Centro da ONU promove cine-debate no Rio sobre consequências da escravidão

O Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) realizou na terça-feira (7) no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, um cine-debate sobre a história do tráfico de pessoas escravizadas e as consequências da escravidão para a formação da sociedade brasileira.

Após a exibição do filme “1620-1789: Do Açúcar à Revolta”, um dos episódios da série documental “Rotas da Escravidão”, palestrantes convidados participaram de uma mesa e de uma rodada de perguntas do público de cerca de 120 pessoas.

Com direção de Daniel Cattier, Juan Gélas e Fanny Glissant, a obra retrata o período em que reinos franceses, ingleses, holandeses e espanhóis abriram novas rotas para o tráfico de pessoas escravizadas entre a África e o Novo Mundo, através do Oceano Atlântico. Estima-se que 7 milhões de africanos tenham sido transportados por esses trajetos.

“O objetivo do cine-debate é preservar a memória, os efeitos históricos do tráfico de pessoas escravizadas, e discutir as conexões entre escravidão, desigualdade racial, étnica e social que ainda existem na sociedade brasileira”, afirmou Rachel Quintiliano, oficial do Programa para Gênero, Raça e Comunicação do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). “Ou seja, olhar o passado e fazer uma conexão sobre o cenário atual”.

Junto à oficial da agência da ONU, que mediou o debate, também participaram Fernanda Barros, doutora em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professora adjunta do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com atuação em Relações Raciais, Gênero, Direitos Humanos e Políticas Públicas; e Filó Filho, produtor cultural, mentor do Movimento Black Rio, fundador da Cor da Pele Produções, motivador da Cultura Negra no Rio de Janeiro e responsável pelo CULTNE – Acervo da Cultura Negra e pela Flisamba – Feira Literária do Samba e Resistência Cultural.

Em fala após a exibição do filme, Fernanda Barros destacou que, mesmo após a Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, houve diversos impedimentos legais à emancipação da população negra. A Lei de Cotas de 1934, por exemplo, impedia a entrada de africanos em solo brasileiro, como parte de um projeto de embranquecimento da população.

A capoeira, que se tornou em 2014 Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), chegou a ser proibida após a abolição da escravatura. A proibição da manifestação cultural afro-brasileira, que durou de 1890 a 1937, “era destinada a escravos e ex-escravos considerados vadios”, explicou Fernanda.

Hierarquização social entre brancos e negros persiste

Ela destacou que, atualmente, no Brasil, somente no Ensino Superior é possível se aprofundar na pesquisa sobre a história do negro, o que dificulta a disseminação do conhecimento.

“Haja vista a hierarquização social entre brancos e negros no Brasil, a possibilidade de que a população negra tenha acesso a essa história é muito pequena. Por isso, a importância do ensino sobre os grupos africanos nos livros escolares”.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2015, somente 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos eram estudantes em instituições de ensino superior brasileiras. O número equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade, que eram 26,5% em 2015.

O produtor cultural Filó Filho ressaltou que o poder de fala da população negra está crescendo, mas ainda de forma lenta. Ele citou o caso de seu neto de 7 anos, que lia um livro infantil sobre Zumbi dos Palmares.

“Eu saí de casa com aquilo na cabeça. Eu nunca ouvi na escola sobre Zumbi dos Palmares. Eu nunca tive um livro sobre esse tema. Meu neto, com 7 anos, é consciente. Isso é o movimento negro que fez”, afirmou. “O movimento negro tem esse papel. É fundamental o ativismo, seja na academia ou no campo”.

Escravidão moderna atinge 40 milhões de pessoas

O diretor do UNIC Rio, Maurizio Giuliano, ressaltou que a maioria de nós aprende sobre a escravidão nos livros de história. Mas, infelizmente, a escravidão não é algo que pertence unicamente ao passado.

“A escravidão existe em torno de todos nós. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que mais de 40 milhões de pessoas hoje são vítimas da escravidão moderna, sendo quase 20 milhões em trabalho forçado”, disse.

“A escravidão, abolida no continente americano há mais de um século, segue influenciando a interação social, cultural e política entre as pessoas. Isso não permite que todos os seres humanos possam na prática gozar dos mesmos direitos, nem que se sintam realmente iguais frente à sociedade”.

A redução dessas desigualdades é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas. Esse conjunto universal de metas foi acordado entre os países-membros da ONU em 2015 e prevê ações para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar para todos, proteger o meio ambiente e enfrentar as mudanças climáticas.

Giuliano alertou ainda para o avanço da intolerância e da discriminação nos dias atuais. “Precisamos todos lutar contra aqueles políticos que exploram as diferenças para fins políticos. No meio do ódio, precisamos mudar o curso da história para uma melhor convivência e não para uma maior polarização baseada no discurso de ódio do populismo nacionalista”, afirmou o diretor do UNIC Rio.

“Para que os livros de história das gerações futuras não lembrem o século XXI como o século do ódio, precisamos – todos – fazer esforços enormes para combater o fenômeno”, completou.

A iniciativa do UNIC Rio também lembra o Dia da Abolição da Escravatura no Brasil (13 de maio) e o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Pessoas Escravizadas (25 de março).