Casal de produtores rurais de MG aposta na entrega direta a consumidores em meio à pandemia

A pandemia da COVID-19 e o isolamento social fizeram o casal de agricultores familiares do sul de Minas Gerais Jessica Chryssafidis, de 27 anos, e Conrado Pereira, de 35, apostar no serviço de entregas diretas aos consumidores, conectando o campo e a cidade.

Com a pandemia e o isolamento social, as vendas nos pequenos comércios locais e padarias diminuíram em cerca de 35%. Contudo, o que poderia significar uma crise para a família abriu uma janela de oportunidades, com a demanda crescente de pedidos de entrega em domicílio. “A perspectiva que vimos para lidar com essa situação foi a venda direta aos consumidores”, diz Jéssica. Leia o relato da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O casal de agricultores familiares Jessica Chryssafidis, de 27 anos, e Conrado Pereira, de 35, em seu sítio de Paraisópolis (MG). Foto: FAO

O casal de agricultores familiares Jessica Chryssafidis, de 27 anos, e Conrado Pereira, de 35, em seu sítio de Paraisópolis (MG). Foto: FAO

A pandemia da COVID-19 e o isolamento social fizeram o casal de agricultores familiares do sul de Minas Gerais Jessica Chryssafidis, de 27 anos, e Conrado Pereira, de 35, apostar no serviço de entregas diretas aos consumidores, conectando o campo e a cidade.

No sítio Lumiar, de 2,3 hectares, localizado no município de Paraisópolis, os jovens agricultores possuem uma pequena agroindústria de laticínios onde produzem queijos, iogurtes e outros derivados.

Com a pandemia e o isolamento social, as vendas nos pequenos comércios locais e padarias diminuíram em cerca de 35%. Contudo, o que poderia significar uma crise para a família abriu uma janela de oportunidades, com a demanda crescente de pedidos de entrega em domicílio. “A perspectiva que vimos para lidar com essa situação foi a venda direta aos consumidores”, diz Jéssica.

A produção de derivados de leite representa 70% da renda da família e, atualmente, são utilizados cerca de 5 mil litros de leite/mês. Como a produção da família é pequena, o casal também compra o leite dos vizinhos, garantindo uma renda para outros pequenos produtores locais.

Segundo Jéssica, a região é considerada uma “bacia leiteira, um importante vetor de desenvolvimento para famílias de agricultores locais, além de integrar o circuito turístico de Serras do Sul de Minas Gerais”.

O município de Paraisópolis conta com uma população de aproximadamente 20 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

COVID-19 impulsa as entregas diretas

Jéssica conta que a família já havia iniciado em maio de 2019 o serviço de “tele entrega”, com 30 consumidores de cidades da região do entorno, uma vez ao mês, em suas casas. Em fevereiro de 2020, a rede de consumidores cresceu, alcançando 150 clientes.

“Havia uma perspectiva de aumento desse mercado, porque os grandes centros urbanos carecem de produtos originados de pequenos agricultores”, diz.

A estratégia deu certo e, dois meses depois, a família planejou voltar a vender seus produtos para consumidores de grandes cidades como São Paulo e São José dos Campos, mas desta vez envolvendo outros produtores locais de pão, chocolate e pimenta como uma forma de “testar” uma nova forma de comercialização.

No entanto, o mês de abril também trouxe a COVID-19 para a região, provocando o fechamento de mercados locais e feiras.

Contudo, o cenário que poderia ser motivo de preocupação para a família trouxe novos consumidores urbanos: a família agricultora já contabilizava 300 clientes que recebem os produtos da agricultura familiar em suas casas.

“Ficamos felizes, mas assustados, porque não estávamos preparados em termos de infraestrutura para uma operação de vendas tão grande”, comenta Jéssica.

A aliança com outros agricultores locais

Para atender aos pedidos dos consumidores, a agricultora explica que chamou outros produtores familiares locais para comercializarem juntos, por meio de cestas de produtos.

“Vivemos uma situação inesperada e, de certa maneira, privilegiada, diante desse contexto. E nosso papel, nossa responsabilidade aqui na fazenda é mapear esses produtores que estão tendo dificuldades em vender para que possam comercializar conosco”.

Até o mês de maio, a família já conta com quase 500 consumidores, a grande maioria em centros urbanos.

Segundo Jessica, a família já está investindo na expansão da produção, com o envolvimento de mais de 10 pequenos agricultores de seu município e da região do entorno para a venda conjunta e já estão colhendo os frutos desta aliança.

“O resultado para nós e para os outros agricultores foi muito importante para a manutenção da produção e da renda das famílias envolvidas”.

Segundo Jessica, os planos para os próximos meses são organizar os agricultores da região em rede, desenvolver um site de vendas e estabelecer um cronograma de vendas quinzenais.

“Apesar dos desafios dessa crise, nos sentimos privilegiados porque estamos investindo muito rapidamente no aumento da produção, mais rápido do que prevíamos”, conta a agricultora. “Entendemos que as ‘bandeiras’ que sempre defendemos da produção local, do comércio justo e das cadeias curtas de produção e consumo são, finalmente, uma realidade para nós.”

Cuidados em tempos de COVID-19

Quanto aos cuidados de higiene e manuseio de seus produtos, a agricultora explica que a família sempre se preocupou com estes processos.

“Produzir queijos com segurança significa usar máscaras, roupas próprias, a higiene constante de mãos e sapatos. Agora, prestamos ainda mais atenção”.

Como uma grande parte das entregas são feitas nas cidades de São Paulo e São José dos Campos, centros urbanos com alto índice de contágio com a COVID-19, o uso de luvas, máscaras e gel de álcool fazem parte da rotina.

Como a família também investia no turismo rural com visitas ao sítio e estadia aos finais de semana, desde o início da pandemia, o casal encerrou a atividade turística para seguir as diretrizes de isolamento social. “Voltaremos com as atividades quando terminar a quarentena”.

Mulheres rurais, mulheres com direitos

Para o representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Rafael Zavala, a iniciativa do casal demonstra que a agricultura familiar precisa se reinventar, buscar novos formatos de comercialização, bem como impulsar a associação entre agricultores para, juntos, fortalecerem suas vendas e gerar mais renda.

“Fica evidente que parte da inovação de Jéssica está em sua visão da agricultura não apenas como uma geradora de produtos, mas também como uma geradora de serviços no próprio território em que atua.”

“Os circuitos curtos de comercialização são importantes para garantir a segurança alimentar local, diminuir a pegada de carbono, fortalecer a agricultura familiar por meio da associação e a inovação, para que juntos façam o que talvez não pudessem fazer individualmente e, principalmente, para alavancar o desenvolvimento territorial”, analisa.

A FAO promove há cinco anos a campanha #Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos, uma iniciativa conjunta e colaborativa de âmbito internacional e intersetorial na América Latina e no Caribe, para promover a visibilidade das mulheres rurais, indígenas e afrodescendentes em um contexto de desigualdades estruturais e desafios sociais, econômicos e ambientais. Diante do impacto da pandemia de COVID-19 na região, os desafios tornaram-se ainda maiores.

A agricultora Jéssica bem como outras mulheres rurais, desempenham em suas comunidades um papel crucial, como guardiãs de sementes, alimentos tradicionais, água, terra, recursos naturais, sabedoria ancestral, cultura, direitos humanos, entre outros, tornando-as verdadeiras guardiãs do desenvolvimento sustentável.