CEPAL: América Latina e Caribe não aproveitaram valorização dos minérios para desenvolver indústria

Embora tenha desempenhado papel importante no período de alta dos preços dos minerais metálicos, ao longo dos últimos 15 anos, região não buscou alternativas para agregar valor aos minérios.

América Latina e Caribe abrigam 47% de todo o cobre do mundo, mas sua participação no mercado de cobre refinado é de 16%, enquanto a produção da China, com reservas inferiores, representa quase 35%.

A mineração de ouro em Paracatu, em Minas Gerais, é liderada pela empresa canadense Kinross Gold Corporation. Foto: José Cruz / Agência Brasil

A mineração de ouro em Paracatu, em Minas Gerais, é liderada pela empresa canadense Kinross Gold Corporation. Foto: José Cruz / Agência Brasil

Atualmente, a riqueza mineral da América Latina e Caribe representa 66% do lítio, 47% do cobre, 45% da prata, 25% do estanho, 23% da bauxita e do níquel e 14% do ferro de todo o planeta. No entanto, a abundância — e o volume de investimentos estrangeiros atraído pelas matérias-primas nos últimos 15 anos — não foi suficiente para que países da região conseguissem aprimorar suas cadeias produtivas de minerais metálicos.

O alerta é da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) em novo relatório sobre os fluxos de capitais externos na regiões. O documento destaca a necessidade da região de expandir cadeias produtivas que podem aumentar o valor dos seus minérios.

O organismo aponta a crescente importância dessas commodities, ao longo dos últimos anos, para as economias latino-americanas e caribenhas. Nos anos 1990, a porção do investimento estrangeiro direto (IED) envolvendo empreendimentos de recursos naturais — incluindo aí, os minerais — era de apenas 16,6% do total. O índice atingiu 17,1% nos anos 2000, mas foi entre 2010 e 2014 que o valor chegou a 22,3%.

Nesses quatro anos, mais de 170 bilhões de dólares em IED chegaram aos setores de recursos naturais em projetos desenvolvidos pelas principais mineradoras transnacionais do mundo.

O levantamento da CEPAL ressalta ainda que, entre 2000 e 2015, 16% das operações mundiais de fusão ou aquisição no setor envolveram uma empresa da América Latina ou do Caribe.

Nossa região, que poderia ter aproveitado mais
o boom dos recursos naturais,
ao final deste ciclo de expansão,
não avançou nas cadeias de valor.

Nesse mesmo período, foram feitas transações no valor de 78 bilhões de dólares na região. Desse montante, 92% esteve distribuído entre corporações de oito países, com destaque para o Brasil, Chile, Peru e México — países receptores das transações.

O Brasil também foi citado por liderar a produção de ferro na América Latina e no Caribe durante o aumento da produção global de minérios associada à valorização dos preços desde 2003.

O período positivo para a região, contudo, tem sofrido os impactos da desvalorização dos minérios registrada a partir de 2012 e provocada pela desaceleração econômica da China e pela fraca demanda de países desenvolvidos por commodities.

Agora, nações latino-americanas e caribenhas estão pagando o preço de não terem investido em suas indústrias para agregar valor aos minérios. “Nossa região, que poderia ter aproveitado mais o boom dos recursos naturais, ao final deste ciclo de expansão, não avançou nas cadeias de valor”, lamentou a secretária-executiva da CEPAL, Alicia Bárcena.

O organismo regional comparou o desempenho da América Latina e do Caribe com a trajetória da China — que investiu um programas de industrialização a longo e médio prazo.

Ao mesmo tempo em que a potência oriental concentrou as importações de minérios por muito tempo, impulsionando a procura no mercado internacional, o país também apostou no setor de fundição e refinamento dos metais.

As reservas chinesas de cobre, por exemplo, são muito menores em comparação às latino-americanas, mas a China desenvolveu uma estratégia que lhe permite, hoje, importar o minério em estados primários para processá-lo e exportá-lo na forma de metais básicos ou elaborados.

Agregando valor em seu próprio mercado, a China alcançou uma participação de 34,8% na produção mundial de cobre refinado, ao passo que a América Latina e o Caribe são responsáveis por uma fatia de apenas 16% — embora liderem a extração do minério.

“Ainda quando não produzem, (os chineses) agregam valor às matérias-primas que compraram e acumularam. Nós as temos, não precisamos importá-las, poderíamos ter uma política industrial baseada nestas grandes reservas de recursos naturais”, alertou Bárcena.