Centro apoiado pela ONU no Marrocos ajuda mulheres vítimas de violência de gênero

A violência contra mulheres e meninas é uma das violações de direitos humanos mais frequentes no mundo. No Marrocos, estima-se que 63% das mulheres entre 18 e 64 anos tenham sofrido alguma forma de violência baseada em gênero.

Nesse cenário, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) apoia no Marrocos o Centro Al-Bathaa, destinado a fornecer aconselhamento psicológico e legal para sobreviventes desse tipo de violência, dando a elas importantes ferramentas para recomeçar. Leia o relato completo.

A marroquina Nuzha tinha 6 anos quando seu pai a forçou a trabalhar em casa para sustentar seus irmãos. "Eu era responsável por alimentar toda a família", disse ao UNFPA. Foto: UNFPA Marrocos

A marroquina Nuzha tinha 6 anos quando seu pai a forçou a trabalhar em casa para sustentar seus irmãos. “Eu era responsável por alimentar toda a família”, disse ao UNFPA. Foto: UNFPA Marrocos

“Sempre me senti sozinha. Todas as portas estavam fechadas”. Durante 25 anos, Alkabira* sofreu abusos físicos e psicológicos cometidos por seu marido em silêncio. “Quebrada. Era assim que eu me sentia”.

Ela pensou por muito tempo em terminar seu casamento violento, mas sua família era contra, afirmando que o divórcio traria vergonha.

O que devastou Alkabira acima de tudo foi o impacto que o casamento teve em seus filhos.

“Meu marido nunca desejou prover à família”, disse ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). “Meu filho e minha filha tiveram que abandonar a escola quando eram jovens para me ajudar”.

Alkabira não havia planejado ter quatro filhos. Sua irmã teve nove – todos em casa, já que seu marido era contrário a métodos contraceptivos e consultas médicas. Ela temia um destino semelhante.

“Minha irmã morreu muito nova e deixou dois filhos com deficiências. O pai os deixava confinados em casa em todos os momentos”.

O marido de Alkabira também proibiu uso de métodos contraceptivos. De acordo com pesquisa sobre população e saúde familiar de 2011 no país, homens são os únicos tomadores de decisões sobre planejamento familiar em aproximadamente 18% das vezes. Entre soluços, Alkabira expressou o quão culpada ainda se sentia quando teve que fazer com seu filho abandonasse a escola para ajudar nas despesas.

Quebrando o silêncio

A filha de Alkabira também sofreu com o peso da violência de seu marido. Foi ela que decidiu quebrar o silêncio – e foi assim que Alkabira conheceu o Centro Al-Bathaa, apoiado pelo UNFPA, para sobreviventes de violência com base em gênero.

“O centro ajudou através do aconselhamento e apoio psicológico que recebia lá”, disse. “Especialistas legais no centro também me ajudaram com procedimentos legais”.

Com apoio do centro, Alkabira encontrou a coragem e os meios de se divorciar de seu marido. Seu único arrependimento, disse, foi não ter tomado a decisão antes.

A história de Alkabira está longe de ser única. Violência contra mulheres e meninas é uma das violações de direitos humanos mais predominantes no mundo. No Marrocos, estima-se que 63% das mulheres entre 18 e 64 anos sofreram alguma forma de violência baseada em gênero.

O UNFPA é uma das agências das Nações Unidas que luta por uma maior igualdade de gênero, pelo empoderamento de mulheres e para responder às consequências físicas e emocionais da violência com base em gênero.

Programas do UNFPA fornecem assistências psicossociais, tratamentos médicos, kits para sobreviventes de estupro e promovem os direitos de todas as mulheres e meninas viverem livres de violências e abusos.

Novos começos

No Centro Al-Bathaa, mulheres também recebem treinamentos de habilidades e serviços de apoio à subsistência. Nuzha tinha 6 anos quando seu pai a forçou a realizar trabalhos domésticos para sustentar seus irmãos.

“Eu era responsável por alimentar a família inteira”, disse ao UNFPA. “Eu era uma menina pequena cuidando de outras crianças”.

Nuzha nunca foi à escola. Embora se considere com sorte por ter escapado de casamento infantil, ela não escapou de uma gravidez precoce. Após o nascimento de sua filha, se viu sem emprego ou sistema de apoio. “Eu estava totalmente sozinha. Eu não sabia para onde ir. Me senti totalmente perdida”.

No Marrocos, mães solteiras frequentemente enfrentam estigmas e outras barreiras para bem-estar econômico e social. Mas quando Nuzha conheceu o Centro Al-Bathaa, disse, tudo mudou.

“No centro, conheci o calor de amizades e de apoio. Também tive a chance de aprender uma vocação, que me permite caminhar com minhas próprias pernas hoje”.

Através de parcerias com o Ministério da Educação do Marrocos, Ministério da Saúde e organizações da sociedade civil, o UNFPA trabalha para melhorar acesso de jovens a serviços de saúde sexual e reprodutiva e para fornecer programas de ensino e apoio psicológico.

A relação de Nuzha com sua família melhorou significativamente a partir do apoio que recebeu no centro – tanto, segundo ela, que agora sonha em dar início ao seu próprio programa.

Alkabira também faz sua parte para chegar a outras vítimas de violência com base em gênero. “Nenhuma mulher deveria ser deixada sozinha perante violência”, disse.

*Nome alterado por questões de privacidade e segurança.


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