Capitão é 1ª militar brasileira a trabalhar no Departamento de Operações de Paz da ONU

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Primeira e única mulher brasileira a concluir uma missão de paz da ONU a bordo de um navio, a capitão de fragata Carla Daniel, de 51 anos, acostumou-se a vanguardismos. Desde dezembro do ano passado, ela também é a primeira militar brasileira a trabalhar no Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas (DPKO), em Nova Iorque.

Carla atua no Escritório de Assuntos Militares (OMA, na sigla em inglês), que faz parte do Serviço de Operações Militares em Andamento (CMOS), como oficial de assuntos de missões de paz. Ela faz o elo entre a missão, no caso a Força Interina de Segurança das Nações Unidas para Abyei (UNISFA), a ONU e o país que contribui com militares para essa operação, a Etiópia. Leia a entrevista concedida ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio).

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Primeira e única mulher brasileira a concluir uma missão de paz da ONU a bordo de um navio, a capitão de fragata Carla Daniel, de 51 anos, acostumou-se a vanguardismos. Desde dezembro do ano passado, ela também é a primeira militar brasileira a trabalhar no Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas (DPKO), em Nova Iorque.

Carla atua no Escritório de Assuntos Militares (OMA, na sigla em inglês), que faz parte do Serviço de Operações Militares em Andamento (CMOS), como oficial de assuntos de missões de paz. Ela faz o elo entre a missão, no caso a Força Interina de Segurança das Nações Unidas para Abyei (UNISFA), a ONU e o país que contribui com militares para essa operação, a Etiópia.

“Minha função é monitorar diariamente os fatos que ocorrem na missão, detalhar patrulhas, principais acontecimentos, como está a força naquele dia”, disse Carla em entrevista por telefone ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio). Antes de Nova Iorque, ela estava lotada no 1º Distrito Naval, no Rio.

Nascida na capital fluminense, Carla fez faculdade de Comunicação Social, ingressando na carreira militar em 1998 após ser aprovada em concurso para sua área de formação. Mas a vontade de ingressar na Marinha surgiu muito antes, quando tinha 16 anos e ainda era aluna do tradicional Colégio Pedro II, no centro da cidade.

“Em 1983, um professor deu uma palestra sobre a primeira viagem do Brasil à Antártida”, lembrou a capitão de fragata, e aquilo despertou o desejo de servir à Marinha. Ela ocupou diferentes cargos desde que ingressou na instituição, trabalhando em cidades como Salvador e Brasília.

Em 2014, candidatou-se para atuar como capacete-azul na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL). Foi aprovada para ser assistente militar do comandante e oficial de informação pública da força interina naquele país.

“Sempre quis trabalhar em missão de paz. (…) Essa coisa de você ajudar as pessoas, promover a paz e o bem-estar social, está presente desde a minha infância”, disse. “Me voluntariei pela primeira vez em 2004. Demorou dez anos para conseguir”, detalhou.

“Não era uma cultura mandar mulheres. Eu fui a primeira militar a cumprir uma missão de paz a bordo de um navio. A primeira e a única até agora na Marinha do Brasil.”

De agosto de 2014 a fevereiro de 2015, Carla permaneceu em uma embarcação com 263 militares homens que realizavam a patrulha da área costeira do Líbano. Tinha entre suas funções cuidar da agenda do almirante e da logística de suas visitas em terra. Também mantinha contatos com a imprensa local libanesa para tratar de assuntos relativos à operação.

“Muitas mulheres não se sentem confortáveis, até mesmo pela estrutura (do navio). A Marinha começou a recrutar mulheres somente em 1981. É algo paulatino. Tem sempre a primeira. É um desafio”, declarou.

Convidada a renovar seu mandato na missão, a capitão de fragata declinou o convite e, em 2015, decidiu voltar ao Rio, onde ficou encarregada da Comunicação Social da Marinha até se candidatar para o atual cargo, em Nova Iorque.

