CEPAL pede novo paradigma para a cooperação internacional com países de renda média

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Alicia Bárcena, chefe da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), alertou nesta semana que economias de renda média estão excluídas da lógica tradicional da cooperação para o desenvolvimento, que privilegia o PIB per capita para alocar recursos financeiros, mas nem sempre considera lacunas sociais estruturais.

Escola municipal em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco. Foto: OPAS/Joshua E. Cogan

Escola municipal em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco. Foto: OPAS/Joshua E. Cogan

Para que países emergentes consigam cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS), serão necessários novos parâmetros de financiamento na cooperação internacional, defendeu nesta semana (4) a chefe da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), Alicia Bárcena. Dirigente ressaltou que economias de renda média estão excluídas de fontes tradicionais de recursos, como a chamada assistência oficial para o desenvolvimento, destinada a países mais pobres.

Em reunião na sede da ONU, em Nova Iorque, Bárcena apontou que a aparente riqueza das nações de renda média, representada pelo Produto Interno Bruto (PIB) per capita, não reflete as lacunas estruturais dessas sociedades. Na avaliação da chefe da CEPAL, o PIB per capita — indicador principal da lógica da cooperação para o desenvolvimento — “não deve ser o critério de alocação de financiamento”.

A dirigente afirmou que é necessária uma redefinição dos critérios de distribuição de recursos para a cooperação entre países em desenvolvimento e desenvolvidos (Norte-Sul), entre nações emergentes (Sul-Sul) e também nos casos de colaboração triangular (quando dos países em desenvolvimento recebem apoio de uma terceira parte, seja ela um Estado rico ou uma organização internacional). Bárcena enfatizou que novas métricas devem orientar os fluxos de financiamento, levando em conta o desenvolvimento multidimensional dos países.

Segundo a secretária-executiva da comissão regional, serão necessários de 2,5 a 4,5 trilhões de dólares anuais em investimentos para cumprir os ODS e implementar outras agendas de crescimento econômico responsável e de ação climática — incluindo o Acordo de Paris, o Marco Sendai para a Redução de Desastres e a Agenda de Adis Abeba para o Financiamento do Desenvolvimento.

“Esta Agenda 2030 nos propõe uma mudança de paradigma para os países de renda média, diante de um complicado contexto mundial, caracterizado por uma crise do multilateralismo, uma deterioração do comércio externo e do investimento estrangeiro direto, um menor dinamismo da economia mundial, um mundo mais incerto e financeiramente complexo e uma revolução tecnológica sem precedentes”, afirmou Bárcena.

Dos 33 países da América Latina e Caribe, 28 são considerados de renda média. Isso significa que 85% da região não tem acesso a fontes de financiamento tradicionais, como a assistência oficial para o desenvolvimento. Uma solução para suprir essa lacuna de recursos é favorecer a cooperação Sul-Sul e triangular, segundo a chefe da CEPAL.

“Essa mudança de paradigma implica fortalecer a cooperação Sul-Sul, que traz mais horizontalidade, entrega um sentido maior de apropriação para o (país) receptor e um sentimento de responsabilidade compartilhada, tem um duplo dividendo tanto para o doador quanto para o receptor e estimula as capacidades tecnológicas de ambos. Ao mesmo tempo, a cooperação triangular tem o potencial estratégico de desafiar a atual governança do sistema internacional e abre para a reflexão sobre as formas de ajuda, ao definir novos consensos e atores”, apontou a dirigente.

Bárcena alertou ainda para a “armadilha da renda média”, na qual muitos países latino-americanos e caribenhos estão presos. Essas nações alcançaram o limiar de seu desenvolvimento tecnológico, mas não conseguem competir globalmente devido aos baixos salários. Estados também não conseguem chegar a níveis mais altos de inovação, mudança tecnológica e produção de bens e serviços intensivos em conhecimento.

“A armadilha da renda média é uma restrição generalizada ao desenvolvimento, uma vez que impede os países de manter o crescimento no longo prazo e convergir, ao mesmo tempo, rumo a economias mais avançadas. Os países da América Latina e Caribe estão continuamente lutando para superá-la”, completou a secretária-executiva.


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