Casal de venezuelanos reconstrói vida no Mato Grosso

Os venezuelanos Rosaida Carreño, de 30 anos, e Elvir Castillho, de 38, chegaram ao Brasil em março, acompanhados de seus três filhos, em busca de melhores condições de vida. Inicialmente estabelecidos em Boa Vista (RR), aderiram ao processo de interiorização iniciado há seis meses pelo governo brasileiro com apoio da ONU Brasil e se dirigiram a Cuiabá (MT), onde hoje já têm emprego e planejam o futuro da família.

Os venezuelanos Rosaida Carreño, de 30 anos, e Elvir Castillho, de 38, chegaram ao Brasil em março, acompanhados de seus três filhos, em busca de melhores condições de vida. Foto: UNOPS

Os venezuelanos Rosaida Carreño, de 30 anos, e Elvir Castillho, de 38, chegaram ao Brasil em março, acompanhados de seus três filhos, em busca de melhores condições de vida. Foto: UNOPS

Os venezuelanos Rosaida Carreño, de 30 anos, e Elvir Castillho, de 38, chegaram ao Brasil em março, acompanhados de seus três filhos, em busca de melhores condições de vida. Inicialmente estabelecidos em Boa Vista (RR), aderiram ao processo de interiorização iniciado há seis meses pelo governo brasileiro com apoio da ONU Brasil e se dirigiram a Cuiabá (MT), onde hoje já têm emprego e planejam o futuro da família.

O casal teve que vender bens na Venezuela para conseguir comprar as passagens de ônibus para Boa Vista. Na cidade brasileira, onde uma irmã de Rosaida já estava instalada, ficaram em um abrigo repleto de barracas com colchonetes.

“Não nos acostumamos a viver daquele jeito. Não conseguimos trabalho. Então, quando chegaram os voos (de interiorização) da ONU, pensamos: ‘vamos, porque lá pode haver mais oportunidades de emprego'”, disse ela, em entrevista à ONU Brasil. Após 15 dias em Boa Vista, a família toda, incluindo a irmã de Rosaida, decidiu seguir rumo à capital mato-grossense.

Chegaram a Cuiabá no início de abril, em um dos primeiros voos do processo de interiorização, cujo objetivo é ajudar os solicitantes de refúgio e de residência venezuelanos a encontrar melhores condições de vida em outros estados brasileiros. Todos aceitam, voluntariamente, participar do programa e são vacinados, submetidos a exame de saúde e regularizados — inclusive com CPF e carteira de trabalho.

A iniciativa conta com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), da Organização Internacional para as Migrações (OIM), do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

“Nos disseram que haveria oportunidades (em Cuiabá) para tirarmos nossos documentos. Mostraram fotos, vídeos da cidade, e aceitamos ir”, declarou Rosaida. Em Cuiabá, os venezuelanos foram recebidos pela Pastoral do Migrante, que os abrigou por um mês.

“A primeira pessoa que conseguiu emprego foi minha irmã, em uma casa de família. Quando meu marido conseguiu, nos deram um tempo para que encontrássemos um lugar, e nos ajudaram com o primeiro aluguel e outras coisas para que pudéssemos equipar a casa”, explicou Rosaida, que continuou procurando trabalho, uma vez que o salário do marido não era suficiente para cobrir todas as despesas.

Elvir começou como ajudante de produção em uma empresa que comercializa e produz aço, e logo foi promovido a operador de empilhadeira. Agora, ele está tentando tirar a carteira de motorista, uma vez que gosta de dirigir caminhões — na Venezuela, trabalhava havia 12 anos na indústria petroleira. “Essa é a profissão dele e é com isso que ele quer trabalhar”, disse Rosaida. Pouco depois, ela também conseguiu um emprego como auxiliar de cozinha.

“Encontrar emprego foi um pouco difícil, porque não tínhamos carteira de trabalho e tivemos que esperar para tirá-la. Os funcionários da pastoral nos orientaram a não buscar trabalho fora, porque poderíamos nos colocar em situação como a de trabalho escravo, por exemplo. Da pastoral, tínhamos que sair com trabalho formal e carteira registrada”, contou.

“Ainda estamos nesse processo de nos adaptarmos ao trabalho, porque há muitas coisas que não entendo. Eu entendo o que me dizem, mas misturo o espanhol com o português e muitas vezes as pessoas não me entendem.”

Os três filhos do casal — que têm 4, 9 e 13 anos — estão se adaptando mais rápido ao novo país. Antes de se matricularem na escola, ficaram duas semanas tendo aula de reforço e de português na Pastoral do Migrante.

“Eles aprendem mais facilmente, mas notam a diferença. Porém, se adaptaram bastante. Gostam de ir à escola”, disse Elvir. “Os brasileiros são muito bons. Nos deram ajuda, trabalho. Muitas coisas que temos aqui foram doações”.

Situação na Venezuela

Mesmo com sinais de que a vida da família está sendo retomada no Brasil, Rosaida afirma que gostaria de retornar à Venezuela caso o cenário político, social e econômico melhore por lá.

“Sinto falta da Venezuela, porque deixamos tudo, amizades, família. E aqui estamos sozinhos. Apesar de eu ter vindo com a minha irmã, que sempre vem nos visitar, é difícil”, disse.

“Estamos juntando dinheiro para que eles (os familiares da Venezuela) venham, porque lá nos dizem que não têm dinheiro nem para comida. Além disso, não conseguem alimentos, mesmo quando têm dinheiro”, declarou ela, lembrando que, em seu país, o casal tinha uma casa e um carro, e Rosaida não trabalhava porque a renda de Elvir era suficiente para sustentar a família.

Sobre Cuiabá, Elvir afirma que a cidade é parecida com as venezuelanas Puerto la Cruz, Merida e Caracas. “Pode ser que nos estabeleçamos aqui e fiquemos trabalhando e, algum dia, voltemos. Aqui no Brasil há uma boa educação, e o que me interessa principalmente é que meus filhos estudem”, disse.

A entrevista foi feita na residência do casal, localizada em Carumbé, mesmo bairro da Pastoral do Migrante, onde muitos outros venezuelanos compartilham as mesmas aspirações.

Até agora, a estratégia de interiorização de migrantes e solicitantes de refúgio da Venezuela já alcançou 2.328 pessoas que decidiram ir para outros estados da federação. A última iniciativa ocorreu no fim de setembro, quando 122 pessoas foram transferidas para o Rio Grande do Sul (40 venezuelanos para a cidade de Cachoeirinha e 52 para a cidade de Chapada) e para São Paulo (30 venezuelanos).


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