Apesar do trabalho no DPKO ser mais burocrático, Carla é a única militar feminina no escritório. Isso ocorre porque os cargos são muito concorridos entre as Forças, instituições historicamente lideradas por militares do sexo masculino.

Para se ter uma ideia, para se candidatar à posição que Carla ocupa atualmente, os candidatos precisavam ser tenentes-coronéis ou comandantes, ter experiência em missões de paz e graduação na academia militar. Carla reúne todos esses requisitos, além de mestrado e pós-graduação.

“Se levarmos em conta apenas os estudos acadêmicos, não é tanta coisa. Mas junte a isso a carreira militar e a participação em uma missão da ONU, então começa a ser mais difícil no Brasil e em alguns outros países encontrar uma militar mulher. Para chegar ao meu posto atual, levei 18 anos. Significa que depois de terminar a faculdade, você tem que esperar ao menos 18 anos”, explicou.

Carla enfatizou a importância da presença feminina nas operações da ONU. “Nas missões de paz, muitas vezes é difícil que mulheres vítimas de conflito procurem refúgio junto a um homem. Em uma missão, uma mulher faz diferença muito grande”, disse. Em 2015, ela participou de um curso de especialização da ONU em Pretória, na África do Sul, focado em preparar oficiais mulheres para cenários de conflito armado.

Para aquelas que desejam seguir carreira militar nas Nações Unidas, Carla aconselhou se preparar para atender os requisitos militares. “Para ir para a missão, tem que gostar de idiomas, saber respeitar a diversidade, que é primordial. Se preparar para a missão, ver o que é necessário para o currículo para ter condições de atuar, não só no DPKO, mas em campo, onde as mulheres fazem mais diferença”.

Ela reconhece que a pressão é grande. “Se você está fazendo algo que ninguém fez antes, não pode errar. Porque se errar, vai fechar a porta de todas que estão atrás de você”, concluiu.

Estratégia do secretário-geral da ONU

Em setembro de 2017, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou uma nova estratégia para a paridade de gênero na Organização, de forma a iniciar uma campanha para avançar com essa meta dentro das Nações Unidas.

A estratégia é um elemento central em sua proposta de reforma da ONU, em linha com o compromisso de modernizar a Organização e sua força de trabalho. A iniciativa fornece um caminho para atingir a paridade em níveis seniores de liderança até 2021.

“Esse objetivo não é apenas sobre números, mas sobre transformar nossa cultura institucional para que possamos acessar e capitalizar todo nosso potencial”, disse Guterres na ocasião do lançamento da estratégia.

Uma das medidas já foi colocada em prática. Em fevereiro deste ano, Guterres anunciou que, pela primeira vez na história, as mulheres são maioria nos cargos de direção do Secretariado da ONU.

O relatório divulgado com a estratégia mostrou que apenas cinco agências da ONU atingiram a paridade de gênero nos níveis profissionais e de liderança, enquanto a maioria está a 10 pontos percentuais de atingi-la.

Mas os números agregados mascaram uma forte sub-representação das mulheres em algumas das categorias mais essenciais: a gestão sênior e de liderança, e nas missões de campo, particularmente em áreas afetadas por conflitos onde a ONU tem papel proeminente.

Segundo o documento, há uma relação inversa no Sistema ONU entre cargos de liderança e representação das mulheres — quanto mais alto o cargo, maior a desigualdade de gênero; a desigualdade é maior no Secretariado do que no restante do Sistema em todos os níveis; e as desigualdades mais fortes, difíceis e persistentes estão nas operações de paz.

“As mudanças também têm sido muito lentas, com alguns níveis (de cargos) mostrando quase nenhum progresso em uma década”, disse o documento. “(A paridade de gênero) tem como objetivo criar um ambiente de trabalho que abrace a igualdade, erradique os desequilíbrios e seja inclusivo para todos os funcionários”, disse o secretário-geral da ONU na ocasião.


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