos níveis de renda por habitante.

“Agora é esperado um aumento também maior do desemprego, o que por sua vez provocará uma deterioração importante nos níveis de pobreza e desigualdade”, afirmou Alicia Bárcena em sua apresentação.

A previsão é de que a taxa de desemprego regional fique em torno de 13,5% no fim de 2020, o que representa uma revisão para cima (2 pontos percentuais) da estimativa apresentada em abril e um aumento de 5,4 pontos percentuais em relação a 2019 (8,1%).

Na nova estimativa, o número de desempregados deve chegar a 44,1 milhões de pessoas, o que representa um aumento de quase 18 milhões em relação a 2019 (26,1 milhões de desempregados).

Esses números são significativamente maiores do que os observados durante a crise econômico-financeira global da década passada, quando a taxa de desemprego passou de 6,7% em 2008 para 7,3% em 2009 (0,6 ponto percentual), indica o relatório.

A queda de 9,1% do PIB regional e o aumento do desemprego terão um efeito negativo direto sobre a renda familiar e sua possibilidade de contar com recursos suficientes para atender às necessidades básicas.

Nesse contexto, a CEPAL prevê que o número de pessoas em situação de pobreza aumentará em 45,4 milhões este ano, passando de 185,5 milhões em 2019 para 230,9 milhões em 2020, número que representa 37,3% da população latino-americana e caribenha.

Dentro desse grupo, o número de pessoas em situação de extrema pobreza aumentaria em 28,5 milhões, passando de 67,7 milhões de pessoas em 2019 para 96,2 milhões de pessoas em 2020, número que equivale a 15,5% do total da população.

A CEPAL também projeta uma maior desigualdade na distribuição de renda em todos os países da região: o índice de Gini deve aumentar entre 1% e 8% nos 17 países analisados, e os piores resultados são esperados nas maiores economias da região.

O documento lembra que os países da região anunciaram grandes pacotes de medidas fiscais para enfrentar a emergência sanitária e mitigar seus efeitos socioeconômicos. Além disso, a magnitude da atual crise levou as autoridades monetárias a incluir ferramentas convencionais e não convencionais em suas ações.

As ações dos bancos centrais da região foram encaminhadas não somente para atenuar os efeitos da crise e estabelecer as bases para uma possível retomada, mas também para preservar a estabilidade macro-financeira das economias.

“Embora os países da região tenham anunciado medidas muito importantes, à medida que o confinamento se estende são necessários esforços adicionais para satisfazer as necessidades básicas e sustentar o consumo das famílias”, disse Bárcena.

A CEPAL tem apresentado várias propostas, incluindo a implementação de uma renda básica de emergência como instrumento de proteção social, um bônus contra a fome – equivalente a 70% de uma linha regional de extrema pobreza (67 dólares de 2010) e cujo custo total é estimado em 27,1 bilhões de dólares (0,52% do PIB regional), e várias iniciativas para apoiar empresas e trabalhadores em risco.

“Para a implementação de qualquer uma dessas linhas de ação, é necessário fortalecer o papel das instituições financeiras internacionais de forma que possam apoiar melhor os países”, enfatizou Bárcena.

“Os esforços nacionais devem ser apoiados pela cooperação internacional para ampliar o espaço de política por meio de maior financiamento em condições favoráveis e alívio da dívida. Além disso, avançar na igualdade é fundamental para o controle eficaz da pandemia e para uma recuperação econômica sustentável na América Latina e no Caribe.”

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