CEPAL prevê contração de 1,8% para economia latino-americana em 2020 devido ao coronavírus

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) revisou para baixo suas projeções para a economia latino-americana e caribenha este ano diante da pandemia do novo coronavírus.

A estimativa é de uma contração de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) regional, o que poderá ampliar o desemprego na região em dez pontos percentuais.

Isso fará com que o número de pessoas em situação de pobreza na região suba dos atuais 185 milhões para 220 milhões, de um total de 620 milhões de habitantes; enquanto o número de pessoas na extrema pobreza pode subir de 67,4 milhões para 90 milhões.

Alicia Bárcena, secretária-executiva da CEPAL. Foto: CEPAL

Alicia Bárcena, secretária-executiva da CEPAL. Foto: CEPAL

A pandemia do novo coronavírus terá efeitos devastadores na economia mundial, mais intensos e diferentes daqueles registrados na crise econômica de 2008-2009. Os países da América Latina e do Caribe não sairão ilesos, pois terão diversos setores afetados.

O alerta foi feito pela secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), Alicia Bárcena, na quinta-feira (19).

A alta funcionária da ONU participou de uma teleconferência do Diálogo Interamericano sobre o Coronavírus e suas consequências sobre as economias latino-americanas e caribenhas.

Segundo Bárcena, a crise da COVID-19 ficará na história como uma das piores enfrentadas pelo mundo. Ela explicou que a doença coloca em risco um bem público global essencial, a saúde humana, e afetará uma economia mundial já fragilizada, tanto no lado da oferta como da demanda.

Seus efeitos também incluem a interrupção das cadeias de produção – o que afetará seriamente o comércio mundial – e a perda de renda e de lucros devido a uma alta do desemprego e maiores dificuldades para pagamento de dívidas.

“A América Latina e o Caribe, assim como outras regiões emergentes, serão afetadas negativamente”, declarou a mais alta autoridade da CEPAL.

Ela lembrou que a região cresceu a uma taxa estimada de apenas 0,1% em 2019 e que as últimas previsões da CEPAL feitas em dezembro previam um crescimento de 1,3% para 2020. No entanto, “as projeções foram revisadas significativamente para baixo diante do cenário atual”, afirmou.

Ele explicou que atualmente a CEPAL estima uma contração de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) regional, o que poderá ampliar o desemprego na região em dez pontos percentuais.

Isso fará com que o número de pessoas em situação de pobreza na região suba dos atuais 185 milhões para 220 milhões, de um total de 620 milhões de habitantes; enquanto o número de pessoas na extrema pobreza pode subir de 67,4 milhões para 90 milhões.

Bárcena explicou que o coronavírus afetará a região por meio de cinco canais. Um primeiro canal de transmissão dessa crise é o efeito da diminuição da atividade econômica de vários dos principais parceiros comerciais nas exportações de bens dos países da região.

A China, por exemplo, é um destino importante para as exportações de várias economias latino-americanas, sendo o principal parceiro comercial nos casos de Chile, Peru e Brasil. A CEPAL estima que as exportações da região para esse destino possam cair 10,7% em valor.

Um segundo canal vem da queda na demanda por serviços turísticos, que afetaria mais severamente os países caribenhos. Estima-se que, se a proibição de viagens devido ao vírus durarem um, dois ou três meses, a atividade turística no Caribe em 2020 terá contratação de 8%, 17% e 25%, respectivamente.

Bárcena acrescentou que um terceiro canal de transmissão seria através da interrupção das cadeias globais de valor. Isso afetaria principalmente o México e o Brasil, países que importam peças e bens intermediários da China para seus setores de manufatura (especialmente no caso de autopeças, eletrodomésticos, produtos eletrônicos e farmacêuticos).

Um quarto canal que afetará a região da América Latina e do Caribe é a queda nos preços dos produtos básicos (commodities), especialmente nos países que exportam matérias-primas na América do Sul.

Enquanto isso, um quinto canal de transmissão decorre da maior aversão ao risco dos investidores e do agravamento das condições financeiras globais, explicou ela. “Parte desses efeitos já pode ser vista no acentuado declínio nos índices do mercado de ações na região”, afirmou Bárcena.

Durante a teleconferência, a secretária-executiva da CEPAL também se referiu às medidas que os governos da região já estão tomando para tentar combater os efeitos econômicos negativos da pandemia. Elas vão desde ações de saúde para reduzir e prevenir infecções, até medidas de contenção social que buscam proteger os grupos mais vulneráveis.

Os governos também estão adotando medidas econômicas, fiscais e monetárias, que envolvem aumento dos gastos sociais, redução das taxas de juros, intervenção nos mercados de câmbio, suspensão de cobranças de empréstimos bancários, provisão de linhas de crédito para pagamento de salários nas empresas, congelamento de encargos por falta de pagamento em serviços de água e ações para evitar a escassez de bens básicos, entre outras.

Bárcena também destacou a importância de proteger os grupos mais vulneráveis ​​da crise, principalmente os idosos, os setores de baixa renda e os mais pobres.

“O grau de desigualdade também é importante para avaliar em que medida a crise afetará os grupos mais vulneráveis ​​da sociedade. Quanto mais desigual é um país, mais esses grupos vulneráveis ​​suportam o peso do impacto econômico da pandemia e menos recursos terão para combatê-la. Atenção especial deve ser dada às mulheres por seu duplo papel de trabalhadoras e cuidadoras”, afirmou.

Por fim, a mais alta autoridade da CEPAL pediu coordenação e cooperação global e regional para enfrentar a COVID-19. “Nenhum país pode combater esta pandemia sem cooperação global e regional.”

“No final das contas, o que realmente precisamos considerar é o que acontecerá com o multilateralismo. Deve haver mais integração. Definitivamente, devemos avançar em direção a uma maior coordenação e a prioridade das políticas deve ser como lidar com a atual crise social e de saúde”, enfatizou.

“Esta pandemia tem o potencial de rearmar a globalização geopolítica, mas é também uma oportunidade para lembrar os benefícios da ação multilateral”, disse Bárcena.

Segundo ela, isso é o que o secretário-geral da ONU, António Guterres, está fazendo. “Verificar como a coordenação de políticas pode apoiar os países em desenvolvimento, já que as assimetrias entre as nações desenvolvidas e em desenvolvimento ficarão cada vez mais evidentes.”

“Já vimos isso com todo o movimento de descontentamento social contra estes modelos de globalização, que não estão respondendo às expectativas das pessoas.”

“Precisamos repensar tudo, a economia completa. Precisamos de uma nova visão para focarmos em como superar esse cenário tão difícil que temos pela frente”, concluiu Bárcena.