CEPAL pede mais igualdade de gênero no acesso a serviços bancários

Para avançar rumo a sistemas financeiros inclusivos que contribuam para eliminar as desigualdades de gênero, é necessário contar com dados desagregados por sexo e assim romper com o silêncio estatístico que afeta as mulheres, disse na semana passada (10) a secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), Alicia Bárcena.

Segundo a chefe da CEPAL, as mulheres enfrentam barreiras para acessar o sistema financeiro e não gozam dos mesmos benefícios e direitos que os homens.

Para ela, as políticas macroeconômicas deveriam ser sensíveis às desigualdades de gênero, já que as mulheres acabam  amortecendo os choques econômicos nos períodos de crise, instabilidade ou recessão, principalmente através da sobrecarga de trabalho não remunerado.

Foto:Pixabay/kaboompics (cc)

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Para avançar rumo a sistemas financeiros inclusivos que contribuam para eliminar as desigualdades de gênero, é necessário contar com dados desagregados por sexo e assim romper com o silêncio estatístico que afeta as mulheres, disse na semana passada (10) a secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), Alicia Bárcena, durante a apresentação da 17ª versão do relatório “Gênero no sistema financeiro”, da Superintendência de Bancos e Instituições Financeiras do Chile (SBIF).

Bárcena pediu a transformação de “dados em informação, informação em conhecimento e conhecimento em decisão política”, tal como estabelecido pela Estratégia de Montevidéu para a Implementação da Agenda Regional de Gênero no marco do desenvolvimento sustentável até 2030, aprovada pelos países da região na 13ª Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, realizada em 2016 no Uruguai, e cuja próxima edição ocorrerá em Santiago do Chile de 4 a 8 de novembro de 2019.

A máxima representante da CEPAL liderou o lançamento do estudo junto à ministra da Mulher e da Igualdade de Gênero do Chile, Isabel Plá. Os resultados foram entregues pelo superintendente de bancos e instituições financeiras, Mario Farren.

A ministra Plá reconheceu que “a mulher no Chile está sujeita a um tratamento desigual”. “Enfrenta desigualdades no acesso ao emprego, no salário, nas pensões, no acesso à saúde, à educação, maior vulnerabilidade diante da violência. E, certamente, também enfrenta diferenças e dificuldades quando busca apoio financeiro”.

A última Pesquisa de Caracterização Socioeconômica Nacional (CASEN) mostrou que seis em cada dez pessoas em situação de pobreza no Chile são mulheres, e seis em cada dez chilenos que não contam com renda própria são mulheres, disse a ministra.

O relatório apresentado, no entanto, afirma que nos produtos de poupança a participação das mulheres supera a dos homens, que a demanda de serviços financeiros das mulheres tem um componente habitacional maior do que a dos homens e que os índices de atrasos, protestos e renegociação da dívida revelam um melhor comportamento de pagamento das mulheres.

O desafio mais importante dos bancos, explicou a ministra, é reduzir as barreiras para acelerar o progresso econômico do país. As chilenas, como demonstrou o relatório, têm um melhor comportamento frente ao compromisso financeiro que os homens, enfatizou.

Durante sua intervenção, Bárcena destacou a elaboração do relatório como uma boa prática que inspira outros países da região e que proporcionou a Cooperação Sul-Sul. Além disso, disse, é uma demonstração do compromisso do Chile com a implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, particularmente com as metas orientadas para a inclusão financeira das mulheres e seu acesso pleno a serviços de crédito, poupança e instrumentos para apoio do empreendimento produtivo.

Atualmente, o mundo enfrenta um contexto internacional incerto e complexo, que inclui a emergência de conflitos comerciais e geopolíticos e a crescente volatilidade financeira no nível global, explicou Bárcena. O setor financeiro está cada mais mais concentrado e interconectado entre poucos atores e países, desligando-se frequentemente da economia real e das necessidades das pessoas, completou.

Nesse cenário, “as mulheres enfrentam barreiras para acessar o sistema financeiro e não gozam dos mesmos benefícios e direitos que os homens”, enfatizou a alta funcionária. As políticas macroeconômicas deveriam ser sensíveis às desigualdades de gênero, já que as mulheres acabam  amortecendo os choques econômicos nos períodos de crise, instabilidade ou recessão, principalmente através da sobrecarga de trabalho não remunerado, salientou.

Apesar de avanços recentes, a taxa de participação laboral das mulheres na América Latina está estancada em torno de 52% (a dos homens alcança 76,6%). As taxas de desemprego continuam sendo significativamente  maiores no caso das mulheres (10,7% versus 7,6% dos homens) e a metade das mulheres ocupadas (51,4%) estão empregadas em setores de baixa produtividade, como emprego doméstico e o trabalho autônomo não qualificado, com precárias condições laborais, baixos salários e longas jornadas. Além disso, as mulheres ainda recebem salários 16,1% menores do que os homens em igual função.

A sobrecarga de trabalho não remunerado das mulheres também leva à falta de tempo e mobilidade, ressaltou a secretária-executiva da CEPAL. As mulheres na região dedicam entre um quinto e um terço do tempo diário ou semanal ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, enquanto os homens só dedicam aproximadamente 10% de seu tempo.

“A desigualdade de gênero continua sendo um traço estrutural em toda a região, e isso limita a autonomia das mulheres — a autonomia física, política e, especialmente, econômica”, concluiu Bárcena.


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