Casal de refugiados sírios é acolhido em San Luis, na Argentina

Madj e Lana foram forçados a deixar Damasco devido aos conflitos. Cheios de esperança, eles agora estão recomeçando suas vidas na província de San Luis, na Argentina.

“Já estou me sentindo em casa”, diz Lana, sorrindo. “Aqui na Argentina reaprendemos a ser humanos”, acrescenta Majd. O relato foi feito à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Majd e Lana posam com suas bicicletas em frente ao condomínio em que vivem em San Luis, na Argentina. Foto: ACNUR/J. Aldwinckle

Majd e Lana posam com suas bicicletas em frente ao condomínio em que vivem em San Luis, na Argentina. Foto: ACNUR/J. Aldwinckle

Em uma ensolarada tarde no meio da semana, a cidade argentina de San Luis remete a um calmo oásis. Majd e Lana, casal de refugiados sírios de Damasco, estão fazendo hora antes de ir para a aula de espanhol. Nem parece que chegaram há apenas cinco semanas.

“Já estou me sentindo em casa”, diz Lana, sorrindo. “Aqui na Argentina reaprendemos a ser humanos”, acrescenta Majd, dando um trago em seu cigarro.

O casal não teve escolha a não ser fugir da Síria. Há dois anos, Majd, que é cozinheiro, quase perdeu a vida quando uma bomba atingiu a casa de seus pais na Cidade Antiga de Damasco. Ele e Lana, que é artista plástica, se casaram e compraram um apartamento distante do centro da cidade. Porém, rapidamente o local se tornou “o bairro mais perigoso de toda a cidade”, lembra Majd. “Todos estavam apavorados”.

Em fevereiro de 2017, chegaram a San Luis por meio de um programa de vistos humanitários para refugiados sírios oferecido pelo governo da Argentina. A tranquilidade da cidade contrasta com as mortes e destruições de Damasco. Com uma população de 200 mil pessoas, suas ruas vibram durante as manhãs. No entanto, à tarde, as lojas fecham enquanto a população local faz “siesta”, o cochilo vespertino.

A mais de 12 mil quilômetros de casa, o casal está indo bem. Como foram os primeiros refugiados sírios a chegar à província localizada no centro da Argentina, viraram celebridades. As pessoas já até os reconhecem nas ruas. “Às vezes, me sinto como um Pokémon”, brinca Majd.

Criado em 2014, o programa de visto humanitário da Argentina oferece uma alternativa vital para aqueles que foram forçados a fugir devido à guerra na Síria. Ele solicita que cidadãos argentinos, organizações ou instituições atuem como patrocinadores e se comprometam a disponibilizar recursos para oferecer acomodação e assistência financeira aos recém-chegados.

San Luis fez ainda mais. Foi a primeira província a se comprometer a destinar recursos públicos para apoiar o reassentamento de pelo menos 50 famílias na região, sendo que, desse total, 30 serão selecionadas pela Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR). Aqueles que forem reassentados têm a oportunidade de receber aulas de espanhol gratuitas, acomodação, educação (incluindo nível universitário), seguro de saúde e transporte público. Além disso, recebem dois anos de apoio financeiro para retomarem suas vidas na Argentina enquanto procuram emprego.

A oportunidade chegou em boa hora para Lana e Madj. Muitos de seus amigos morreram depois de terem sido recrutados pelo exército sírio. Outros morreram em combate. Conforme a violência foi ficando cada vez mais grave, o casal decidiu viajar para a Europa.

Porém, a religião deles – ambos cristãos ortodoxos – tornou a jornada impossível. Durante a rota, tanto por Idlib como por Alepo, eles cruzariam com milícias extremistas que os matariam devido às suas crenças. Esconder seu credo não era uma opção, pois Majd tem uma grande tatuagem de cruz em seu antebraço direito.

Depois que foram aceitos pelo programa de visto humanitário da Argentina, o casal deixou Damasco e foi para Buenos Aires. Ao chegarem no país, eles tiveram a liberdade de praticar sua religião. “Choramos de emoção quando fomos à nossa primeira missa”, disse Lana. Frequentemente, rezam em seu novo apartamento, que é parte de um bloco da acomodação para estudantes da Universidade La Punta, localizada a meia hora da cidade de San Luis.

Atualmente, dividem o apartamento com Blackie, uma espevitada cadelinha presente do governador da província, Alberto Rodriguez Saá. Duas vezes por semana, eles vão de ônibus ao centro da cidade para aulas de espanhol com a professora Cláudia.

Eles têm progredido de forma notável. “Nós entendemos tudo, só que ainda não temos vocabulário suficiente para responder”, explica Lana.

A população local tem mostrado entusiasmo em ajudar. Dentro do sistema de realocação, os residentes da cidade são encorajados a oferecer apoio aos recém-chegados. Alguns estão indo além, oferecem ajuda como tradutores e empresários oferecem empregos.

Mario Lange é um dos que foi além. Ele é artista e tem um ateliê na periferia da cidade. Com cores vibrantes, seus quadros e pinturas adornam os prédios públicos de San Luis. Ele se solidariza com a difícil situação de Majd e Lana. “Nasci em condição de extrema pobreza”, explica. “Eu vivia em uma remota região do interior, e quando vim para San Luis foi muito difícil”.

Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU em setembro do ano passado, o presidente da Argentina, Maurício Macri, se comprometeu a reassentar 3 mil refugiados sírios. Ele anunciou que famílias com crianças pequenas teriam prioridade.